Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 18 de maio de 2012
ENSAIO & CRÍTICA
Carlos Evandro Martins Eulálio
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A hora da "desdobra"

[Carlos Evandro Martins Eulálio]

No meu tempo de bancário, quando trabalhava no Banespa, na agência da Álvaro Mendes, esquina com a Barroso, vivi algumas situações  que me marcam até hoje. Por partes, lembro-me de algumas, como aquela protagonizada por dona Maria Divina. Vendia pastéis de carne com batata aos funcionários de agências bancárias e repartições públicas, nas primeiras horas da manhã, antes de fazer ponto na Praça Rio Branco.

Nosso intervalo para o lanche acontecia por volta das 9h, minutos antes do expediente aberto ao público. Nessa hora, lá estava Dona Maria Divina servindo com muita presteza seu conhecido e famoso pastel, acompanhado de suco de cajá, abacaxi, maracujá ou de caju. Os pastéis eram acondicionados numa cesta de palha, semelhante àquelas vendidas no Mercado Velho. O suco, em botijão de plástico, com torneirinha.
 
Naquela época, como encarregado da carteira de abertura de contas, pouco comparecia à cantina no horário do lanche, isso porque precisava pôr o setor em ordem, atulhado de pendências do dia anterior.  Mas Dona Maria preocupava-se muito comigo. Sempre me abordava, pedindo pra largar o serviço, pra ir merendar. Sempre lhe pedia que aguardasse um instante e já estaria na cantina, o que muitas vezes não acontecia. Quando dava pela minha ausência, dirigia-se novamente a mim, no mesmo tom,  com insistência. Quando percebia que eu estava desconversando, ela então ameaçava: “Vamos, homem, que já tá na hora da desdobra.”

Curioso, quis um dia saber o que era a desdobra. Ela então me disse que após todos tomarem o suco, completava o botijão com água e açúcar. O que ali sobrava transformava-se como o vinho das bodas de Caná, para ser servido em seguida aos frequentadores da praça Rio Branco e adjacências.

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Comentários (3)

Carlos Evandro: Simplesmente fantástica sua crônica. Tem alma,tem vida. Você, com esse seu talento, incluiu Dona Maria Divina na galeria das figuras pitorescas do folclore teresinense. E mais, passou dela uma imagem de pureza e humanismo, que, apesar da sua "desdobra" (belo neologismo)para ganhar o "pão de cada dia", fica até dsconfortável chamá-la de malandra, ainda que no bom sentido.Meus parabéns. José Ribamar Garcia

José Ribamar Garcia
postado:
06-03-2011 22:02:36

Caro Carlos Evandro: Por descuido, ao comentar-lhe a crônica, A hora da 'desdobra' chamei-o de "Carlos Eduardo", certamente levado por um erro de falsa analogia. Me perdoe. Não o cometerei mais. Vale esta errata. Abraços do Cunha ae Silva Filho

Cunha ae Silva Filho
postado:
11-02-2011 21:38:13

Carlos Eduardo: Termino , agora, a leitura de sua crôica sobre fatos curiosos do seu passado aí em Teresina, no tempo de suas vivências de bancário. Eu também já fui bancário. Trabalhei duas vezes, uma no CVity Bank, na seçãoç de cambio; outra, tambe na seção de câmbio. O City Bank queria me levar para ser trainee em Nova Iorque. Não aceitei, alegando que não era muito chega a bancos. As história que nos conta na crônica ilustra o compportamento de uma mulher que luta pra sobreviver e até pra fazer o bem da maneira que pode. A par disso, a crônica imprime o seu caráter memorialístico, i.e., ela se torna história social no sentido moderno em que essa disciplina tem hoje. Relatar costumes, incidentes do passado, construir a memória individual associada à vida comunitária, às formas de ganhar o pão de cada dia, gera conhecimento que, sem status de ciência, é produzido e filtrado seletivamente pela autobiografia do cronista e com uma vantagem a mais - a mais fecunda - ser escrita como texto literário de qualidade, somando humor, agilidade del inguagem, concisão no relatar fatos que, de outra forma, se perderiam pela ausência da comunicação escrita. Mudando de assunto, aproveito o ensejo, pra lhe agradecer pella sua especial presença no dia do lançamento de meu livro na querida Teresina. Um abraço do Cunha e Silva Filho

Cunha e Silva Filho
postado:
10-02-2011 15:57:08

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