Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 18 de maio de 2012
ENSAIO & CRÍTICA
Carlos Evandro Martins Eulálio
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GLOBALIZAÇÃO: CONSEQÜÊNCIAS HUMANAS E COMUNICACIONAIS

 O dicionário Aurélio define Globalização como um “processo de integração entre as economias e sociedades dos vários países, especialmente no que se refere à produção de mercadorias e serviços aos mercados financeiros e à difusão de informações”.  Nessa definição, termos-chave como processo, integração, produção, mercadorias e informações apontam para uma série de reflexões acerca desse fenômeno que a todos inquieta, tanto em forma de exaltação, quanto  em sinal de protesto ou censura. 
 Apesar de ser uma palavra nova, a idéia de integração que em si carrega é bem mais remota do que se imagina. No nosso continente, por exemplo, fatos como a descoberta da América e a chegada dos portugueses ao Oriente, por via marítima, iniciaram o processo de comercialização de mercadorias e concorreram para unir a Europa e o Oriente às Américas.
No plano econômico, a Globalização caracteriza-se pela aceleração das transações comerciais, envolvendo mercadorias e capitais, em cuja teia de negócios ultrapassam as fronteiras nacionais. Essa ultrapassagem é possível através de fluxos de informações que simultaneamente atingem os mais diferentes pontos do globo, afetando empresas, indivíduos, enfim, a sociedade como um todo. Evidentemente, isso vem acarretando transformações com conseqüências imprevisíveis, de dimensões econômicas e sociais, como o desemprego, a informalidade, o enfraquecimento dos movimentos sindicais e corporativistas e a privatização do Estado, que se torna menor em relação à empresa, e esta, por sua vez, mais poderosa que aquele.
Sem usar essa terminologia, Weber foi o primeiro pensador a falar de Globalização, ao afirmar que a empresa, como tipo de organização prática, é capaz de afetar a soberania do Estado. Nesse cenário, os países globalizados são os mais penalizados por esse e outros impactos negativos. Um exemplo claro é a instalação de empresas multinacionais em seus territórios, com único objetivo de obter altos lucros, explorando a mão-de-obra mais barata, como é o caso da Nike, em Singapura, onde mantém avançada linha de montagem.  Acrescente-se que alguns países pobres, já penalizados com esse tipo de exploração, além de importar mais do que exportam, têm ainda de adquirir no exterior tecnologias mais caras, se é que desejam manter seus produtos no mercado num patamar minimamente competitivo.  Outro fator econômico que vem concorrendo para enfraquecer a economia dos países pobres é a constante ameaça de falência dos seus mercados financeiros, decorrente da especulação perversa contra suas moedas, sempre expostas a quedas bruscas de cotação nas principais Bolsas de valores do mundo capitalista.
 No âmbito das comunicações, a Globalização vem dotando o mundo de uma estrutura tecnológica descentralizada, porém mais interativa, abrindo para o homem novas fronteiras até então intransponíveis. Na condição de desterritorializado, isso lhe tem permitido produzir e distribuir informações a distância e ao alcance de muitos.
 Num contexto de leitura mediado por interfaces conectadas em rede, ele se vê de repente diante de experiências agenciadas pela hibridização de linguagens. Trata-se de um fenômeno intrinsecamente ligado à comunicação que se atualiza em trânsito. Esse nomadismo permite a produção de textos que se lêem nos computadores, enquanto estão em fluxo.
 Fala-se, por outro lado, e com muita insistência, no grande número de excluídos desse novo universo chamado ciberespaço. Pierre Levy rechaça essa crença, afirmando que a questão, ainda que séria, “não deve servir de cobertura para dissimular a amplitude das inevitáveis reviravoltas culturais, econômicas e políticas que nos esperam”. Com a invenção do alfabeto, surgiu o analfabetismo, inexistente nas culturas puramente orais, mas nem por isso, questiona o autor, constituiu razão para insurgência contra o alfabeto ou contra a criação de escolas. Os que temem a exclusão não são os desfavorecidos das nossas sociedades, mas os que se vêem ameaçados de perder uma parcela de poder, no bojo dessas transformações.
 Há, entretanto, um outro viés do problema, levantado pelos que imaginam que as novas tecnologias sirvam mais para isolar do que para agregar comunidades, uma vez que, realizando tarefas a distância, o homem se refugia no virtual e no imaginário. Aqueles que na era moderna têm atitudes mais realistas e criativas certamente continuarão utilizando as velhas e as novas tecnologias de comunicação, contribuindo para que nossa sociedade seja mais informada e menos alienada. 
É ainda equivocado supor que as múltiplas situações, que desfrutam as pessoas na grande rede, possam significar a dilaceração do ser, no plano da individualidade. No íntimo de cada indivíduo sempre permanecerá um ponto fixo, apesar das diversidades e impessoalidades estimuladas pela cibercultura.
O homem, como ser multidimensional por natureza, sempre recusará quaisquer tipos de totalitarismo. Se isso fosse válido como alguns acreditam, todos nós, daqui por diante, seremos robôs. Se nós não nos transformamos ainda em robôs, é sinal de que a multidimensionalidade do homem ainda existe e persistirá para resistir aos impactos das mudanças que se operam vertiginosamente no mundo contemporâneo.    

BIBLIOGRAFIA
AURÉLIO  (mini-dicionário),  São Paulo : Editora Nova Fronteira, 2002, p.348.
NETO, Euclides Guimarães. No mundo estetizado em que vivemos, In Revista  Sagarana, n.º 6, BH, 1999.

LÉVI, Pierre. A revolução contemporânea em matéria de comunicação. IN MARTINS, Francisco Meneses; SILVA, Jeremias Machado (Orgs). Para navegar no século 21 – tecnologias do imaginário e a cibercultura. Porto Alegre: Sulina, 2000.

 

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