Dilson Lages Monteiro Segunda-feira, 29 de maio de 2017
DIÁLOGOS COM A HISTÓRIA - REGINALDO MIRANDA
Reginaldo Miranda
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O povoamento do Piauí

O povoamento do Piauí

O distinto general Moysés Castello Branco Filho, publicou em 1982, pela Companhia Editora do Piauí, com o apoio do Governo do Estado, o livro O povoamento do Piauí(Teresina: COMEPI, 1982. 104 p), tratando da gênese das primeiras famílias estabelecidas na bacia oriental do rio Parnaíba.

É, sem sombra de dúvidas, um excelente esforço de pesquisa, trazendo algumas contribuições interessantes, embora com alguns equívocos. Isto acontece porque o distinto intelectual, residindo no Rio de Janeiro, não teve tempo para aprofundar a pesquisa genealógica consultando fontes primárias, embora tenha visitado o Arquivo Público do Estado(Casa Anísio Brito), onde se encontra farta documentação a respeito, valendo-se apenas de fontes secundárias. Ele assim admite, no prefácio: “A nossa narrativa está baseada em ‘Cronologia Histórica do Estado do Piauí’ (F. A. Pereira da Costa) e em ‘Pesquisas para a História do Piauí’ – Odilon Nunes. Vale dizer que estamos na CASA ANÍSIO BRITO, em Teresina. Consultamos livros de Genealogia de famílias piauienses. Procedemos ao levantamento das famílias vindas para o Piauí nos séculos XVIII e XIX, o primeiro feito no Estado. Concluímos: 1º - O povoamento do Piauí ocorreu em cinco zonas distintas: extremo sul, centro-sul, norte, litoral e barra do Poti; 2º - No período de 1697 a 1822 vieram somente cinco famílias portugueses (uma de origem) para o sul do Piauí, uma para o litoral e Dom Francisco da Cunha Castelo Branco com três filhas para o norte; 3º - As famílias pioneiras demandaram a nova Capitania por iniciativa própria, acontecimento este sem paralelo na História do Brasil; 4º - O Piauí foi o único Estado povoado exclusivamente pelos portugueses, com exceção única da família Castelo Branco Clark, de Parnaíba, de origem inglesa pela linha paterna – 1884” (p. 19/20).

Assim, percebe-se facilmente que Moysés Castelo Branco Filho utilizou como fonte de pesquisa apenas essas obras, como se fossem exaustivas do assunto. Aliás, Pereira da Costa e Odilon Nunes escreveram obras gerais, sem caráter genealógico, de forma que eventuais referências ao assunto são meramente exemplificativas, nunca exaustivas, não capacitando se afirmar com base apenas nelas, que foram somente essas ou aquelas, as famílias que aqui chegaram em determinado período histórico. Da mesma forma, poucas eram as árvores genealógicas publicadas até o ano de 1982, ainda hoje sendo raras, embora tenham duplicado, de forma que escassa foi a bibliografia encontrada por Castelo Branco Filho. De toda sorte, a nosso sentir, o erro do autor foi trabalhar aquela bibliografia como se fosse exaustiva do assunto, como se somente aquelas famílias tivessem chegado ao Piauí naquele período pioneiro. E não é verdade, temos condições de comprovar que dezenas de outras chegaram no mesmo período. Somente para exemplificar citamos os casais do capitão-mor Manuel do Rego Monteiro e Maria da Encarnação, capitão-mor Domingos de Abreu Valadares e Francisca de Miranda do Rosário, João Rodrigues de Miranda e Josefa de Sousa, Manoel Barbosa de Miranda e Helena de Brito, Antonio Pereira de Abreu e Maria de Miranda, Manoel Pinheiro Ozório e Joana Thomazia Clara, Geraldino José do Bonfim e Eugênia Maria de Jesus, Lourenço da Costa Veloso e Antonia Gomes Travassos, José Ribeiro Soares e Maria Josefa de Jesus, Pedro José Nunes e Ana Bernarda da Silva, José Pereira de Araújo e Maria Eugenia de Araújo, entre outros. Todos eram casados e aqui residiam naquele mesmo período, não se sabendo se vieram solteiros ou não, sendo que se aqui casaram é porque já encontraram outras famílias que geraram os consortes.

Quanto às zonas de povoamento, na verdade este se deu em todo o território, mas é interessante dividi-lo para estudo, por regiões, é mais didático, sendo interessante a divisão feita na obra; porém, não concordamos com a segunda conclusão, de que somente cinco famílias portuguesas se estabeleceram no sul do Piauí e quatro no norte, entre 1697 e 1822; também, a família Clark, em Parnaíba, de origem inglesa, não é única exceção ao povoamento português, existindo alguns outros povoadores pioneiros de origem diversa, sobretudo galegos.

 

No capítulo Gênese da família piauiense, Moysés Castelo Branco Filho, assim afirma:

“Procedemos o estudo do povoamento do Piauí, colocando em destaque as destemidas consortes que acompanharam os maridos, adiante nomeados, na demanda da nova Capitania.

‘Foram elas: Ana de Oliveira(1697), Maria Freire da Silva(1719), Helena de Sousa(1735), Ana de Brito(1760), Maria da Purificação(1776) e a esposa de André de Barros Reis(1740), cujo nome a História não guardou.

‘Sabe-se que Antônio da Silva Henriques e sua esposa de tratamento de batismo desconhecido chegaram a Parnaíba pelo mar em 1763 (capítulo O povoamento do litoral).

‘Incluímos as três filhas de D. Francisco da Cunha Castelo Branco: Ana, Maria do Monte Serrate e Clara que vieram em sua companhia(1700).

‘No capítulo ‘As Bodas’ citamos os lusíadas vindos solteiros entre 1750 e 1840. Casaram-se com as descendentes dos conterrâneos radicados na terra piauiense.

‘No séc. XIX vêm casados: Bertolino Alves e Rocha (N. S. Aparecida, hoje Bertolínia – 1822), Elesbão de Castro e Silva (Valença, hoje Valença do Piauí – 1835), José da Paz (n. S. dos Humildes, hoje Alto Longá – 1838), Benedito José do Rego (Campo Maior – 1840), Daniel Joaquim Ribeiro (Parnaíba – 1840), Benedito de Arêa leão (N. S. dos Humildes – 1846), Manuel Lázaro de Carvalho (Vila do Poti, agora Poti Velho – 1850), Raimundo Couto (Vila do Poti, hoje Poti Velho – 1850), Francisco Severiano de Morais Correia (Amarração, hoje Luís Correia – 1863), Claro Ferreira de Carvalho Silva (Parnaíba – 1870) Emídio Gomes Veras (Parnaíba – 1880) e João Pereira Nunes (Valença, hoje Valença do Piauí – 1890).

‘De algumas famílias não conseguimos a data de chegada ao Piauí e de outras não tivemos informações. Em 1852, na fundação da cidade, domiciliaram-se em Teresina muitos casais maranhenses e cearenses.

‘O povoamento do Piauí é acontecimento sem paralelo na História do Brasil”  (p. 21).

Sobre o assunto, não há dúvidas de que aquelas senhoras se estabeleceram no Piauí com seus maridos, entretanto, também vieram outras no mesmo período, sendo prova disso o Censo Descritivo realizado no Piauí, em 1762. Foi localizado o de Oeiras, zona urbana e rural, onde são inúmeros os casais existentes. Também, seria impossível que fosse fundada a capitania(1759) e as primeiras vilas(1762) sem a existência de inúmeros moradores, inclusive mulheres para procriarem e se implantar essa grande população que labora no novo território. Quanto às bodas, sabemos que Bertolino Alves e Rocha, nosso tetravô, e João Pereira Nunes já nasceram no Piauí, respectivamente, nos termos de Jerumenha e Valença, embora também suspeitemos de outros ali indicados.

D. Francisco da Cunha Castelo Branco não morou no Piauí(se o fez foi por pouco tempo), tendo fixado residência no Maranhão, vindo apenas as filhas depois de casadas para administrar as fazendas que ele as conseguiu e as deixou em herança.

 (Diário do Povo, 14.4.2016).

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