Dilson Lages Monteiro Domingo, 26 de março de 2017
ECLÉTICA - ELMAR CARVALHO
Eclética
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Uma fotografia antiga

Elmar Carvalho

Ontem, por simples desfastio do ócio ou simplesmente para driblar o tédio, dando-lhe ainda de quebra um chutão nas canelas, fui folhear o livro Dalí, da autoria de Carolina Brook, recheado de belas fotografias, sobretudo das mais importantes obras do grande pintor surrealista. O livro me fora ofertado pelo italiano Alfredo Fait, já falecido, que se hospedava no mesmo condomínio que eu, em Parnaíba.

Foi uma excelente retribuição aos livros Rosa dos ventos gerais (2ª edição) e Lira dos cinqüentanos, ambos de minha autoria, que lhe autografei, dos quais ele me assegurou, por e-mail, haver gostado. Após lhe haver entregado os livros, ele viajou para Belo Horizonte, onde trabalhara no consulado italiano, e na primeira viagem que fez à sua terra natal adquiriu o álbum das obras de Dalí, para me presentear. Em virtude de só ter conversado com ele em duas ou três ocasiões, já que ambos não residíamos no condomínio (mas ele em BH, e eu em Teresina), não posso dizer que fomos amigos próximos.

Quando ele faleceu, cerca de um ano depois, o senhor Swami me telefonou, seguindo orientação da família de Alfredo Fait, para me perguntar se eu desejava ficar com os livros dele. Respondi-lhe que gostaria de ficar apenas com alguns dos livros de arte, e que sugeria fossem as demais obras doadas à Biblioteca Pública Municipal de Parnaíba.

Autorizado a fazer os contatos necessários, liguei para o secretário de gestão da Prefeitura Municipal, o escritor e poeta Alcenor Candeira Filho, que adotou as providências necessárias para arrecadar os livros, que foram prontamente entregues. Desnecessário dizer, mas direi: por uma culpa que não atribuo a ninguém, terminei não ficando com nenhum livro. Talvez tenha sido melhor assim.

Retomo o fio da meada. Ao atingir a metade das páginas do livro sobre a vida e obra de Dalí, encontrei uma velha fotografia, com certeza tirada em 1976; portanto, já lá se vão mais de 40 anos, quando eu tinha vinte de idade. Esbelto, ostentava uma cabeleira longa e ondulada, como era moda na época. Camisa de malha apertada, um cinto e uma calça quadriculada, boca de sino, compunham minha indumentária.

Estou de pé, segurando uma espécie de diploma, e me dirigia a pequeno auditório, que não se vê na fotografia. A meu lado, sentado numa cadeira colegial, estava o senhor João, dono do curso pré-vestibular, em que eu fazia o terceiro ano do antigo curso Científico. Eu iria presidir uma agremiação estudantil, que estava sendo criada. No ano seguinte, como na música de Martinho da Vila, passei no vestibular, e fui cursar Administração de Empresas em Parnaíba.

Ao me deparar com essa antiga fotografia, que não lembrava estar guardada no álbum que folheava, não posso negar que tive saudade de mim mesmo, do rapaz emotivo que fui, por vezes ingênuo, desprovido, quase sempre, de maldade e de malícia, sabedor de que Deus protege os tolos e os inocentes. Lembrei-me destes meus versos, em que proclamo sentir

A nostalgia do rapaz que fui,

Tão emotivo, tão sentimental (...)

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