Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 24 de março de 2017
DIÁLOGOS COM A HISTÓRIA - REGINALDO MIRANDA
Reginaldo Miranda
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M. Paulo Nunes e os valores literários

M. Paulo Nunes e os valores literários

A Academia Piauiense de Letras lança mais um livro do acadêmico M. Paulo Nunes, um de seus decanos, como parte das comemorações alusivas ao centenário de fundação do Sodalício.

Incumbido de fazer a apresentação desse novo volume, peço venia para iniciar dizendo sobre seu autor algo de substancial em sua obra.

Manoel Paulo Nunes, ou simplesmente M. Paulo Nunes, como é geralmente conhecido, entrou pela vida no dia 11 de outubro de 1925, na então vila, hoje cidade de Regeneração, no Médio-Parnaíba piauiense, sucedânea dos velhos aldeamentos indígenas do passado. Foram seus pais o comerciante Francisco de Paula Teixeira Nunes, que mais tarde assumiria a chefia política municipal, e sua primeira esposa Raimunda da Silva Nunes, cujos braços maternos lhes foram arrancados pela “indesejada das gentes”, mal completara 7 anos de idade.

Menino triste e melancólico, como ele mesmo autodefine esse período de infância, assistiu à morte da mãe, fato que o impressionou profundamente e marcou indelevelmente a sua sensibilidade. Foi, então, criado sob os cuidados da avó paterna, a professora Florinda Teixeira Nunes(D. Sinhá), chamada pelos netos de “Buá”, “uma maranhense apaixonada pelos poemas de Gonçalves Dias”, sendo costume em sua casa os serões de leitura, fato que determinou o seu gosto literário.

No início do ano de 1932, em sua terra natal, ingressa na escola particular da professora Maria Luiza, onde foi alfabetizado. No ano seguinte foi matriculado na Escola Agrupada Dom João de Amorim Pereira, onde cursou as três primeiras séries do primário, sob a orientação das professoras Florisa Sampaio e Benedita Oliveira(D. Ditosa). Em 1936, para concluir as duas últimas séries primárias, está matriculado na primeira turma do Colégio Cristo Rei, então fundado pelo professor João de Siqueira Paes(Prof. Salu), um humanista extraordinário, cujas lições e estímulos o animaram em seu nascente gosto literário.

Porém, concluídos esses estudos iniciais e em busca de novos horizontes, muda-se para Teresina em princípio do ano de 1938, aos 12 anos de idade, matriculando-se no Colégio Diocesano “São Francisco de Sales”, depois de ser aprovado em exame de admissão, em cujo educandário cursa as quatro séries do ensino ginasial. Nesse período vivia sob os cuidados do tio paterno, o ex-deputado estadual Gonçalo Teixeira Nunes, residente em Teresina, cujo mandato havia sido cassado pelo Golpe de 10 de Novembro de 1937, que instituiu o “Estado Novo”.

Depois dessa fase, em 1943, ingressa no curso clássico do Liceu Piauiense, concluindo-o ao final do ano de 1945. No ano seguinte, ingressa na Faculdade de Direito do Piauí, recebendo o grau de bacharel em dezembro de 1950. Foi, então, nomeado procurador do Domínio do Estado e, mais tarde, membro do Tribunal Regional Eleitoral do Piauí, na categoria de jurista, além de membro do conselho diretor da OAB-PI em dois biênios(1961 – 1962 e 1967 – 1968).

Mas a grande paixão do mestre M. Paulo Nunes, foi mesmo o magistério, onde ingressou no ano de 1945, aos 19 anos de idade incompletos, como professor de português no Colégio “Demóstenes Avelino”, pelas mãos de seu primo Amandino Teixeira Nunes, que ali lecionava e também foi outro grande orientador em sua vida pessoal, profissional e literária. Em 1947, aos 22 anos de idade, assumia a cátedra de Português do velho Liceu Piauiense, onde estudara e então a mais conceituada escola do Piauí. Em 1958, assume a cátedra da mesma disciplina na recém-fundada Faculdade de Filosofia do Piauí, onde permanece até a aposentadoria, já então integrando a Universidade Federal do Piauí, a partir do início da década de setenta, de que foi um dos principais organizadores. Nesse tempo foi também inspetor federal do ensino, no Piauí.

Na literatura, M. Paulo Nunes começou desde muito moço. Ainda adolescente lia na biblioteca municipal criada por seu pai em Regeneração. Aos 15 anos de idade leu Vidas secas, de Graciliano Ramos, apaixonando-se pela obra desse magistral escritor. Desde então, passou a ler com certo método todos os clássicos, desde os literatos aos grandes pensadores, formando, assim, sólida cultura humanística. Pode-se enumerar entre os escritores de sua predileção, Graciliano Ramos, Machado de Assis, Manuel Bandeira, Euclides da Cunha, Marcel Proust, e mais recentemente, Gabriel Garcia Marques, Vargas Llosa, Jorge Luís Borges, José Saramago e Josué Montello, sem esquecer as obras de Gilberto Freyre, Darcy Ribeiro, Paulo Bonfim, Sérgio Buarque de Holanda, Anísio Teixeira, entre outros.

Já portador de vasta cultura, considera o ano de 1945, um marco em sua vida intelectual, ao encontrar a sua geração, isto é, jovens com os mesmos propósitos, dando início a várias iniciativas culturais ao lado de José Camilo da Silveira Filho, José Maria Soares Ribeiro, H. Dobal, O. G. Rego de Carvalho, Eustachio Portella Nunes, Vítor Gonçalves Neto, Edmar Santana, Celso Barros Coelho, Afonso Ligório Pires de Carvalho, José de Ribamar Oliveira e tantos outros. É esta a geração de 45 no Piauí.

Como fruto dessa efervescência cultural, em 1946, fundam o “Clube dos Novos”, de que foi o presidente, de certa forma para fazer frente à Academia, com o propósito de revisar o modernismo na literatura nacional. Em 1949, por sugestão de O. G. Rego de Carvalho esse grupo edita o Caderno de Letras Meridiano, considerado por M. Paulo Nunes “um marco na história literária e cultural do Estado”. Antes havia colaborado nas revistas Geração, dos alunos do Liceu Piauiense e Zodíaco, do Colégio Demóstenes Avelino. Dada essa intensa atividade intelectual, em 1967, no cinquentenário da Academia Piauiense de Letras, quando foram ampliadas as cadeiras de trinta para quarenta, passou a ocupar como titular a de n.º 38.

Mais tarde, insatisfeito com o veto de seu nome para a reitoria da Universidade Federal do Piauí, mudou-se para Brasília, no Distrito Federal, onde se demorou até o ano de 1992, trabalhando no Ministério da Educação e Cultura(MEC), onde desempenhou algumas funções até aposentar-se. De regresso a Teresina, vem desempenhando importante papel no meio cultural, primeiro como presidente da Academia Piauiense de Letras(1992 - 1996) e depois no Conselho Estadual de Cultura(desde 1992 à atualidade), onde tem implementado grandes iniciativas. Desde então, tem sido intensa e marcante a sua atuação nas colunas dos jornais e revistas, sobretudo na revista Presença, do Conselho Estadual de Cultura, de que é o mentor, na da Academia Piauiense de Letras e no jornal Diário do Povo, onde manteve uma coluna semanal até bem poucos dias, colaborando ainda esporadicamente neste e em outros órgãos da imprensa local e nacional.

Como fruto dessa intensa colaboração vem reunindo e transformando em volumes seus artigos ou miniensaios onde condensa, de forma extraordinária, o seu pensamento, no dizer abalizado do Embaixador e ex-presidente da Academia Brasileira de Letras, Alberto da Costa e Silva. Um exemplo do que venho de afirmar é a quarta série de seu Modernismo & Vanguarda, que ora vem a lume, abordando as literatura portuguesa e hispano-americana, ao contrário da terceira que abordou apenas a literatura nacional. Constitui-se, pois, esse quarto volume numa interessante análise da obra de grandes escritores, sempre buscando o essencial de cada um.

Assim é que, através do ilustrado mestre tomamos contato e somos guiados pelas obras de José Saramago, Jorge Luís Borges, Eça de Queiroz, Pablo Neruda, Miguel Torga, Garcia Lorca, Padre Vieira, Vargas Llosa e Alexandre Herculano, entre outros.

De Saramago procura surpreender “seu pensamento vivo”, “seu amor à natureza, aquele centro de toda a harmonia que deveria existir entre o homem e a terra que Deus lhe deu”(p. 23), também ele, um menino “triste e melancólico”, de pequena vila portuguesa, a sua “cidade da memória”, porque “no fundo habitamos em uma memória”; assim ainda “se volvesse hoje à minha povoação, essa já não seria minha povoação, mas está na minha memória. Eu não poderia viver agora no povoado que haja sido o meu. Aí não conheço ninguém, já não tenho ninguém, haveria que começar de novo, como se estivesse nascendo outra vez”(p. 12 e 14). Essa passagem lembra M. Paulo Nunes e a sua Regeneração natal, que hoje também habita apenas em sua memória. Admirador de Saramago, desde antes do Nobel, realça o seu “estilo literário próprio” “transpondo para a sua obra o ritmo da linguagem oral dos camponeses do Alentejo” (p. 52); também, a “luta do artífice para polir a peça da maneira mais perfeita possível (...), o esforço pelo estilo que aquele jovem aprendiz(de serralheiro mecânico) iria tentar nos transmitir, em sua carreira literária, para nos dar, durante toda a sua vida, obras imperecíveis” e “a atualização do maravilhoso, sobretudo, o seu uso metafórico”(p. 34 e 50). Por fim, realça “o seu destino de escritor engajado” (p. 53), a sua estatura de “humanista, um ser engajado na defesa dos valores essenciais do ser humano e da excepcional dignidade de todos os homens, independentemente de sua condição social”, ressaltando que “sua obra tem sido, neste particular, uma cidadela no combate indormido pela redenção do ser humano” (p. 34).

Também, a sua admiração pela obra do argentino Jorge Luís Borges vem de longa data e de vários estudos, advertindo que o mesmo constitui-se em “um tema fascinante na literatura de nosso tempo”, sobretudo por “seu destino literário, de quem viveu a vida toda para a literatura e em função dos valores literários”(p. 75). É como se falasse de si próprio, engajado no magistério e vida literária desde o alvorecer da adolescência.

Por seu turno, Eça é sua velha paixão, sobretudo porque transformou “a sua escrita em um modelo de expressão perfeita”(p. 92), concentrando no estilo “o ponto mais fundo do seu sofrimento”, entendendo ele que “uma obra de arte somente subsiste pelo estilo” (p. 95).

Aliás, essa questão do estilo é uma preocupação constante de M. Paulo Nunes, enfatizando “que toda arte é estilo. Sem estilo não há literatura” (p. 49). E adverte aos neófitos: “quando se fala em estilo, muita gente pensa que se trata de algo artificial que se possa justapor à expressão própria do autor, quando, ao contrário, o estilo perfeito é aquele que possa adequar-se, de maneira natural, ao temperamento do artista e cuja regra de ouro passa a ser a da sinceridade, ou seja, a de ser fiel a si mesmo. Nada que se faça em desacordo com tal preceito poderá resultar na perfeição do estilo. Não será portanto a construção artificial que dará grandeza e permanência à obra literária, mas o ajustamento de sua expressão ao sentimento pessoal do autor” (p. 96).

Por isso, M. Paulo Nunes é chamado de Mestre, porque continua ensinando, não mais na sala de aula, mas nas colunas dos jornais, revistas e em sua obra literária. Lê-lo é adentar num mundo de cultura, (re)visitando os grandes escritores e extraindo o que eles têm de melhor, porque conduzidos pelas mãos de um profundo conhecedor de suas obras.

Assim, Modernismo & Vanguarda, 4.ª série, vem fazer justiça à bibliografia desse mestre das letras e enriquecer a literatura de língua portuguesa. É uma obra que se impõe, como aliás toda a obra de M. Paulo Nunes. Com esse novo livro ganhamos todos nós, cultores da boa literatura, só restando abrir as suas páginas e descortinar esse mundo mágico e maravilhoso.

 

·        REGINALDO MIRANDA, é membro e ex-presidente da Academia Piauiense de Letras.

·        O presente ensaio serviu de apresentação ao volume Modernismo & Vanguarda, de M. Paulo Nunes.

  

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