Dilson Lages Monteiro Terça-feira, 21 de maio de 2013
ECLÉTICA
Eclética
Tamanho da letra A +A

ALEGORIAS DE “PARA ROMA COM AMOR”

ELMAR CARVALHO

 

O nosso compatriota Afonso Arinos de Melo Franco escreveu o livro Amor a Roma, cujo título, composto por dois anagramas perfeitos, uma vez que, lidos de trás para a frente, designam o outro, já revela a sua admiração e estima pela Cidade Eterna. Parece ser o caso do filme Para Roma com Amor, cujo roteiro e direção é do cineasta Woody Allen. Nele atuam célebres atores, como Alec Baldwin e Roberto Benigni. Devo esclarecer que fui assisti-lo por falta de outra opção, pois não gosto de comédias, e raramente as assisto, muitas vezes entre o tédio e o bocejo. Também fui motivado a enfrentar a película por admirar a história, a cultura e o patrimônio da velha urbe, embora não a conheça pessoalmente, mas apenas através de fotografias, filmes, músicas e livros. Fiz, pois, um turismo cinematográfico.

 

Deixando de lado os méritos e deméritos do filme, os célebres atores que nele atuaram, o valor do roteiro e da direção, abordarei somente as alegorias, que julgo haver encontrado nele. Além disso, sei que a obra cinematográfica fugiu da inclinação comercial das produções americanas, com excesso de efeitos especiais, ações em demasia, pancadarias espetaculares, retumbantes explosões e outros “atrativos” similares, tomando o caminho inusitado de velhas vanguardas, para usar uma expressão antitética, e talvez mesmo paradoxal.

 

Uma das alegorias que penso haver encontrado foi a do cantor de banheiro, que era um excelente tenor. Afastado do chuveiro, o diletante revelou-se um “cantador” medíocre. O empresário inventou uma astúcia para lhe revelar o talento inato, que não fora lapidado por conservatórios e maestros. Fez colocar no cenário da ópera um banheiro, em que o tenor cantou de forma prodigiosa, arrancando delirantes aplausos da plateia, que o ovacionou de pé. Creio que o sentido desse enredo foi mostrar que existem muitos talentos, em qualquer ramo artístico, que por falta de oportunidade ou de ambição, ou ainda por timidez, nunca serão revelados ao grande público.

 

Aliás, temos alguns casos em que esses artistas só são descobertos postumamente, através de trabalhos de críticos, que se convencionou chamar de “revisão”. Ou melhor seria chamar ressurreição? Entretanto, contrariamente, existem artistas bafejados pela fama, quando vivos, e que após poucos anos de mortos caem em completo esquecimento, deles não sendo mais reeditadas ou publicadas nenhuma obra, nem mesmo algumas poucas linhas em dicionários biográficos e enciclopédias.

 

Em alguns casos a mudança de gosto contribuiu para o sepultamento artístico; em outros, o fator determinante foi a autopromoção que deixou de existir. Ou seja, com a extinção do marketing pessoal, a glória do artista sucumbiu. Daí alguns considerarem o tempo como sendo o maior crítico, embora eu considere que ele possa também cometer algumas injustiças, com o império exacerbado dos modismos.

 

A outra parábola de Para Roma com Amor foi quando um dos personagens tornou-se subitamente famoso. Nem mesmo ele entendeu como ou por que lhe adveio a celebridade instantânea. De repente, passou a ser acossado por hordas de repórteres televisivos, que desejavam saber a sua opinião a respeito de tudo e de nada. Do sexo enigmático dos anjos ao “glamour” de uma simples meia desfiada. Tudo que ele fazia ou deixava de fazer passou a ter uma importância descomunal.

 

Porém, da mesma forma como veio a sua fama se foi, como num passe de mágica. Repentinamente, sem a mínima explicação, o personagem voltou ao anonimato de onde surgira. A princípio, ele teve um grande alívio, e comemorou esse fato em família. Depois, ao andar pela rua, sem ser cumprimentado por ninguém, sem ser incomodado por nenhum paparazzi, sentiu falta do antigo assédio, e surtou, chegando a ficar de cueca em plena avenida, sem que ninguém lhe desse a menor atenção, quando antes o tipo dessa veste íntima chegara a ser notícia. Sem dúvida, foi uma crítica, fundamentada no nonsense, aos minguados minutos de fama, que todos teríamos, a que se referia o comunicólogo McLuhan, um dos profetas da aldeia global.

 

Por fim, abordarei a outra nuança, de caráter alegórico, que julgo haver encontrado na peça cinematográfica. Seria o adultério, cometido tanto pelo marido como por sua mulher. O homem foi envolvido por uma situação que não procurou, até porque não a desejou, que foi num crescendo, o qual não seria nada interessante descrever aqui, até culminar nas vias de fato da traição. Era ele uma pessoa simplória, ingênua, que se casara virgem.

 

E achou de cometer a sua infidelidade conjugal com uma exímia profissional do sexo, que lhe ministrou algumas notáveis lições, que depois ele se arvorou em transmiti-la à mulher, que também o traíra em situação algo semelhante à sua; ou seja, quase meio sem querer, querendo. Sem entrar em detalhes, conheceu a professorinha um canastrão italiano, cujas interpretações admirara. Um tanto ingênua, foi se deixando envolver pelo ator, e foi perdendo as forças de resistência, também conhecidas como freios inibitórios.

 

A “coisa” estava para acontecer, quando entrou em cena um ladrão. Assalto consumado, repentinamente a porta do apartamento do hotel foi sacudida pela mulher do canastrão e seus acompanhantes, que ameavam entrar à força no recinto íntimo. Por sugestão do larápio, o conquistador de incautas donzelas foi se refugiar no banheiro, enquanto o gatuno fingiu abraçar a semi-adúltera.

 

Com a saída da mulher do ator, e deste, um pouco depois, o ladrão, como para coroar o “serviço” que já fizera, ao limpar a vítima de suas moedas e metais, terminou roubando a mulher do próximo, ao matreiramente lhe dizer o velho adágio de que a ocasião faz o ladrão. Vale dizer, faz também o adultério. Acho que foi esta a mensagem alegórica. Mas tudo terminou bem, em perfeita paz conjugal, com os cônjuges arrependidos, e resolvidos a retornar ao local de origem.

Compartilhar em redes sociais

Comentários (0)

Deixe o seu comentário


Reload Image








Últimas matérias da coluna

10.05.2013 - EXORCIZANDO O MEDO DA MORTE

03.05.2013 - RETRATO DE MINHA MÃE

28.04.2013 - SOLENIDADE ACADÊMICA EM AMARANTE

19.04.2013 - A GÊNESE DE “VIDA IN VITRO”

12.04.2013 - O LADRÃO E A LUA CHEIA

05.04.2013 - DA VÁRZEA DO SIMÃO AO JARDIM DOS POETAS

28.03.2013 - MONUMENTO E MEMORIAL AO POETA DA COSTA E SILVA

22.03.2013 - TEMPOS RECIFENSES – PARTE II

15.03.2013 - PERDIDOS & ACHADOS – TEMPOS RECIFENSES I

08.03.2013 - INICIAÇÃO MAÇÔNICA EM REGENERAÇÃO

23.02.2013 - A CUSTÓDIA DE OURO DE OEIRAS

14.02.2013 - JAMES TORRES, A MATERNIDADE E OS VELHOS MÉDICOS

08.02.2013 - BERNARDO DE CARVALHO, O FUNDADOR DE BITOROCARA (*)

31.01.2013 - REVENDO PEDRO II

24.01.2013 - NAVEGANDO O VELHO MONGE

Ver mais
Dicionário de Escritores Exercícios de criação literária




























Entretextos Acadêmico
Rádio Entretextos
Livros online Aúdios

Halan Silva fala sobre Pedra Negra


Poemas Insidiosos, de Caio Negreiros


Listar todos
Últimas matérias

20.05.2013 - Dedicatória de Epaminondas Barahuna a Agnello Bittencourt

E a estória JABUTI - O metereologista, da coletânea Estórias Amazônicas (Ed. O Cruzeiro, 1974)

20.05.2013 - Nº 5 - Boletim da regional RECORTE da associação de comunicação e semiótica

Regional Centro-Oeste/Norte (Recorte) / FORMOSA/GO, 20 de maio de 2013

20.05.2013 - MARCHA ZUMBI

Desde 2003 elas acontecem e eu não sabia. E quando soube, não acreditei! Não que eu tenha algum preconceito, nada disso. Afinal, quem gosta de vampiros não pode se dar ao luxo de criticar o gosto dos outros.

20.05.2013 - FUKUYAMA ELOGIA O BRASIL

FUKUYAMA DIZ QUE BRASIL SE SAIU BEM NA CRISE

19.05.2013 - Dois epílogos para os ditadores

Não existem diferenças

17.05.2013 - "A Rosa da Paz", de William Butler Yeats (1865-1939)

If Michael, leader of God's host

16.05.2013 - Djenné e Tombuctu, cidades magníficas do Mali

Ponto de encontro dos comerciantes vindos dos desertos do Sudão e das florestas tropicais da Guiné, a cidade de Djenné usufruía também do seu fácil acesso, por barco, a Tombuctu

15.05.2013 - A parte do Leão

Resenha de "As crônicas de Nárnia", de C.S. Lewis

15.05.2013 - HORÓSCOPO CHINÊS

Diferente do calendário ocidental, que é solar, o calendário chinês se pauta pelo movimento lunar, o que faz com que seu ano-novo aconteça sempre entre a segunda quinzena de janeiro e a primeira de fevereiro

15.05.2013 - O século de Proust

By Caroline Weber

14.05.2013 - Lula vai à Argentina para receber título de Doutor Honoris Causa de oito universidade do país

Doutor oito vezes

14.05.2013 - Eles não usavam porcelanas de Sèvres

Depois da Revolução Francesa, com o passar do tempo, a imagem dos sans-cullotes de Paris tornou-se sinônimo de luta contra as desigualdades e das próprias camadas populares

14.05.2013 - ABGAR RENAULT

Na minha vida nunca o vi.

13.05.2013 - A PRIMEIRA ESTROFE DE LE BATEAU IVRE

A PRIMEIRA ESTROFE

13.05.2013 - A saga do sultão Suleiman, o Legislador

Conduzidos por Suleiman, os turcos otomanos conquistaram Budapeste, capital da atual Hungria, e chegaram às portas de Viena (MATÉRIA ESPECIAL DE 125 ANOS DA ASSINATURA DA LEI ÁUREA E DO ANIVERSÁRIO [42 ANOS] DO APRESENTADOR GERALDO LUÍS, DA TV RECORD)

LABORATÓRIO DE REDAÇÃO PROF. DÍLSON LAGES
Baloon Center, Av. Pedro Almeida nº 60, Sala 21 (primeiro piso) - São Cristóvão - Teresina - Piauí - CEP: 64052-280 Fone (86) 3233 9444
e-mail: dilsonlages[@]uol.com.br