Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 18 de maio de 2012
ECLÉTICA
Eclética
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Ócio e trabalho

ELMAR CARVALHO

 

No primeiro dia, após o retorno de minhas férias, fiz reunião com os servidores de minha comarca, para a preleção inicial dos serviços correicionais do corrente ano. Disse-lhes e a mim mesmo, que o trabalho é uma bênção para os que gostam do que fazem, e uma quase maldição para os que trabalham apenas por obrigação, pela necessidade de seu salário mensal. Talvez, pensando nestes últimos, Deus, segundo a Bíblia, após a expulsão do homem do paraíso, dissera: “Comerás o pão com o suor de teu rosto”.

 

Dessa advertência divina, podemos inferir que no Éden os humanos não precisariam trabalhar. Alguns poderão concluir que o trabalho não seria uma coisa boa, uma vez que não existiria no paraíso perdido. Outros dirão que, apenas não haveria necessidade do labor, porquanto o espaço edênico era perfeito, com frutos e outros alimentos em abundância. De qualquer sorte, creio que o homem teria o trabalho de pelo menos colher os frutos. Também me é lícito supor que, sendo o homem perfeito, não haveria ganância; e, como não havia escassez, o homem não precisaria acumular as provisões em celeiros. Logo, a labuta da colheita deveria resumir-se a saciar a fome do momento, pelo que não haveria serviço estafante.

 

Nesse aspecto, seguindo essa linha de raciocínio, o nosso indígena sofre difamação, quando chamado de indolente e preguiçoso. Tendo ele, na época do descobrimento, uma agricultura rudimentar e praticamente não realizando a domesticação de animais e não tendo criatórios, sobrevivia apenas do extrativismo vegetal e da caça e da pesca. Não sabendo conservar os alimentos e não tendo maiores ambições, os índios não precisariam de celeiros nem de depósitos para acumulações desmedidas de coisas. Por essa razão, um espírito algo romântico poderia entender que os nossos silvícolas vivessem numa espécie de paraíso, já que não realizavam serviços de longa e extenuante jornada. De qualquer maneira, entendo que o ócio – não a preguiça – é importante, pois através dele, muitas vezes, é que o artista e escritor concebem a sua arte e a sua produção intelectual. Paulo, não o Apóstolo dos Gentios, mas o de Athayde Couto, disse: “Em busca do que fazer, lazer”. Na quietude do corpo, não raras vezes, o cérebro trabalha arduamente, até quase a exaustão.

 

Ocorre que os alimentos, em certas épocas e em certas regiões, eram escassos. Ocorre que os índios adoeciam, envelheciam e morriam; e sem dúvida, essas mazelas lhes entristeciam e lhes causavam preocupações, seja quando sentidas na própria pele, seja quando a vítima era um ser amado. E a Bíblia e os sábios teólogos nos dizem que no Éden não existiam sofrimento, nem doença, nem morte, nem tristeza e nem fome, posto que havia abundância e o homem era sem pecado, sem vícios e imortal. Dessa forma, para os nostálgicos do suposto paraíso brasileiro, os colonizadores destruíram o nosso Éden tropical. Para esses, o Brasil ainda deveria ser uma imensa selva intocada, com índios nus ou vestidos apenas com uma tanga sumária.

 

Acontece que os indígenas tinham arco e flecha, além de outras armas, como o tacape. Acontece que as tribos rivais brigavam entre si. Ainda hoje, em países atrasados, vemos, pela televisão, as guerras tribais. Logo, não há negar, índios matavam índios. Havia até os canibais ou antropófagos que devoravam carne humana. Quem não conhece o episódio famoso do bispo Sardinha? E consta que no jardim do Éden havia paz e beatitude. Portanto, a situação descrita não poderia configurar uma espécie de paraíso, sobretudo no molde do edênico. É claro que houve muitas atrocidades no nosso processo de colonização. Entretanto, os colonizadores de qualquer pátria as cometeram, uns mais, outros menos, sejam eles de Portugal, França, Holanda, Espanha, Inglaterra; isso para não falarmos nas barbaridades das guerras de conquista da idade antiga, e até mesmo de certas guerras ditas religiosas dos dias hodiernos.

 

Algum leitor impaciente, achando-me um tanto retrógrado e conservador, coisas que não o sou, deve estar a perguntar-se aonde quero chegar. Respondo: a lugar nenhum. Estou apenas tentando dizer que neste planeta não temos paraíso e nem homens perfeitos; que, por onde quer que vaguemos, em desertos de gelo ou de areias escaldantes, ou nas megalópoles regurgitantes de gente, conduziremos os nossos problemas, arrastaremos as nossas preocupações, os nossos fantasmas, as nossas indagações irrespondíveis e as nossas angústias existenciais.

 

Quero apenas dizer que a sociedade humana e o homem individualmente são sempre cheios de complexidades; que se o Brasil não tivesse sido “achado” pelos portugueses, o teria sido por outras nações, que de qualquer modo aqui aportaram, antes e depois dos portugueses. Quero somente dizer que somos o cadinho de várias raças e costumes, e que não existe nada que possamos fazer para mudar esse fato histórico. Aceitemos a realidade de nossa rica e diversificada cultura e miscigenação, e vivamos em paz com nosso semelhante, com nosso próximo e irmão.

 

Quero deixar claro que este registro terminou tomando um rumo totalmente inesperado, que eu não havia de modo nenhum planejado. Que, na minha conversa com os serventuários da Justiça, me restringi exclusivamente a falar da importância de gostarmos de nosso trabalho, de procurarmos gostar do que fazemos; de nos sentirmos felizes no cumprimento de nossos serviços, mesmo porque Cristo disse que “Se alguém quiser ser o primeiro, há-de ser o último de todos e o servo de todos”.

 

Por fim, lhes exortei que, na nossa velhice, já aposentados e algumas vezes entediados, talvez venhamos a ter saudade dos tempos do labor público, em que éramos procurados pelas pessoas, em busca de solução para os problemas que lhes afligiam, em que éramos úteis, necessários, e por vezes imprescindíveis, naquele momento e naquele posto e mister. Portanto, sirvamos. E sirvamos da melhor forma que pudermos. E, enfim, como bons servos, nos regozijemos em servir.

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