| ECLÉTICA |
Elmar Carvalho
A casa vive em mim
com os seus grandes medos
e grandes sobressaltos
com os seus porões
e os seus alçapões cheios de ratos
e gradeados por grandes teias de aranha.
A casa vive em mim
com seus insetos nojentos
e com suas aranhas
desenhando circunlóquios
através das circunferências das teias
repletas de arabescos e rococós.
A casa vive em mim.
Vive em mim
com seus gemidos
de fantasmas que
arrastam correntes
por entre ais doloridos.
Vive em mim
com suas lamentações de suicidas
que gemem e gemem.
Vive em mim
com os ruídos de passos misteriosos
com suas portas e
janelas que se abrem
e fecham por mãos invisíveis.
Vive em mim
com os ruídos cadenciados
de botas que passam
passam no limiar
do grande mistério
entre o ser e o
não ser.
A casa é um navio fantasma
que navega no tempo e na memória
com seus pios de corujas
e seus arrepios de
esvoaçantes morcegos e
esgarçantes rasga-mortalhas.
Ai, casa dolorosa
de infinitas recordações
do não acontecido e
do não vivido.
Casa que não existiu
mas que permanece de pé
em minha lembrança
com seus escombros
com tuas teias de aranhas
com seus lodos desbotados
e com suas heras que se fecham
como dedos, tentáculos ou raízes
para que ela permaneça para sempre
com seus sustos, com suas angústias
e seus medos.
A casa sempre persistirá
nas músicas passionais de algum boteco
criando ressonâncias que repercutem
insistentemente como eco.
O livro “Dom Casmurro” (1899) conta a história de Bento Santiago, mais conhecido como Dom Casmurro
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