Dilson Lages Monteiro Sábado, 27 de maio de 2017
DIÁLOGOS COM A HISTÓRIA - REGINALDO MIRANDA
Reginaldo Miranda
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Missão dos Aroases

Missão dos Aroases

 

Oriundos do Planalto Central, onde se situam diversos troncos da família Gê, os Aroases vieram pelo rio S. Francisco abaixo, dali saltando para o ocidente, no ponto em que o rio inflete bruscamente para oriente(mar).

Essa nação migrou em busca da bacia do Poti em fins do século XIII. Certamente, buscavam novos bosques onde pudessem estabelecer suas tabas e praticar a caça, pesca, coleta de frutos silvestres e agricultura rudimentar. Assim, é que por volta do ano 1250, povoaram o vale do Sambito, subafluente do Poti. E nessa povoação permanecem por mais de quatrocentos anos, conforme eles mesmos diziam, até travarem contato com os primeiros representantes do Império lusitano. Nação numerosa e guerreira, por mais de quatro séculos defendeu seu território contra investidas de outras nações. No entanto, durante o verão de 1662 para 1663, após alguns ajustes, fazem as pazes e se submetem à orientação dos bandeirantes paulistas Domingos Jorge Velho e Francisco Dias de Siqueira. Então, esses paulistas se estabelecem com sua tropa em arraial fundado na vizinhança do lugar, conhecido por “Arraial dos Paulistas”. Desde então, os Aroases passam a integrar as tropas militares daqueles, sempre que convocados. Dessa forma, contribuem para o aprisionamento e escravidão de diversas outras nações que lhes eram inimigas. É que o principal negócio desses paulistas estabelecidos na bacia do Poti era o comércio de escravos indígenas, levados para o litoral, onde adquiriam bom preço. Continuando esse apoio aos paulistas, ao lado dos Cupinharões, seguiram Domingos Jorge Velho em 1687, quando esse foi combater o quilombo de Palmares, nas Alagoas. Seu desempenho nas batalhas foi sempre elogiado pelo bandeirante paulista. Nessa oportunidade, cerca de oitocentos guerreiros dessa nação seguiram para Alagoas. Esse fato provocou o declínio da nação indígena, até então próspera e orgulhosa. Muitos índios morreram no campo de batalha, de forma que a aldeia dos Aroases nunca mais recuperou a sua pujança, entrando em decadência. Para piorar, os remanescentes continuaram a sofrer exploração de seu trabalho pelos paulistas do arraial vizinho, agora comandados por Francisco Dias de Siqueira.

Por volta de 1695, quando o padre Miguel de Carvalho visitou aquela região, não os recenseou porque não eram cristãos. Apenas se referiu ao vizinho arraial dos paulistas, onde também moravam alguns Aroases. Todavia, o referido padre memorialista esclarece que os Aroases, estavam no vale do Sambito e tinham pazes com os brancos.

Esses indígenas somente são catequizados em princípio do século XVIII, pelo padre Gabriel Malagrida. Nesse tempo já não era nem sombra da nação altiva que viveu no passado.

Em 18 de outubro de 1728, receberam os Aroases a visita do governador e capitão general João da Maia da Gama, que encerrava seu governo de oito anos no Estado colonial do Maranhão, ao qual estava formalmente anexada a capitania do Piauí(criada mas não instalada). Testemunhou Maia da Gama, que a aldeia foi muito populosa no passado, mas naquele tempo se achava “destruída, e acabada com quarenta casais ou cinquenta pouco mais ou menos, e tem uma Igreja de Nossa Senhora da Conceição que é dos índios, e da missão que está com missionário, e sujeita ao vigário da Vila da Mocha”. Acrescenta a mesma autoridade, que “os moradores circunvizinhos costumam aqui fazer a festa de N. S. da Conceição com muita despesa de festas, comidas e comezainas”. Repassa a informação dos índios de que a mesma aldeia existia há “mais de quatrocentos anos”. E nesse clima de religiosidade cristã, em 31 de março de 1739, foi a aldeia elevada à categoria de freguesia, por D. frei Manoel da Cruz, bispo do Maranhão, sob a invocação de N. Sra. do Ó e Conceição dos Aroases. A elevação à categoria de vila data de 19 de junho de 1761, com o nome de Valença, sendo instalada oficialmente em 20 de setembro do ano seguinte, pelo governador João Pereira Caldas.

Contudo, pela Resolução Provincial n.º 52, de 5 de setembro de 1836, a sede quer da freguesia, quer da vila, foi transferida para o povoado Caatinguinha, antigo Arraial dos Paulistas, em face de ter estagnado economicamente o velho arraial indígena.

E permanece a Missão dos Aroases, estagnada economicamente por todo o restante do século XVIII e XIX. Em 1766, há a tentativa infrutífera de transferir os poucos casais de Aroases existentes, para a nova missão de S. João de Sende, recém criada com índios Gueguês. Como prova de que a localidade continuava como ponto de romaria cristã, em 1769, o tenente-coronel João do Rego Castelo pede autorização ao governador, para se ausentar de seu trabalho por alguns dias, em peregrinação à Missão dos Aroases.

Felizmente, na fase provincial foi criada a escola da povoação. E como modesta povoação do termo de Valença do Piauí, permanece a Missão dos Aroases, até que a Lei n.º 1131, de 4 de julho de 1925, novamente o elevou à categoria de município autônomo. Logo mais extinto, obteve novamente a sua emancipação política pela Lei n.º 2255, de 1.º de janeiro de 1962, reinstalado em primeiro de dezembro do mesmo ano, com o nome de Aroases. Embora ainda hoje seja uma cidade modesta, é sem sombra de dúvidas, até prova em contrário, a povoação mais antiga existente no Piauí, sem solução de continuidade.

* REGINALDO MIRANDA, autor, é advogado, escritor,  membro da Academia Piauiense de Letras.

** A fotografia que ilustra a matéria é da Igreja Matriz de Aroases.

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