Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 18 de maio de 2012
ECLÉTICA
Eclética
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EM BARRA GRANDE, NA “MAISON FONTENELES”

 ELMAR CARVALHO

Combinamos, eu e o Canindé Correia, visitar o Jonas Filho Fontenele de Carvalho, que se encontra de férias em sua casa, em Barra Grande. Logo cedo, encontramos o Vicente de Paula (Potência), irmão da Dulce, mulher do nosso anfitrião, que se encontrava a conversar com o seu irmão Jorge. Convidamos o Vicente a ir conosco, mas ele disse que iria em outro carro, com a sua mulher, sua filha, seu genro e o neto. Após um caldo reforçado, resolvemos seguir pela estrada que passa pelo povoado Camurupim, onde fizemos uma rápida parada logística.

 

Observamos que havia um circo no povoado. Não era pobre, pois a lona e a empanada estavam em bom estado, assim como tinham bom aspecto as cadeiras e as arquibancadas, além de que havia veículos de propriedade dos circenses. Comentei que antigamente apenas os pequenos circos, chamados mambembes, de lona toda remendada, esburacada ou até mesmo sem lona, com somente uma orla de pano circular, se apresentavam em pequenas cidades e povoados. Alguns deles não tinham nem mesmo assento, tendo cada espectador de levar a sua cadeira ou tamborete.

 

As cidades grandes, cheias de atrações mundanas e de divertimentos, talvez já não ofereçam público para a arte dos picadeiros, com seus palhaços, equilibristas, malabaristas, trapezistas e mágicos. Muitas vezes não têm sequer espaço destinado aos circos, senão, talvez, na parte mais periférica da zona urbana, exceto para os circos poderosos e afamados, que podem alugar espaço privado e promover propaganda na televisão. Ao que parece os circos pequenos e de médio porte foram escorraçados das cidades maiores, que já não lhes oferecem nem lugar nem público, e agora buscam as pequenas urbes e povoados, como Camurupim. Canindé, que é economista, concordou com a minha “tese” econômica e sociológica, ou pelo menos não teve elementos para discordar frontalmente.

 

Sem muita pressa, deixamos a estrada principal, que segue para o Ceará, e percorremos a que vai para Barra Grande. Cerca de vinte quilômetros adiante, entramos no povoado, que já toma ares de cidade, com algumas ruas calçadas, e mesmo algumas que já tomam forma de pequenas avenidas. Após um pequeno equívoco do Canindé, que recebera o endereço do Vicente de Paula, localizamos a casa do amigo Jonas Fontenele de Carvalho, filho. Na placa de madeira do portão principal, estava escrito “Maison Fonteneles”, que já revela o espírito brincalhão e bem-humorado do seu proprietário.

 

Fomos recebido por João, o caseiro, que embora tenha dito que o Jonas não estava, nos convidou a entrar. A seguir veio a Dulce, que nos noticiou que o marido fora assistir a uma regata, mas que logo voltaria. Ficamos na palhoça, destinada à Diretoria, conforme assinalavam as placas ao redor dela. Por sinal, irei pleitear um cargo nela, nem que seja de bedel ou de aspone, ou mesmo de suplente do conselho consultivo. Não demorou muito, chegou o Jonas, que manifestou sua alegria em nos receber.

 

Estavam com ele o seu cunhado Crisóstomo e o seu sobrinho Arílton, de modo que a festa ficou completa, um pouco depois, com a chegada do De Paula e seus acompanhantes, já referidos. Estávamos presentes, portanto, quatro colaboradores (Canindé, Vicente de Paula, Jonas e eu) do jornal Inovação, sobre o qual, ao longo de mais de 20 anos, já me reportei em vários textos, avulsos, e aqui mesmo, neste diário, quase todos publicados na internet. O abrigo fica no quintal, de fofa, alva e macia areia, onde se vislumbram uns coqueiros e alguns pés de murici, além da paisagem plana e desértica do “salgado”, que somente a cada quinze dias recebe as águas da maré grande.

 

Expliquei que conheci Barra Grande mais de três décadas atrás, quando lá estivera em companhia do próprio Jonas e do Reginaldo Costa. Nessa época o povoado ainda era bem pequeno, mais se assemelhando a uma colônia de pescadores. O areal, que se estendia por todas as ruas, ainda não bem delineadas, davam-lhe um aspecto ainda mais bucólico. Nesse tempo, em qualquer boteco aonde fôssemos, a única música que se ouvia era a da “americana”.

 

O cantor (não sei se o Alípio Martins ou outro) repetia, quase à exaustão, que amava uma americana; que estava gamado nela e ia se casar com ela; que ela era linda para chuchu, e ainda lhe dava “tutu”. Em face dessa riqueza e da ênfase dada ao adjetivo pátrio, supus tratar-se de uma louríssima norte-americana, mas, para minha surpresa, não digo decepção, a musa do compositor era da América do Sul, não esclarecendo ele se se tratava de uma patrícia, aqui mesmo do Brasil.

 

Quando falei na música da americana, o João, que não bebe, mas não é bobo, ficou entusiasmado e foi buscar um violão, para tocá-la. Deu conta do recado, de modo que o acompanhamos a cantar, embora em coro desafinado e com frases às vezes truncadas. Fiquei sabendo que João é um “faz-tudo”; que é, literalmente, um homem de sete instrumentos, pois, além de fazer pequenos consertos hidráulicos, elétricos e de pedreiro, ainda é um violonista de talento. Ou, pelo menos, quebra o galho, e não o instrumento. Restou-me a dúvida, que não quis dirimir, se ele não seria um boêmio desviado ou em recesso.

 

No decorrer da conversa, em que o Jonas nos brindou com várias anedotas picantes da impagável e desbocada dona Tita, fiquei sabendo que ele está praticando kitesurf, canoagem, tênis e outras acrobacias e exercícios, o que me fez lembrar as peripécias e fanfarronices colloridas. Contou-me ele que, certo dia, ao levar seu equipamento de kitesurf para a praia, foi abordado por um garoto que, após chamá-lo de “tio”, de forma irreverente, indagou-lhe se estava indo alugar a tralha. Apesar de ser ele já um cinquentão ou pelo menos um cinquentinha, não gostou muito do questionamento do jovem, e deu-lhe uma resposta meio grunhida e não muito simpática, dizendo-se kitesurfista.

 

Mas, o que mais me causou admiração, foi quando ele nos revelou que já está pilotando avião, e que em breves dias estará pousando um teco-teco quase no quintal de sua residência em Barra Grande. Ao fundo da casa, existe um grande terreno, sem construções e sem árvores, que os nativos chamam de salgado. Esse deserto salitroso, apenas a cada quinze dias, na maré grande, por influência da gravidade lunar, quando o satélite atinge seu ponto de maior aproximação do oceano, torna-se inundado pelas águas marinhas. É nesse tabuleiro que ele pretende pousar o seu pavão misterioso. Quando o Jonas me exibiu uma gravação de celular, mostrando sua performance de aeronauta, ao lado do seu primo Paulo, piloto de alto curso e longo percurso, só em me imaginar ao seu lado, no avião, fiz o sinal da cruz, e murmurei para mim mesmo:

- Vade retro... retrocesso.

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