Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
ECLÉTICA
Eclética
Tamanho da letra A +A

A LEMBRANÇA DE BRUENQUE

ELMAR CARVALHO

No meu discurso proferido quando recebi o Título de Cidadão Regenerense, abordei o fato histórico do aldeamento dos índios nesta região. Falei na figura sinistra de João do Rêgo Castelo Branco, de sua fúria feroz e sanguinária na perseguição dos indígenas, e que por isso mesmo foi chamado de El Matador pelo poeta H. Dobal, em poema com esse título. Segundo me contaram, quando estavam sendo feitos os serviços de ampliação da igreja de São Gonçalo, foram encontrados indícios de que o local poderia ter sido um cemitério indígena. Feito esse breve preâmbulo, entrarei no mérito do que quero contar. Fui convidado, pelo presidente João Alves Filho, para fazer o discurso de louvação dos patronos da Academia Campomaiorense de Artes e Letras – ACALE, cuja solenidade aconteceu no dia 29 de maio. A peça retórica foi planejada para ser parte escrita e parte improvisada. Eu teria que falar, entre vários outros, em Bernardo de Carvalho e Aguiar, fundador da fazenda Bitorocara, que deu origem à cidade de Campo Maior. Foi um dos chamados heróis da Conquista e mestre de campo, considerado fundador de outras cidades, no Piauí e no Maranhão. Ressaltei que ele combatera os índios, porém sem a ferocidade e sanguinolência de João do Rêgo, o que desagradava os senhores da Casa dos Ávila, na Bahia. Citei os historiadores padre Cláudio Melo e Afonso Ligório de Carvalho para dizer que ele tinha o respeito dos índios, e que chegou a defendê-los e protegê-los da fúria de seus perseguidores. Porém, quando eu meditava sobre o que ia dizer sobre Antônio da Cunha Souto Maior, que o antecedera no comando das armas do Piauí, e que fora um feroz e brutal perseguidor de indígenas, tanto que foi assassinado numa espécie de rebelião de silvícolas, que estavam sob seu comando, aconteceu um fato estranho, para o qual não desejo emitir opinião, mas apenas dizer enfaticamente que aconteceu. Em Regeneração, cidade ligada aos massacres e extermínios de índios, por causa das deserções ocorridas no aldeamento de São Gonçalo, a que já me referi, resido num dos apartamentos do condomínio Pingo d' Água. Quando mentalizei o nome de Souto Maior, imediatamente minha rede vazia foi sacudida com muita força, e ouvi um ruído de ferros, como se fora um ranger de correntes. Isso foi ao entardecer, quase anoitecendo. Fiquei arrepiado durante um bom tempo. Em meu imaginário, era como se os espíritos dos índios trucidados quisessem protestar contra a lembrança de um homem cruel. Lembrei-me do bravo e indômito cacique Bruenque, em sua luta contra as crueldades, falsas promessas e traições dos seus algozes, cuja saga heroica foi bem relatada pelo historiador Reginaldo Miranda, em seu livro São Gonçalo da Regeneração, que está a merecer nova edição. Julguei que a agitação da rede tivesse sido provocada pela ventilação do aparelho de ar condicionado, mas verifiquei que suas aletas estavam direcionadas para baixo. E por que essa ventilação só sacudira a rede naquele dia e no momento em que pensei nas atrocidades do Souto Maior? Descarto, pela mesma razão, o vento que poderia passar pelas venezianas da janela do quarto, ainda mais porque a porta estava fechada e, portanto, não poderia ser formada uma corrente de ar. É certo que várias explicações poderão ser aventadas. Deixo que cada um fique com a sua. Eu, na minha condição de franco atirador e de não sectário, admitirei todas as possibilidades. Contudo, não me apegarei a nenhuma.
(*) Texto desentranhado do Diário Incontínuo, que venho publicando no meu blog http://poetaelmar.blogspot.com


 

Compartilhar em redes sociais

Comentários (0)

Deixe o seu comentário


Reload Image








Últimas matérias da coluna

06.02.2012 - VARIAÇÕES INTERTEXTUAIS SOBRE A MORTE

03.02.2012 - COMO ERA BOM AOS DOMINGOS...

01.02.2012 - A VINGANÇA DA CASCAVEL

30.01.2012 - O NOVO SHOPPING E OS ANIMAIS

27.01.2012 - OS VELHOS CASARÕES DE CAMPO MAIOR

25.01.2012 - ALMAS, BITUPITÁ OU PANCADA DE VENTO

18.01.2012 - PASSEIO A JERICOACOARA

16.01.2012 - RELEITURAS E RELEITURAS

15.01.2012 - EM BARRA GRANDE, NA “MAISON FONTENELES”

12.01.2012 - O MALANDRO FALASTRÃO

27.12.2011 - CARLOS SAID – MESTRE DO FUTEBOL E DA AMIZADE

25.12.2011 - LEMBRANÇA DE BATISTA COSTA

20.12.2011 - O DESTINO E A RELATIVIDADE

16.12.2011 - UM CASO DE PISTOLAGEM

10.12.2011 - NO PESQUEIRINHO

Ver mais

Dicionário de Escritores Entretextos Editora On-line
Entretextos Acadêmico
Rádio Entretextos

Twitter

Carregando...
Últimas matérias

10.02.2012 - Planeta-Casa de América anuncia seus finalistas

Planeta-Casa de América anuncia seus finalistas

10.02.2012 - Traduções de Poe

Quando organizei minha antologia de 2010, Contos Obscuros de Edgar Allan Poe, minha idéia era publicar em português alguns contos que, apesar de muito bons, eram menos conhecidos

10.02.2012 - Menos ais, mais vivas e satisfações, leitor!

Os hedonistas geralmente são alvos da crítica pelo apetite ao prazer

10.02.2012 - O contador de histórias

Nunca se soube se ele sabia ler e escrever.

10.02.2012 - Cidades Maranhenses recebem novas bibliotecas

Cidades Maranhenses recebem novas bibliotecas

10.02.2012 - Tentando entender o Brasil e o mundo

Mais um componente desfavorável desponta

10.02.2012 - A morte de Maurice Girodias, em 1990

O dono da famosa editora Olympia Press, de Paris, sofreu um enfarte quando estava sendo entrevistado, ao vivo, numa emissora de rádio francesa

10.02.2012 - Lucilene Gomes Lima: FICÇÕES DO CICLO DA BORRACHA NO AMAZONAS

Estudo comparativo dos romances A selva, Beiradão e O amante das amazonas

10.02.2012 - cronicasdesabado - nosso noticiário etc.

cronicasdesabado - nosso noticiário etc.

09.02.2012 - Antônio de Pádua é eleito titular da Cadeira 48 da ALRESC

Antônio de Pádua é eleito titular da Cadeira 48 da ALRESC

09.02.2012 - Jennifer Egan na Flip

Jennifer Egan na Flip

09.02.2012 - Lucilene Gomes Lima: FICÇÕES DO CICLO DA BORRACHA NO AMAZONAS

Escritores brasileiros abordaram amplamente os ciclos econômicos através de sua prosa.

08.02.2012 - O amante das amazonas: o ciclo sob o olhar de um analista-autor

Dissertação de mestrado: Estudo comparativo dos romances “A selva” (FERREIRA DE CASTRO), “Beiradão” (ÁLVARO MAIA) e “O amante das amazonas” (ROGEL SAMUEL),

08.02.2012 - Manual da criança Caiçara

Manual da criança Caiçara

08.02.2012 - Em memória do cantor e compositor Wando

A arte que resiste às estritas classificações de gêneros de produtos de cultura: [1] tradicional-popular (artesanal, folclórico); [2] erudito (erudito-clássico e erudito-vanguardista); e [3] pop (anticlássico, de ampla audiência)

LABORATÓRIO DE REDAÇÃO PROF. DÍLSON LAGES
Baloon Center, Av. Pedro Almeida nº 60, Loja 21 (segundo piso) - São Cristóvão - Teresina - Piauí - Fone (86) 3233 9444
e-mail: dilsonlages[@]uol.com.br