Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 23 de junho de 2017
DISCURSO LIVRE - MARCELO MARTINS EULÁLIO
Marcelo Martins Eulálio
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SOBRE O TEMPO

SOBRE O TEMPO Marcelo Martins Eulálio Não é difícil achar quem pense que o tempo, hoje, é a “mercadoria de consumo” mais cara que se tem no mercado. Se a demanda é grande e a oferta é pequena, o produto tem seu preço aumentado. Assim é a lei de mercado! Com o tempo não é diferente. Há quem diga que não tem tempo para nada, como se para o nada fosse preciso de algum tempo. Há quem não tenha mais o tempo que passou e há quem tenha muito tempo, tenha todo o tempo do mundo, sempre em frente, sem tempo a perder (Renato Russo). Há quem goste de perder o tempo e, sendo assim, o tempo que se perde não é tempo perdido (Bertrand Russel). Mas, afinal, o que é o tempo? Como definir algo que escapa ao sentido da visão? Algo que não é objeto de nenhum dos nossos sentidos? Não podemos ver ou tocar o tempo. Indagado sobre o que é o tempo, Santo Agostinho disse: “se ninguém me perguntar, eu sei. Se me perguntarem, ignoro”. São muitos os conceitos que tentam encapsular a essência do tempo em uma fórmula inteligível, simples e clara. Há quem considere o tempo a imagem da eternidade, mais exatamente “uma imagem móvel da eternidade” (Platão), “tempo sem hora” (Drumond). Há quem procure entender o tempo como a medida do movimento, “o número de movimentos com relação ao antes e ao depois” (Aristóteles). O tempo é absoluto (Aristóteles e Newton) ou relativo (Einstein)? Será que o tempo tem o seu próprio tempo, início (Big Bang) e fim (Big Crunch)? Lembramo-nos do passado, não do futuro. Por isso vemos o tempo ir para frente, como uma linha ferroviária direta, como uma seta, na qual só há uma direção / sentido a ir? É preferível o tempo pensado como estrutura matemática, que existe por si e passa sempre do mesmo modo, independentemente do espaço (Newton) ou o tempo como fluxo e devir contínuo, não como uma estrutura matemática, mas como parte do mundo, o problema essencial da metafísica (Bergson)? Tempo, “um presente de coisas passadas, a memória; um presente de coisas presentes, a visão; e um presente de coisas futuras, a espera” (Agostinho). O bispo e filósofo George Berkeley acreditava que todos os objetos materiais, o espaço e o tempo são uma ilusão. Nenhum conhecimento (empírico / a posteriori) antecede no tempo a experiência; todos começam por ela (Kant). Será? Para Guyau, o tempo tem uma dimensão “demasiado humana” e não se trata de uma ideia a priori, como em Kant. O tempo não é uma “forma necessária de toda a representação”, nem a priori, nem a posteriori (Guyau). Para os estoicos, o presente é o único tempo que existe. Talvez tenham razão, afinal o passado já não existe e não nos lembramos do futuro. Como os estoicos, é preciso viver o tempo de hoje, acreditando que “só existem dois dias no ano que nada pode ser feito. Um se chama ontem e o outro se chama amanhã, portanto hoje é o dia certo para amar, acreditar, fazer e principalmente viver” (Dalai Lama). Mas o presente não se detém, como queria Goethe. O presente, disse Borges, “sempre tem uma partícula de passado, uma partícula de futuro. E parece que isso é necessário ao tempo”. O filósofo neoplatônico greco-romano Plotino disse que há três tempos, e os três tempos são o presente: o atual (presente), o que já passou (passado) e o presente do passado (memória). Será que o passado e o futuro parecem sempre melhores e o presente sempre pior (Shakespeare)? Será que “o tempo não para”, Cazuza? Para Mário Quintana “o tempo não para, só a saudade é que faz as coisas pararem no tempo...”. O tempo flui como as águas do rio. A água e o tempo são irmãos gêmeos, nascidos do mesmo ventre (Mia Couto). Seja qual for o significado que se dê ao tempo, há quem procure sempre fazer o melhor uso do tempo, ser ativo no “mundo das coisas” (Heidegger). Há quem procure não agir como as pessoas comuns, que pensam apenas como passar o tempo, “o lento passar do tempo” (H. Dobal), o tempo em desabitual demora. Há quem prefira, como os estoicos, viver o hoje intensamente, portanto, “encha a Taça: - de que vale repetir / Que o Tempo passa rápido sob os nossos Pés; / Não nascido no amanhã, e falecido Ontem, / Por que angustiar-se frente a eles se o Hoje pode ser doce?” (Omar Khayyam). Uma pessoa inteligente tenta usar o tempo (Schopenhauer), da melhor forma possível. Há quem acredite que o tempo caleje a sensibilidade (Machado de Assis). E há quem tenha medo do tempo... Ele pode levar à senilidade. Seja o tempo “imaginário”, seja o tempo “real”, o melhor a fazer é aproveitar o tempo. E enquanto não for possível embarcar na máquina do tempo de H.G. Wells, faço do meu tempo o tempo de Vinícius... Meu tempo é quando

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