Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 18 de maio de 2012
ENSAIO & CRÍTICA
Carlos Evandro Martins Eulálio
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Mal sem reparação

[Carlos Evandro Martins Eulálio]

 

                       
            A notícia caiu como uma bomba. A moça está grávida. E de três meses.
Na cidade não se falava noutra coisa. A família sentia-se traída.
O rapaz, a princípio, não foi bem aceito. De tatuagem nos braços, piercing no nariz e ainda mais com aquelas ideias de comunista, deu trabalho pra fazer ponto na casa da namorada.
A custo, e com um jeitinho, as coisas foram-se acomodando...
Com uma conversa bonita, dizendo-se alguém de prestígio, inclusive amigo do governador, logo, logo posava de genro, almoçando aos domingos e fazendo a sesta em rede de tucum. Também pudera, com os agrados à dona da casa, tudo se encaminhava com mais facilidade.
Melhor ainda, depois que a incluiu no Bolsa-família e soube de suas preferências por doce de buriti do Ipiranga.
Nunca relaxava. Antes de dar carinho à filha, primeiro o caixote de doce pra mãe, que, vaidosa, orgulhava-se pras vizinhas de ter um futuro genro tão dedicado e, pasmem, moço de respeito, amigo de altas autoridades.
Mas agora que a desgraça tava feita, o espertinho queria tirar o corpo fora. Relutava em querer casar, pra reparar o “mal” que fizera à donzela, como diziam as tias solteironas.  
O janota vinha sempre com aquele discurso moderno pra mãe da moça, dizendo que tava iniciando na política e que dali por diante não lhe convinha pertencer a uma só pessoa, mas ao “povo da nação brasileira”.
As amigas, indignadas, não faltaram com o consolo e a solidariedade, sugerindo que ela tivesse uma conversa civilizada com o rapaz e, quem sabe, não o convenceria a mudar de ideia. Mas a velha, incrédula, respondia: “Não adianta, já implorei até de joelhos na frente dele, ninguém consegue fazer com que repare o mal que fez à menina.” E acrescentava: “querem saber da última? Anda por aí de peito estufado, com o rei na barriga, dizendo pra todo o mundo que agora é candidato a deputado e... pelo PT.” 

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Comentários (2)

Carlos Evandro: Há instantes lhe envei um comentário neste espaço, mas, por erro de falsa analogia, ao invés de , lá pelo final, dizer "reticências", usei "vírgula". Também não estou certo se , se ao enviar o comentário, houve problema técnico. Um abraço do Cunha e Silva Filho

Cunha e Silva Filho
postado:
09-05-2011 14:05:03

Carlos Evandro: O assunto do conto não é novo, nova é a forma lliterária, o contexto social, as artim has que escondem as im plicitudes de costumes de ideologia, inckusive o dado irônico no epílogo. A composição do da trama, inimiga de gorduras de palavras, espécie de mini-conto, se aproximando, em algus lances, de um Daltro Trevisan, esse vampiro de Curitiba. a história de um pilatra se passando por bom mocinho, deflorador de ingênuas mocinhas pobres, que lembra de longe também o capadócio do Cassi, de Clara dos Anjos(1923-1924), de Lima Barreto. Lábia, estilo kitch de indumentária e que logo associamos a peraltas do universo da malandragem. o sedutor "rapaz" desta narrativa sabe o que quer em se tratando do golpe da conquista de virgens incautas. Sabe atacar a presa mas com manhas de malandro talhado para o embste e as vantagens do sexo. Assim, se aproxima das pessoas-chave, no caso, a mãe da mocinha. Promete mundos e fundos, tudo para negacear os seus atos, até consegue para a mãe da menina uma bolsa-família. Pronto o terreno, os doces preferidos, as promessas de casamento, que não se cumprem. O lado polítco-ideológico (comunista, pretenso candidato ao PT) combin a perfeitamente com os seus planos de envolvimento de corações femininos, sobretudo de meninas pobres. Os vocábulo "comunista e o sintagma "candidato do PT" exercem um sentido simbólico das traquinas do pícaro, ou seja, associam-se logo com a "defesa dos mais humildes com promessas de mudnaç de cndição de vida melhor. O malandro da história sabe quasi os pon tos fracos do popvão, da gente da periferia, das carêcias materiais e sociais das vítimas. Sabe agradar qual um demagogo. A esta altura deste mini-comentário, o mini-conto adquire níveis de leituras mais profundas, ate mesmo alegóricas se quisermos paprofndar a camada funda do subtexto. O uso da vírgula reforça o viés por que tomei a leitura da narrativa. Não posso precisar qaue ponto a alegria se torna a palavra final do intérprete desse texto enxuto, solto, mas cudadosamente arquitetado, inclusive por um outro plano ligado às significações simbólicas, que é ausência de dar nomes aos personagens. Mini-conto elaborado sob o signo sugerir sem nomear, como faziam os simbolistas. E o não nomear mais diz do que o explícito. A literatura vale mais, pois, pelas ausências do que pela entrega dos seus enigmas ao leitor. Um abraço do Cunha e Silva Filho

Cunha e Silva Filho
postado:
09-05-2011 13:19:33

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