Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 24 de março de 2017
ECLÉTICA - ELMAR CARVALHO
Eclética
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HISTÓRIAS DE ÉVORA - Capítulo XXXVIII

 

Este romance será publicado neste sítio internético de forma seriada (semanalmente), à medida que os capítulos forem sendo escritos.

Capítulo XXXVIII

            Epílogo

             Elmar Carvalho 

           Com a continuação do namoro, Marcos e Lívia puderam se conhecer melhor, em suas qualidades positivas e defeitos. Sentiam a falta um do outro, e não perdiam a oportunidade de estar juntos. Mesmo em seus silêncios, o rapaz sentia que a moça o compreendia, como nenhuma mulher antes o compreendera.

Passou a lhe frequentar a residência, e observou quão ela era boa irmã e excelente filha, afetiva e atenciosa. Na verdade, formavam uma exemplar família de classe média, muito bem constituída. Seus pais eram unidos, e nunca os viu discutindo, ou um levantando a voz além do estritamente necessário.

Não demorou a compreender que Lívia era a sua “cara metade”, e que parecia feita para ser a sua esposa. Não tinha nenhuma dúvida, era Lívia a sua mulher ideal, conquanto a notasse levemente possessiva e um tantinho ciumenta. Mas esses eram pecadilhos quase virtudes, e a seu ver facilmente perdoáveis. Na verdade, isso quase lhe proporcionava certo júbilo.

No começo do ano, quando fizera 33 anos de idade, ainda com aparência jovem em seu início de maturidade, Marcos combinou o casamento com Lívia para o final de maio, o mês das noivas, embora não tenham formalmente firmado esse compromisso, com trocas de aliança e tudo mais que a praxe recomendava.

Sabia que sua vida mudaria bastante, e que a sua liberdade minguaria, pois Lívia lhe merecia todo respeito, atenção e carinho. Mesmo porque, disso tinha plena consciência, as relações afetivas, sobretudo as conjugais, eram feitas de trocas e correspondências, e se ele desejava esse tratamento, deveria de igual forma tratá-la.

Por isso mesmo, no final de semana que antecedera o de seu casamento, resolveu ir a Évora, para comemorar a sua despedida de solteiro, o seu bota-fora da condição de homem livre, sem freios e peias conjugais. Cauteloso, para não criar nenhum problema antes de seu casório, convidou-a a ir em sua companhia. Mas ela, mulher sábia, ouviu os conselhos da mãe, e o deixou partir sozinho, pois reconhecia que aquele deveria ser um momento só dele e de seus amigos, contanto que não houvesse nenhuma sirigaita pelo meio.

Preparou uma trilha sonora de sua despedida de solteiro, gravada com esmero na melhor fita K7 da época, e seguiu a ouvi-la no toca-fitas de seu Monza prateado. Ao chegar em Évora, um pouco depois do meio-dia daquele sábado, percebeu que a sua despedida seria a de um homem só; a sua despedida seria de si mesmo, ou melhor, da vida livre, leve, solta, sem amarras e cabrestos, que levara até então. Mas sabia que o casamento tinha lá as suas vantagens, senão ninguém casaria, lógico.

Mário Cunha já se tornara carioca há um bom tempo, Fabrício viajara em inspeção a uma de suas lojas e Maurício Vanderley fora passar o final de semana em sua fazenda na Serra do Cachimbo. Marcos, conquanto se policiasse, não pôde deixar de lembrar, com saudade, de Ester, prima do amigo, linda serrana, de estelares olhos azuis, que nunca mais reviu e jamais voltaria a rever.

Resolveu fazer o seu périplo nostálgico, elegíaco, poético, patético e sentimental sozinho. Foi iniciá-lo no Recanto da Saudade, à beira do Paraguaçu. O comandante Augusto se mostrou muito feliz e honrado com a sua visita, e incontinenti lhe trouxe um copo americano gelado e uma cerveja “empoada”, ou “véu de noiva” ou “pescoço de águia americana”; ou, para resumir, gelada até o ponto ideal.

Augusto, já de posse de sua flanela vermelha, para limpar os seus discos de Vinil, pelos quais nutria um ciúme doentio, perguntou a Marcos qual a música que ele gostaria de ouvir, tendo este respondido:

– Por favor, caro amigo Augusto, peço que ponha para tocar o Juramento de Playboy, de Carlos Gonzaga. E, se possível, desde que não aborreça os seus outros fregueses, repita essa música duas vezes, pois estou me despedindo de minha vida de solteiro... No próximo sábado, passarei a ser um homem sério, ou seja, enforcado ou algemado pelo casamento.

Ambos sorriram, e em pouco tempo se ouvia, na bela e inconfundível voz de Carlos Gonzaga:

Eu jurei fazer de tudo pelo nosso amor

Eu jurei deixar a minha vida de playboy

Eu jurei trocar meu pé de bode por um Volks

E as calças justas por um terno de senhor (...)

Quando Marcos foi pagar as duas cervejas que tomara, dom Augusto pediu:

– Por favor, deixe, desta feita, que este pobre dono de bar e garçom pague a conta por você.   

Os dois se abraçaram, e Marcos, após contemplar as águas morosas e amorosas do Paraguaçu, nas quais banhara vezes sem conta, partiu, em seu carro, ouvindo sua exímia trilha sonora, para o centro histórico da cidade, que fora recentemente tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN. Tinha certo orgulho de haver contribuído, com seus artigos e crônicas para que isso tenha acontecido. Participou da comitiva de artistas e intelectuais que entregara fundamentado e circunstanciado memorial, por ele redigido, à diretora desse órgão no estado.

Foi até a Praça Lucas Mendes Furtado, para abraçar o amigo Louro, sempre muito simpático em sua frequentada banca de revistas e jornais. Mais uma vez lamentou que um alcaide, “prefeito jumento e jumento perfeito”, como vociferou notável poeta satírico, a tenha destruído, e reconstruído em linhas modernosas, tão diferentes do traçado belo e elegante, que lhe marcara a infância, a adolescência e a juventude.

Quanta saudade sentia da velha praça, dos momentos que ali passara. Lembrança das quermesses, dos volteios, das primeiras namoradas, dos primeiros amores tão cheios de mágoas... Quem lhe traria de volta o belo e velho coreto e a sua linda cúpula? Quem lhe traria de volta a saudosa pérgula, em cujo tanque sinuoso os peixes e a tartaruga nadavam, provocando-lhe tanto encantamento em seu tempo de criança? E o odorífero caramanchão, em cuja sombra aconchegante estivera algumas vezes, a abraçar e beijar, com muita ternura, a inesquecível namorada de sua perdida inocência?

Tudo, como no filme, o tempo levara, menos em sua memória, “lâmina de desassossego / cornucópia insana insaciável / a jorrar o passado / que não morre nunca / sempre ressuscitado / no eterno regresso / a nós mesmo”. Olhou em volta da praça. Alguns casarões foram demolidos, por ignorância dos donos ou por apego aos metais.

Pensou nos amigos de outrora e do futebol. Alguns partiram para lugares distantes, em busca de melhores dias, iludidos, muitas vezes, por falsas promessas e acenos enganosos de sereias. E os amigos mortos, que nos acompanham cada vez mais vivos? Amigo, como diz a canção, é coisa para se guardar, no lado esquerdo do peito.

Reviu o prédio onde funcionara o Évora Clube. Lembrou as tertúlias dançantes e as gatinhas de sua época, jovens, belas e felizes. Hoje, tudo era apenas saudade. Saudade de uma época morta, que não mais existiria, em que fora tão emotivo e tão sentimental. A matriz ainda se mantinha bela e imponente, e isso lhe trouxe mais recordações. Seguiu a pé para a Zona Planetária, que ficava bem ali, a dois quarteirões apenas.

Teve um choque. Era o início do pôr-do-sol; as nuvens já se mostravam avermelhadas e a melancolia já se lhe infiltrava na alma, quando viu   que vários casarões ou “planetas” haviam caído. Um passante lhe informou que a velha zona meretrícia tombara durante uma chuva torrencial, um verdadeiro dilúvio que desabara sobre Évora, dois dias atrás. Não bastasse o aguaceiro, uma violenta ventania açoitou a cidade, fustigando de forma impiedosa as velhas casas do lupanar.

Marcos não teve como não lembrar os versos iniciais de A Zona Planetária:

Anfion percorre os sulcos

dos discos das vitrolas e as

emoções são alinhadas pedra a pedra.

Apolo é qualquer moço feio

que nos vitrais Narciso se julga.

(...)

Nas calçadas altas da Zona Planetária

meretrizes expõem suas carnes

em varais de açougues imaginários

aos transeuntes ou faunos eventuais

Ao olhar aqueles escombros, ao andar pelas ruínas das telhas e dos frágeis adobes dos velhos cabarés, onde andara muitas vezes em sua ardente adolescência, sentiu-se o rapaz o próprio Jeremias, da evocação do poema Saudade, de Raimundo Correia:

 Tudo passou! Mas dessas arcarias

Negras, e desses torreões medonhos,

Alguém se assenta sobre as lájeas frias;

 

Em torno os olhos úmidos, tristonhos,

Espraia, e chora, como Jeremias,

Sobre a Jerusalém de tantos sonhos!...

Marcos Azevedo parecia ouvir os acordes vívidos, vibrantes e, contudo, melancólicos da marcha turca Ruínas de Atenas, do inigualável Beethoven, que não fazia parte de sua trilha temática. Sentiu então, como jamais sentira antes e como jamais sentiria depois, o pungir agridoce da saudade. Pressentiu que a sua vida e a de Évora tomariam novos rumos.

Os punhais de seda da saudade lhe golpearam as entranhas mais profundas de sua alma. Punhais de seda, sim, macios sim, mas que feriam, como um néctar venenoso – doce, inebriante e letal.

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