Dilson Lages Monteiro Domingo, 26 de março de 2017
DIÁLOGOS COM A HISTÓRIA - REGINALDO MIRANDA
Reginaldo Miranda
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Frederico Burlamaqui: o pioneiro da paleontologia no Brasil.

Frederico Burlamaqui: o pioneiro da paleontologia no Brasil.

Em janeiro de 1806, chegava à pacata cidade de Oeiras, centro administrativo da capitania de São José do Piauí, o novo governador Carlos César Burlamaqui, onde se demorou à testa do governo, com pequeno interregno, por pouco mais de um lustro, enfrentando toda sorte de adversidade. Vinha com a jovem esposa Dorotéia Adelaide Ernesta Pedegache da Silveira, sua prima prematuramente falecida e três filhos menores, entre esses uma criança de dois anos de idade. Seu nome, Frederico Leopoldo César Burlamaqui. Nascera em Lisboa, a 16 de novembro de 1803.

Mas foi na acolhedora urbe sertaneja, entre o largo da Vitória, as poucas ruas estreitas e tortuosas e as plácidas margens do velho riacho do Mocha que viveu os mais despreocupados anos de uma infância triste de menino órfão. Seu pai contrairia novas núpcias com Maria Benedicta Castelo Branco, com que teria mais dois filhos.

Foi em Oeiras, sua cidade adotiva, que ele aprendeu as primeiras letras. Desasnado, curioso, inteligente, seguiu com o pai para o Rio de Janeiro, onde prosseguiu nos estudos, dando azos à sua inteligência invulgar. Na Escola Militar do Rio de Janeiro, onde foi matriculado, estudou as matérias típicas da carreira militar e as não militares, como cálculo integral, mecânica racional, química, mineralogia, etc., conhecidas como assuntos científicos, mas que compunham a grade curricular, recebendo o grau de doutor em Ciências Matemáticas e Naturais. Nessa mesma instituição de ensino, agora com nome mudado para Escola Central do Rio de Janeiro, pelo decreto n.º 2.116/1858, retornaria como professor de Mineralogia, onde lecionou por mais de vinte anos, conquistando largo conceito.

Na carreira militar ingressou muito jovem, ao tempo da Revolução Pernambucana de 1817, tendo partido da corte para o front de luta junto com os fuzileiros do Exército, a fim de sufocar a revolta. De regresso ao Rio, foi promovido para o posto de alferes, passando na década seguinte para o de tenente e, galgando outros postos até atingir o de Brigadeiro, onde foi reformado.

Porém, notabilizou-se como paleontólogo, botânico e mineralogista divulgando importantes trabalhos de pesquisa, entre os quais: Resumo estatístico histórico dos Estados Unidos da América Setentrional(1830); Memória analítica acerca do comércio dos escravos e dos males da escravidão doméstica(1837); Resumo do curso da história e da arte militar de J. B. Rocquancourt(1842); Curso elementar da história e da arte militar(1842); Compêndio de montanística e de metalurgia(1848); Riquezas minerais do Brasil(1850); Memória sobre o salitre, a soda e a potassa(1851); Sistema de medidas para a progressiva e total extinção do tráfego da escravatura do Brasil(1856); Ensaio sobre a regeneração das raças cavalares do império do Brasil(1856); Aclimatação do dromedário nos sertões do norte do Brasil e cultura da tamareira(1857); Notícia acerca de alguns minerais e rochas de várias províncias do Brasil, recebidas no Museu Nacional durante os anos de 1855 a 1858(1858); Notícia de minerais brasileiros(1858); Manual dos agentes fertilizadores(1858); Manual das máquinas, instrumentos e motores agrícolas(1859); Monografia do cafeeiro e do café(1860); Monografia da cana de açúcar(1862); Monografia do algodoeiro(1863); Manual da cultura do arroz e de agricultura(1864); Manual da cultura, colheita e preparação do tabaco(1865), entre discursos, pareceres e outros estudos versando sobre agricultura, colonização, raios solares, astronomia, hagiologia, paleontologia, mineralogia e abolição da escravatura.

 Atuou ativamente na imprensa, redigindo por alguns anos o Auxiliador da Indústria Nacional, periódico mensal em que contribuiu com artigos de natureza agrícola e defesa do trabalho livre em contraposição ao trabalho escravo. Colaborou também no Filantropo e o Monarchista, periódicos de cunho antiescravistas, bem como nos Trabalhos da Sociedade Vellosiana, da qual era sócio efetivo. Foi nessa última revista que publicou em duas partes, sendo uma em 1855 e outra em 1856, um importante artigo, Notícia acerca dos animais de raças extintas descobertos em vários pontos do Brasil, “que se constitui na primeira publicação sobre fósseis brasileiros em um periódico nacional. No texto teceu comentários sobre os primeiros exemplares descobertos em território nacional e descreveu sucintamente alguns fósseis adquiridos pelo museu. A importância desta publicação inédita reforça o papel inovador de Burlamaqui no estudo da Paleontologia brasileira” (Antonio Carlos Sequeira Fernandes e outros professores da UFRN).

Prestou relevantes serviços ao país, no exercício de importantes cargos públicos e direção de entidades científicas, a saber: diretor do Museu Nacional e da 3.ª seção de Mineralogia, Geologia e Ciências Físicas da mesma entidade(1847 -1866); membro e secretário da comissão organizadora da 1.ª Olimpíada da Indústria, ocorrida em 1861; secretário da diretoria do Imperial Instituto Fluminense de Agricultura, este último cargo por decreto de 19.09.1860; membro da Sociedade Defensora da Liberdade e Independência Nacional; secretário da Sociedade contra o Tráfico dos Africanos e Promotora da Civilização e Colonização, ambas críticas do tráfico; e diretor do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, de junho de 1861 a agosto de 1862, quando substituiu a mão-de-obra escrava por trabalhadores livres, entre outras entidades nacionais e estrangeiras, às quais prestou relevantes serviços.

À frente do Museu Nacional por 19 anos, desde 19 de junho de 1847, realizou fecunda e operosa administração, transformando-o em um estabelecimento científico de prestígio internacional. De início, contratou diversos naturalistas para realizar expedições e coletas de material para enriquecer o acervo do museu. E manteve intensa correspondência com os presidentes de províncias visando arrecadar quaisquer achados de interesse científico, que deveriam ser encaminhados ao museu, sendo eles ressarcidos pelos custos da remessa. Em sua gestão arrecadou mais de uma centena de exemplares, a maior parte proveniente no nordeste, coroando, assim, de êxito a sua hercúlea luta. Segundo os citados professores da UFRJ “a situação do acervo paleontológico(do Museu Nacional) somente começou a modificar-se a partir de 1847 quando Frederico Leopoldo César Burlamaqui, empossado diretor do museu, formaria um rico acervo representativo da paleontologia do Nordeste brasileiro graças à correspondência com os representantes das distintas províncias nacionais, e também de outros países, em que solicitava a remessa de material fossilífero para a instituição. A incansável atuação de Burlamaqui na formação desse acervo, somado ao seu grande interesse pelos fósseis, o levou a publicar o primeiro artigo em um periódico nacional sobre a megafauna pleistocênica do Brasil. Por esses motivos pode ser considerado como o primeiro paleontólogo brasileiro”.

A verdade é que embora o dinamarquês Peter Wilhelm Lund(1801 – 1880), que realizou pesquisas nas grutas de Minas Gerais, seja considerado o “pai da paleontologia brasileira”, seu acervo foi encaminhado para Copenhagen. Ao contrário daquele, embora Burlamaqui não tenha realizado trabalhos de campo, em face de sua luta para localizar e classificar os fósseis brasileiros, com consequente publicação do primeiro estudo em um periódico nacional, deveria deter esse reconhecimento. Felizmente, se não lhe reconhecem essa paternidade, ao menos é considerado como o primeiro paleontólogo do Brasil.

Gozando de largo conceito profissional, participou ativamente de diversas sociedades literárias e científicas, entre essas: Academia de Belas Artes, Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, secretário perpétuo honorário da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional e co-fundador da Sociedade Vellosiana de Ciências Naturais, entidade criada em 1850, com o objetivo de indagar, coligir e estudar todos os objetos pertencentes à história natural do Brasil.

Como reconhecimento por seu trabalho recebeu importantes distinções honoríficas, tais quais: carta de conselheiro do Conselho de S.M.I; comenda de cavaleiro das ordens de São Bento e Avis e oficial da ordem da Rosa.

Em 28 de maio de 1844, no Rio de Janeiro, onde fixou residência definitiva, casou-se com Carolina Carlota da Silva Coelho, de cujo consórcio teve sete filhos: Pedro de Alcântara, Francisco Leopoldo, Carlos Leopoldo, Carolina Adelaide, Filomena Presciliana, Emília Joaquina e Antônio Tíbério, todos César Burlamaqui. Em segundas núpcias casou-se com Maria Genoveva de Melo Burlamaqui, com quem não teve filhos. Faleceu esse notável cientista luso-brasileiro, na mesma cidade, em 13 de janeiro de 1866, aos 62 anos de idade, vítima de tuberculose pulmonar. Nesse mesmo ano, teve o seu busto inaugurado em sessão solene no salão de honra da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional, de que foi sócio honorário e secretário perpétuo, com eloquente discurso proferido pelo médico Nicolau Joaquim Moreira(1824 – 1894), revelando importantes dados e sua biografia. É, pois, mais um vulto que honra a terra piauiense.

(Excerto do livro em preparo: MIRANDA, Reginaldo. Piauienses notáveis. Teresina: APL, 2017).

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