Dilson Lages Monteiro Domingo, 26 de maio de 2013
ECLÉTICA
Eclética
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QUANTIDADE VERSUS QUALIDADE

ELMAR CARVALHO

 

No último sábado, na reunião da APL, o professor Paulo Nunes discorreu sobre a situação da Educação Pública no Piauí e no Brasil. Nessa discussão, que teve intervenções de outros confrades, feriu-se o aspecto da qualidade e da quantidade. O professor Jônathas Nunes, que foi reitor da Universidade do Estado do Piauí, em aparte, afirmou que através da quantidade podemos chegar à qualidade. E exemplificou com os milhões de espermatozoides na corrida desenfreada para a fecundação do óvulo, em que apenas um deles, um verdadeiro atleta dessa maratona, atinge o desiderato de fecundá-lo. Essa corrida seria seletiva, pois vence o melhor, ou pelo menos um dos que estavam mais bem posicionados.

 

Embora não seja eu um cientista, nem nunca tenha tido vocação para tal, ouso dizer que não concordo inteiramente com a assertiva do douto confrade. Ao menos em certas áreas e circunstâncias da atividade humana. Talvez na biologia a afirmativa possa não comportar exceção. No exemplo da fecundação, venceria o minúsculo “cabeça de prego” mais forte e mais veloz. Na teoria de Darwin, na sucessividade das gerações, com o aumento da população das diversas espécies, vão sobrevivendo os mais fortes, os mais inteligentes, os mais capazes.

 

Mas note-se que os sobreviventes são os que têm mais qualidades. Todavia, alguém objetará que essa qualidade foi obtida por meio da quantidade. Pode ser que, em alguns casos, a quantidade possa ser uma finalidade em si mesma, mas sempre seria melhor que a quantidade, qualquer que seja ela, tivesse excelente qualidade. Creio que sempre devemos buscar a qualidade, mesmo quando também buscamos a quantidade. Muitas vezes a expansão desmedida de algo termina por levar exatamente à perda da qualidade. A preocupação com o crescimento, não raras vezes, prejudica a qualidade, mormente quando isso ocorre de forma artificial e forçada.

 

De qualquer maneira, direi, pensando na Teoria da Relatividade do grande Einstein, que tudo é relativo, até mesmo, talvez, a própria relatividade. Se tomarmos um exemplo tirado de uma sala de aula, poderemos perceber facilmente que a quantidade muitas vezes prejudica a qualidade. Assim, na alfabetização uma professora será tanto mais eficiente quanto menos aluno ela tiver. Quanto mais ela concentrar a sua dedicação e acompanhamento a um grupo menor de discípulos, mais ela alcançará a sua meta e ideal, uma vez que a sua dedicação a cada um deles seria mais efetiva, mais constante e íntegra.

 

No aperfeiçoamento de raças bovinas isso também pode ser percebido. Conta-se que um fazendeiro, que tinha em torno de 300 reses, arrebatou os primeiros prêmios em certo concurso para criadores. Perguntado sobre o que teria acontecido se tivesse alguns milhares de cabeça de gado vacum, respondeu que provavelmente não teria recebido nenhuma premiação, porquanto não poderia ter cuidado bem de seu rebanho.

 

Em certa comarca, o escrivão me disse que admirava certo magistrado, pois as suas sentenças eram bem feitas, minuciosas, bem diagramadas, com enfeites, cabeçalhos, transcrições com recuo. Nesse tempo, a Justiça ainda não havia implantado o sistema Themis Web, e eu, no intuito de agilizar os processos que cresciam em número, por causa de vários fatores, que não pretendo aqui arrolar, prolatava algumas decisões e sentenças à mão, às vezes na folha de rosto da petição inicial.

 

Humildemente, ponderei-lhe que as partes não precisavam de decisão muito “bonita”, muito rebuscada, mas, quase sempre, desejavam apenas uma resposta rápida e justa. Nesse caso, a perfeição não estaria na beleza e nem numa fundamentação prolixa, mas na celeridade em si mesma. Quero com isso dizer que cada caso é um caso e que tudo neste mundo é relativo, e depende dos objetivos, das prioridades e das circunstâncias. Alguns anos depois, quando eu deixava a comarca em virtude de promoção, numa prova de humildade, o nobre serventuário me disse que eu tinha razão, e que a celeridade na marcha processual era de fato muito importante.

 

Em obra de arte, por exemplo, o que o autor busca é o seu ideal de beleza ou de perfeição, na concepção e no estilo que adotou. Nesse mister, adequa-se o ditado popular que diz ser a pressa inimiga da perfeição. A pressa, vale lembrar, aplica-se muito bem à busca da quantidade. Portanto, o grande artista trabalha sem açodamento, em busca da perfeição e da beleza. Conta-se que um artesão fazia a sua escultura com muito vagar e com muita atenção. Após quase concluí-la, lixava-a com cuidado; soprava o pó, e novamente lixava, cada vez com mais atenção e demora, retirando quase inexistentes imperfeições.

 

Um cliente, agastado com a lentidão, indagou sobre o motivo da morosidade, tendo o artista respondido:

- Se não é para fazer bem feito, para que fazer?

É que nas obras de arte não se busca a quantidade, mas a qualidade, e esta só é obtida sem a pressa, através de um trabalho metódico, detalhista, caprichoso. Atento a essas exigências para a criação de uma boa obra de arte, o grande poeta espanhol Antonio Machado asseverou que fazer bem feito as coisas importava mais que simplesmente fazê-las. Não tendo a menor pretensão de ser o “dono da verdade”, com essa citação parafraseada encerro este registro, deixando que o leitor tire as suas próprias conclusões.

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Comentários (1)

Elmar Carvalho: Na sessão da APL a que você se refere, o tema levantado por M.Paulo Nunes, sempre útil e atualizado, sobretudo ao nosso país, presta-se, como foi o exemplo ilustrado pelo seu artigo, a considerações fecundas em torno de "quantidade e "qualidade", e serve para direcionar nossas ideias em várias áreas do conhecimento humano. No que tange à beleza e à perfeição tão ansiadas pelos artistas da literatura, tem razão você quando afirma serem qualidades básicas de um bom trabalho ou obra, a paciência, a atenção, os detalhes, os cuidados a serem observados em todos os sentidos. Eu, muitas vezes, escrevo tomado pelo turbilhão de ideias que, muitas vezes me prejudicam. É um defeito meu querer publicar logo o que escrevo confianate nos anos em que uso da escrtia para expressar meus pensamentos e compor minhas obras. Você pode ver, em artigos meus, o quanto melhoro a estrtura sintática e a semân tica de um artigo, de uma crônica. Não falo do ensaio para o qual, por sua natureza específica de pesquisa alentada, eu me policio muito mais. Sou impulsivo, mas paradoxalmente sou perfeccionista. Sua crônica é rica de sugestsões. Cunha e Silva Filho

Cunha e Silva filho
postado:
16-06-2012 15:04:09

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