Dilson Lages Monteiro Segunda-feira, 06 de fevereiro de 2012
ECLÉTICA
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COMO ERA BOM AOS DOMINGOS...

ELMAR CARVALHO

 

Enquanto esperava minha vez de ser atendido pelo oncologista e cirurgião Gil Carlos, em consulta de rotina, fui até a casa do amigo Carlos Said, que fica nas imediações da clínica. Como sempre acontece, fui recebido com alegria e apreço pelo Magro de Aço. Entabulamos rápida conversação, em que falamos de futebol e de livros. No momento de minha chegada, estava ele lendo o livro de caráter memorialístico “Fidel e Raúl, meus irmãos”, com depoimento de Juanita Castro concedido à jornalista María Antonieta Collins, que pôs imediatamente de lado, sem expressar nenhum indicativo de que ficara contrafeito com a interrupção, embora seja ele um leitor compulsivo.

 

Na conversa, falamos de um antigo programa radiofônico, intitulado Reminiscências Esportivas, que ele apresentava nas manhãs de domingo, em que focalizava grandes craques do futebol brasileiro e piauiense. Ouvi alguma de suas apresentações, através das quais tomei conhecimento, pela primeira vez, de importantes futebolistas. Carlos Said apresentava uma síntese biográfica do atleta, seu estilo e principais características, seu biótipo e peculiaridades, e, algumas vezes, o contexto esportivo da época. Com a sua memória fabulosa, segundo fiquei sabendo, alguns dos programas eram feitos de improviso, ou quase na base do improviso, sem titubeios, equívocos e impertinências.

 

Tendo sido ele goleiro do Ríver por cerca de duas décadas e tendo eu jogado nessa posição em minha juventude, e algumas vezes na idade madura, invariavelmente falamos nos grandes goleiros do Brasil e do Piauí. Em termos nacionais, a sua preferência recai sobre o grande e injustiçado Barbosa. Entre os principais goleiros piauienses, ele cita o Coló, do Caiçara de Campo Maior, e o parnaibano Raimundo Boi (não confundir com o Mário Boi, também golquíper e parnaibano). Sobre os dois, já teci comentários em meu livro “O Pé e a Bola”, em que discorro sobre o futebol campomaiorense e parnaibano.

 

Entre as curiosidades e excentricidades de alguns craques, falou sobre o goleiro Morcego, do futebol teresinense, de quem eu não ouvira falar. Disse-me ele que esse guarda-meta, ao efetuar uma “ponte” ou “voada”, encaixava a bola no peito, com o auxílio de apenas um braço, e com o outro se dependurava no travessão da “meta”, no qual, como um verdadeiro malabarista circense, conseguia fazer uma evolução e ficava de cabeça para baixo, como um morcego, de que lhe adveio a alcunha. Através do empresário e dirigente esportivo Cesarino Oliveira soube, tempos atrás, que o grande goleiro Hindemburgo, quando de ressaca, costumava repousar sobre o travessão de um dos “gols” do estádio em que iria jogar.

 

No decorrer da conversa, instiguei/fustiguei o grande jornalista e radialista para que escalasse a seleção piauiense de todos os tempos. Com sua memória prodigiosa, de forma justificada, citando datas e características de jogadas, o mestre me disse qual seria a sua seleção ideal. Não anotei os nomes, e nem sei se ele me permitiria divulgá-los. Recordo que entre esses nomes constavam vários craques de Parnaíba e alguns de Campo Maior. Justificou a grande participação de atletas parnaibanos com o apogeu econômico que Parnaíba atingiu no alvorecer do futebol piauiense. Entre os “pebolistas” que citou, constam: Coló, Vicentinho, Né (Manoel da Silva), Pepê, Ição, Pedro Alelaf, Sima, etc. O Magro de Aço, com a minha total concordância, terminou dizendo que elaboraria duas seleções piauienses, sem preponderância de uma sobre a outra, o que facilita as acomodações em casos de dúvidas e em que os craques praticamente se nivelam em suas posições.

 

Não tendo eu autoridade técnica e de conhecimento para incluir o goleiro Carlos Said numa dessas duas seleções, certamente declaro que o considero o maior comentarista esportivo do Piauí, e induvidosamente um dos maiores do Brasil. Ademais, entendo que ele poderia ter sido um dos maiores técnicos de nosso futebol. Recordo que, em minha meninice, estava ouvindo uma transmissão de jogo pela rádio Pioneira, com narrativa de Dídimo de Castro e comentários de Carlos Said, quando este, no intervalo, disse que um dos times ganharia a partida se fizesse as modificações que declinou. O técnico do time parece que estava com o seu radinho de pilha ligado. Adotou as modificações apontadas pelo Magro de Aço, e o seu time venceu o duelo, sem maiores percalços.

 

No final da visita, ele me ofertou a obra “Como era bom aos domingos”, da autoria de seu filho Gustavo Said, que traz como subtítulo “O homem, a vida, o mito Magro-de-Aço. Trata-se de um belo livro, tanto no conteúdo como na programação visual, em que foram coligidas importantes fotografias, de valor histórico e documental, que lhe traça a biografia, e conta muitas de suas peripécias e aventuras na qualidade de homem, de servidor público, de professor, de jornalista e de radialista, bem como as polêmicas de que participou. Narra os principais fatos anedóticos de que foi protagonista, como o acidente de carro, que lhe rendeu o famoso apelido de Magro de Aço, que faço questão de acrescentar que se trata de aço inoxidável, pelas grandes qualidades humanas, desportivas e culturais de que se reveste a sua personalidade ímpar. Ele fez questão de colocar como data o dia 02/02/2011, quando ocorreu o lançamento da obra, a que não pude comparecer, na dedicatória que me fez. Não posso deixar de transcrever o sintético, mas significativo autógrafo: “Ao insigne mestre Elmar Carvalho, amizade é pouco; irmão, sim!”

 

Não preciso dizer que essas palavras calaram fundo em minha alma, e me comoveram. Quando eu me preparava para deixar sua casa, caía uma chuva fina naquela tarde nublada e mormacenta. Por esse motivo, coloquei o livro debaixo da camisa, perto do coração, e disse ao mestre, que foi boêmio no melhor sentido da palavra, apreciador que era de uns bons goles de cerveja gelada e da beleza feminina:

- Mestre, um livro precisa de mais proteção do que uma mulher... O livro se estraga com uma chuva, enquanto uma mulher fica até mais bonita com umas gotas d'água sobre a pele, e com o vestido colado, a lhe acentuar as curvas...

O mestre escancarou um largo sorriso, e afirmou a sua concordância com um meneio de cabeça.

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