Dilson Lages Monteiro Terça-feira, 27 de junho de 2017
ECLÉTICA - ELMAR CARVALHO
Eclética
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HISTÓRIAS DE ÉVORA - Capítulo XXXVII

HISTÓRIAS DE ÉVORA

Este romance será publicado neste sítio internético de forma seriada (semanalmente), à medida que os capítulos forem sendo escritos.

 

Capítulo XXXVII

Seus olhos são negros, negros

Elmar Carvalho 

Poucos meses após a instalação da Academia Eborense de Letras, Newton Azevedo, pai de Marcos, então chefe da agência local do IBGE, recebeu convite para ser o diretor desse Instituto no Estado. Seria o coroamento de sua carreira de funcionário público federal, além de que ainda poderia incorporar a gratificação aos seus proventos, quando se aposentasse. Aceitou o convite e imediatamente fixou residência na capital. Marcos, que já recebera insistentes convites para exercer seu cargo na sede da Delegacia da Receita Federal no Estado, requereu também a sua remoção, pois ainda desejava continuar morando com os pais.

Não se pode dizer que Marcos tenha sido insensível ao filho que Madalena lhe disse levar em seu ventre para as Alterosas. Apenas aceitou como fato consumado e irreversível a circunstância de que talvez nunca o veria e de que essa criança seria criada por ela e pelo marido, sem a sua participação e sem a sua lembrança. Contudo, alimentava a esperança de que algum dia poderia ver o filho, ainda que incógnito e à distância.

Muitos anos depois, quando Marcos já completara cinquenta anos de idade, e exercia, pela segunda vez, a função de delegado da Receita Federal, recebeu, em seu gabinete, a visita de um guapo rapaz, que se anunciara como uma pessoa que desejava tratar de urgente assunto pessoal. O jovem, bem vestido e elegante, após os cumprimentos iniciais e apresentação, com certo embaraço e discreta hesitação, lhe contou que era formado em medicina, como seu pai, e era filho de Madalena.

Disse que o pai, quando sentiu que estava à morte, um ano atrás, pedira à mulher que, após o seu falecimento, revelasse a Lucas da Mota Dias Júnior, que lhe herdara o nome e a profissão, quem era seu pai biológico. Recomendou que o filho o visitasse, caso o desejasse. O rapaz, após colher as necessárias informações da mãe, quando esta lhe revelou o segredo familiar, fez pesquisas na internet, tendo conseguido o endereço funcional de Marcos, sem maiores dificuldades.

Desejando ser sintético e não querendo emocionar o meu leitor, direi que ambos se comoveram, se abraçaram e mesmo derramaram discretas lágrimas. Marcos o convidou para se hospedar em sua casa, mas o rapaz, que viera acompanhado de sua jovem esposa, em viagem de lua de mel, preferiu ficar hospedado no Luxor Hotel, no centro da cidade.

Todavia, aceitou almoçar com o pai, na residência deste, onde foi muito bem recebido por sua esposa e pelos dois filhos do casal. Coroando tudo, em perfeito final feliz, após conversa e deliberação entre eles, Marcos foi com Lucas ao Cartório competente onde o reconheceu como filho. Os expedientes e termo foram enviados ao cartório de Belo Horizonte, onde Lucas fora registrado.

Feitas as averbações, o rapaz passou a constar como filho de Lucas da Mota Dias e de Marcos Azevedo, seus pais afetivo/adotivo e biológico. Pouco se falou em Madalena, mas o jovem médico informou que ela se encontrava em bom estado de saúde e ainda se mantinha bela e em forma. Pai e filho passaram a se comunicar, com admirável frequência, por telefone e pelas redes sociais da internet, inclusive com envio de fotos familiares.

*   *   *

Marcos nunca esqueceu a linda e loura paranaense de olhos de esmeralda. Ela lhe ficou como uma bela e inatingível miragem de sua adolescência. Seu pai fora transferido para outra loja, sediada na capital, e ele não mais a reviu. Porém, mais de década depois, quando ele já residia na capital voltou a vê-la, talvez por acaso, se é que o acaso existe.

Estava, em companhia de Antônio Francisco Sousa, colega fiscal, assistindo a um artista de rua, quando uma magnífica balzaquiana, de cintilantes cabelos louros e refulgentes olhos verdes, começou a olhá-lo de forma insistente e intensa. Embora estivesse acompanhada de uma menina de cerca de cinco anos, chegava ao ponto de quase se voltar para trás, para melhor fitá-lo.

Ele também a fitou, com intensidade e alumbramento, com paixão e ternura no olhar, mas logo convidou o colega a se retirarem, temendo  este notasse alguma coisa. Mas, não andaram muito, Antônio Francisco, que também era perspicaz cronista, lhe perguntou, com ar divertido e malicioso:

– Marcão, você pensa que eu não vi, que eu sou cego e insipiente? Quem é aquela suntuosa e esplêndida “balzaca”, com aquela linda aliança no anelar esquerdo, que te olhava com tanta insistência e admiração? Parecia te conhecer e estar cheia de amor para dar...

Marcos, recordando-se dos seus tempos de adolescente, preferiu responder de forma enigmática e poética:

– É um fantasma, um vulto de mulher que me persegue desde minha adolescência. Prefiro deixá-la numa torre ebúrnea, alta, distante, e inalcançável como um unicórnio, para que em mim permaneça indelével a nostalgia de quanto a amei, e de quanto a fiz inatingível em minha timidez e loucura de poeta adolescente, embora ela também me quisesse... Assim foi melhor, porque sempre permanecerá a doçura do enlevo e da devoção, e jamais a amargura da decepção... 

*   *   *

Quando Marcos completou 32 anos de idade, assumiu o cargo de auditora-fiscal uma moça de nome Lívia Maria. Esbelta, de boa estatura, chamava a atenção por sua beleza e simpatia. Embora concentrada nos serviços que desempenhava e focada em seus deveres funcionais, tinha senso de humor e o usava com inteligência, discrição e notável senso de oportunidade. Fora analista na Justiça do Trabalho. Corria o boato de que tinha um namorado ou noivo em sua antiga repartição.

O rapaz logo percebeu que, além de diligente em seus deveres funcionais, ela tinha bom caráter e uma exemplar formação moral, mas sem preconceitos e farisaísmos. Nas horas de folga, estudava com afinco a legislação tributária, especialmente as mais direcionadas a seu cargo. Tratava todos os contribuintes com urbanidade e presteza, sobretudo os mais humildes.

Quando Marcos entrava em discussão intelectual com algum colega, ela parecia admirar a cultura e a capacidade argumentativa dele, a sua capacidade de análise, a maneira como ele falava das variáveis que poderiam ser seguidas e de suas possíveis consequências. Poucas vezes ela participava dessas controvérsias, avessa que era a polêmicas e dissensões.

Todavia, em suas poucas e comedidas intervenções, demonstrava sempre conhecimento da matéria e muita racionalidade em seus fundamentos, sempre pautados pela lógica, proporcionalidade e razoabilidade. Uma vez ela confidenciou ao colega que o que mais admirava num homem era a inteligência e o caráter. E, se não fosse querer demais, o bom humor.

Algumas vezes, quando fazia um novo poema, e se encontrava bem humorado e eufórico, o rapaz o recitava para um ou outro colega interessado. Lívia parecia ouvi-lo com admiração e certo embevecimento. Ele, para testar os seus pruridos de pudor e talvez preconceitos, quando fez um poema erótico, aliás, inspirado em sua beleza sinuosa, lhe entregou uma cópia, e ficou a lhe observar as reações faciais.

Notou que ela enrubesceu levemente, talvez pressentindo ser a musa daqueles versos eróticos ou por estar sendo observada, mas o leu com muita atenção e sem demonstrar contrariedade. Fez duas ou três perguntas, e em seguida emitiu comentários argutos e pertinentes, em que se percebia a sua inteligência e os seus conhecimentos de quem gostava de literatura, conquanto não fosse poeta ou escritora, mas assídua leitora de poemas, contos, crônicas e romances, como esclareceu.

Certa ocasião, antes do início do segundo turno, Marcos foi até a sua sala. Encontrou-a sozinha. O rapaz, apesar de não cultivar a vaidade, percebeu que ela o olhou de cima a baixo. Pareceu admirar o que viu. O rapaz a consultou sobre certo assunto de trabalho, sobre o qual tinha dúvida, e depois lhe contou uma de suas anedotas engraçadas, supostamente verídicas, ao menos em parte, retornando a seu local de trabalho. Ficou pensando naqueles cabelos negros, ondulados, e naqueles olhos negros, cheios de fascínio e mistério, que lhe faziam recordar os versos do condor Castro Alves: “Teus olhos são negros, negros, / Como as noites sem luar... / São ardentes, são profundos, / Como o negrume do mar”. Seu pensamento divagava, como a barcarola do poeta.

A moça foi em seu encalço. O rapaz também estava sozinho em sua sala, sentado à sua mesa, com o olhar sonhador, pensativo. Ela, às suas costas, pousou as mãos sobre seus ombros, afagando-os com muita suavidade. Marcos ficou surpreso, porquanto Lívia sempre fora muito contida e discreta em seus gestos e palavras. Não sabendo bem o que fazer, pousou as suas sobre as dela, que não as retirou.

Porém, quando Marcos se levantou e tentou lhe afagar o rosto, ela se afastou e disse, com suavidade, mas com voz firme e peremptória:

– Não, Marcos, não... Eu te toquei porque te amo, mas você tem uma linda noiva, com a qual vai em breve se casar.

Para não entrar em delongas tão enfadonhas quanto desnecessárias, direi apenas que nesse mesmo dia Marcos terminou o noivado, que, por sinal, já vinha muito morno, quase adormecido, e logo iniciou apaixonado romance com Lívia, que se mostrou terna, carinhosa e ardente, como ele sempre sonhara.  

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