Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 18 de maio de 2012
ECLÉTICA
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ALMAS, BITUPITÁ OU PANCADA DE VENTO

ELMAR CARVALHO

 

Nesse meu passeio a Jericoacoara, como dito no registro anterior, passei pelo antigo povoado de Barroquinha, que não é mais nenhuma “barroquinha”, se é que já o foi. Ao contrário, é atualmente uma progressista cidade, com bela igreja, florescente comércio, e é cabeça de Comarca. Mais de três décadas atrás, passei por ela, em demanda de Camocim. Era uma pequena povoação. Mais ou menos na mesma época, passei no seu entorno, quando fui a um passeio no povoado Bitupitá, também chamado de Almas, que é um reduto de pescadores. Fomos eu, o Vicente de Paula (Potência) e o Volta Redonda, no Corcel II deste, um dos mais festejados automóveis da época.

 

O Volta Redonda era um funcionário aposentado do Banco do Brasil, que fez sua carreira profissional no Rio de Janeiro, mais precisamente na cidade de Volta Redonda, de onde lhe adveio a alcunha com a qual se tornou conhecido em Parnaíba. Era ele já um sessentão, simpático, bem-humorado, que parecia haver adquirido uma espécie de espírito carioca, que é uma maneira de ser e de ver a vida. Como é sabido, muitas pessoas, ao começarem o processo inexorável de envelhecimento, sentem uma nostalgia de sua infância e juventude, e por isso, em muitos casos, retornam ao seu pago natal. São como certos animais, que, ao pressentirem que a morte se aproxima, retornam ao seu local de nascimento. Volta Redonda talvez tivesse a premonição de que o termo de seus dias já estivesse próximo. Com efeito, três ou quatro anos após sua chegada a Parnaíba, veio a falecer, quando já morava em uma chácara no bairro Rosápolis.

 

Logo que ele retornou a Parnaíba, sua terra natal, fez amizade com o Canindé Correia, e através deste, comigo e com o Vicente de Paula. Ele combinou a viagem a Bitupitá com o nosso bravo Potência, que tinha vários parentes no povoado, inclusive o Borracha, já falecido, que era próspero comerciante do ramo de pesca. A estrada era de piçarra, mas o Volta Redonda tinha o pé de ferro, de forma que imprimiu boa velocidade ao veículo. O certo é que chegamos ao nosso destino sem maiores problemas, já ao entardecer.

 

Tomamos umas cervejas, tendo por tiragosto ova de peixe, e fomos a uma festa que estava havendo. O Volta Redonda era um boa praça, de alegria contagiante, e logo fez amizade com umas moças, e, não sendo mão fechada, antes um bonachão, lhes pagou a entrada no clube; o velho Volta era realmente um sujeito “indo e voltando”. Um pouco depois fui embora, para dormir, de modo que não sei se ele arranjou alguma namorada. No dia seguinte, à tarde, fomos convidados a “despescar” uns currais de pesca, que ficavam a aproximadamente um quilômetro e meio da praia.

 

Os pescadores, em seus barcos a vela, iam cantando ou fazendo algazarra, felizes, pegando parelha ou apostando corrida, por simples diversão. Gritavam, a incentivar os companheiros. Pilheriavam, quando um veleiro ultrapassava o outro. Para darem mais consistência às velas, de modo a que melhor aproveitassem a força do vento, jogavam água do mar nas velas; molhadas, elas recebiam com mais impacto o impulso da ventania, e assim obtinham maior velocidade. Quando chegaram aos currais, desativaram as velas e começaram o trabalho de recolher os peixes, presos entre as cercas labirínticas da armadilha. As águas eram verdes e transparentes, de uma beleza ímpar.

 

Comecei a olhar para as águas, cujas ondas passavam a sacudir o barco em que eu estava. Estando o veleiro parado, mas agitado pelas ondas, senti uma sensação estranha, uma forte tontura, como se o mundo estivesse girando. Eu havia sido advertido, antes da saída, de que poderia enjoar. O fato é que, sem nenhuma experiência em navegação pelo mar, tive ânsia de vômito, e não pude resistir a devolver o alimento, como diria o célebre conselheiro Acácio, criatura imortal da pena de Eça de Queiroz.

 

Já em terra firme e já recuperado do enjoo, considerando que não havia visto nenhuma alma – penada, depenada ou não – perguntei ao De Paula qual o motivo para o povoado se chamar Alma, e qual era o significado da palavra Bitupitá, que me era estranha. O Vicente, quando não sabe inventa, contudo não deixa ninguém sem resposta. Sobre a origem da denominação Alma já não me recordo de sua explicação, mas me parece que era um tanto fantasiosa.

 

Quanto à tradução de Bitupitá, palavra indígena, respondeu-me ele, sem titubeios, com o seu conhecido senso de humor:

- Olha, poeta, significa pancada de vento; mas eu senti mesmo foi pancada de cachaça!

É vero que esvaziamos algumas garrafas de cerveja, embora não tanto assim. De fato, deu para sentir na pele as agradáveis pancadas de fortes sopros marítimos. Felizmente, não vi nenhuma alma, nem mesmo o rastro, mas fui fustigado por “bitupitá”, que me açoitava a pele e os cabelos, então vastos, bastos e encaracolados.

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