Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
ECLÉTICA
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O BRAVO CAVALO QUEIMADINHO

Elmar Carvalho

Lembrei-me hoje, insistentemente, de uma notícia que ouvi em programa de televisão, em que um rapaz insano derramou dois litros de gasolina num pobre cavalo e lhe ateou fogo. O animal correu desatinado e se espojou numa moita, se contorcendo e se retorcendo pelas dores atrozes que sentia, naturalmente na tentativa instintiva de debelar a chama que o adolescente imbecil provocara; claro que seu esforço foi inútil, e talvez o fato de rolar no chão, por causa das dores lancinantes que sentia, só tenha servido para avivar ainda mais as feridas causadas pelo fogo, que só se extinguiu com a última gota de tão inflamável combustível. O cavalo ainda teve força para chegar à casa de seu dono, como a pedir socorro. O pobre homem conseguiu que a Polícia Montada do Rio de Janeiro cuidasse do seu animal. Sua vontade de viver era tanta, que, mesmo tendo tido duas paradas cardíacas, conseguiu sobreviver. Rebatizado de Queimadinho, tornou-se uma espécie de mascote e símbolo da corporação policial. O que o rapaz idiota pretendia ganhar com a sua torpeza? Seria, acaso, um sádico, a se satisfazer em olhar um inocente e indefeso animal sofrendo? Que dores esse animal não terá sofrido, sem nada ter feito contra esse garoto de dezesseis anos de idade!... Fico admirado de esse bicho não ter perdido a fé na raça humana, pois foi procurar o dono e é carinhoso com as pessoas que cuidam dele. Ante o gesto estarrecedor do adolescente, a gente chega a pensar besteira. Certamente é possível que alguém tenha imaginado a hipótese de ser pingada apenas uma gota de gasolina no seu braço, para que ele pudesse ter uma pálida ideia de seu ato abominável. Ao ver a imagem do Queimadinho, lembrei-me do quadro da girafa incendiada de Salvador Dalí e destes meus versos: “Girafa incendiada sem poder pastar / na terra calcinada que ela própria queimava...” No meu discurso de posse na Academia Piauiense de Letras, narrei o seguinte fato, acontecido em minha juventude: “O homem, que cria animais para abatê-los, poderia ao menos evitar torturá-los, ou, ao menos, maltratá-los o mínimo possível. Recordo-me de que certa vez, perto de um mercado, vi um magarefe divertindo-se a dar machadadas na cabeça de um tenro e cândido cordeiro. Ria ao vê-lo estremecer com os golpes. Gostaria que esse carneiro, símbolo da mansidão, que sequer berrou ou esperneou, a exemplo da jumenta de Balaão, tivesse perguntado àquele homem bruto sobre por que o torturava. Ainda hoje me arrependo de não ter interpelado aquele homem rude e ignaro, embora correndo o risco de ele voltar contra mim o seu machado cruel.” A história do bravo cavalo Queimadinho me fez recordar um fato acontecido em Barras, no tempo da ditadura Vargas. Um delegado contemplou, da porta de sua repartição, um homem fazer várias tentativas de pegar o chapéu, que o vento arrebatara de sua cabeça. Quando ele se curvava para pegá-lo, vinha novo pé de vento e o arrastava. Quando finalmente conseguiu segurá-lo, o homem desferiu várias facadas contra o sombrero, como dizem os mexicanos. O delegado imediatamente, sem contar conversa, o mandou prender, sob o argumento de que quem procedia daquela maneira contra um inocente chapéu, que só lhe fazia benefício, bem poderia matar um ser humano. Se essa autoridade pensou isso em relação a uma coisa inanimada, posto que quem o movimentara fora o vento, que não sente dores e não morre, o que não pensaria em referência a um cavalo que teve mais de setenta por cento de seu corpo devastado pelas chamas ateadas bestialmente por um jovem, no paroxismo da crueldade humana. Para mim, esse rapaz foi mais irracional do que o quadrúpede que ele maltratou, de forma tão vil e tão covarde.

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