Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 24 de março de 2017
DIÁLOGOS COM A HISTÓRIA - REGINALDO MIRANDA
Reginaldo Miranda
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Domingos Jorge Velho

Domingos Jorge Velho

Foi sempre muito contestada a presença de Domingos Jorge Velho na colonização do Piauí. No entanto, desde 1730, Sebastião da Rocha Pita em sua pioneira obra História da América Portugueza, já afirmava que seu contemporâneo Domingos Afonso Sertão, ao adentrar o Piauí “se encontrou com Domingos Jorge, um cabo dos paulistas poderoso em arcos (...) que por outra parte as tinha entrado” (Edição de 1950, p. 243).

Ainda assim muito se escreveu em contrário, sobretudo os historiadores José Martins Pereira de Alencastre, Adolfo Varnhagen e Barbosa Lima Sobrinho, este último se constituindo no mais renhido polemista, erguendo quinze documentos que afirmam ter Domingos Jorge Velho vindo diretamente de São Paulo para combater o quilombo de Palmares, nas Alagoas.

Entre nós, Pereira da Costa e Odilon Nunes levantaram-se em defesa da tese de Rocha Pita, tendo este último historiador sustentado grande polêmica com Barbosa Lima Sobrinho, defendendo que o cabo paulista estava domiciliado no Piauí, como pioneiro de sua colonização, antes de guerrear contra os negros aquilombados em Alagoas. Odilon Nunes foi muito feliz ao afirmar e dizer que aqueles quinze documentos existem porque o paulista foi ou mandou buscar em sua terra gente suficiente para a luta, daí ter vindo de São Paulo para o combate em Alagoas.

Felizmente, encontramos um documento da lavra do governador de Pernambuco, João da Cunha Souto Maior(1685 – 1688), dirigido ao rei de Portugal, datado de 11 de março de 1687, e que confirma a tese de Odilon Nunes. Diz o governador: “No princípio do meu governo(1685) comecei logo a entender na guerra dos Palmares, movido das contínuas queixas que me faziam os moradores das vilas que lhes são vizinhas, requerendo-me acudisse e socorrê-los, porque os negros, vendo a pouca oposição que lhe faziam, se desaforavam mais do costumado. Na mesma ocasião tive notícias que uns homens da vila de São Paulo, se achavam no Sertão do rio de São Francisco, ocupados com seus esquadrões, na acostumada conquista dos gentios; Mandei os convidar, me quisessem ajudar na guerra que determinava fazer, assegurando-lhe mercês e prêmios em nome de Vossa Majestade; entraram as doenças, e com uma nova voga que conceberam de que eu era falecido, se frustraram todas as minhas esperanças, porque faltou o seu socorro” (AHU. ACL.CU 015.  Cx 014. D. 1409).

Então, esclarece o governador que “os homens da vila de São Paulo, se achavam no Sertão do rio de São Francisco, ocupados com seus esquadrões na acostumada conquista dos gentios”. Diante deste documento inédito, cai por terra a tese defendida por Barbosa Lima Sobrinho e outros. Estavam no “Sertão do rio de São Francisco” e não em São Paulo. E que sertão era este? Vejam que ele não diz no vale do rio de São Francisco, mas em seu sertão que, à época significava uma extensa área desconhecida, além do rio, inclusive o Piauí. Não é forçoso dizer que a posterior freguesia de N. Sra. da Vitória se limitava com o rio São Francisco.

Acrescenta o governador que na segunda ocasião, quando o procuram novamente “me representam, que se achavam com poder bastante para se disporem à empresa, com pouco dispêndio da  fazenda de S. Majestade” (AHU. ACL.CU 015.  Cx 014. D. 1409).

Ora, “se achavam com poder bastante” porque, de fato tinham ido a São Paulo buscar reforços, como dizem aqueles quinze documentos e, assim, afirmou Odilon Nunes. Não são falsos aqueles documentos, mas correta é a tese esposada pelo diligente Odilon Nunes, que, agora proclamo de viva voz, vencedor da polêmica com o historiador e jornalista pernambucano, Barbosa Lima Sobrinho. A prova é esta correspondência em epígrafe.

Não há dúvida, pois, de que foram o bandeirante paulista Domingos Jorge Velho e seus comandados, os primeiros representantes da colonização lusitana a se estabelecerem no território que mais tarde constituiria a freguesia do Piauí. E o fizeram no verão de 1662, entrando pela atual fronteira pernambucana e se estabelecendo com arraial na margem do riacho Caatinguinha, subafluente do Poti, altura da hoje cidade de Valença do Piauí. O arraial recebeu o nome de S. Catarina, mas sempre fora conhecido como “Arraial dos Paulistas”, em alusão à origem de seus fundadores. Cultivavam algumas lavouras de subsistência para o consumo diário e a principal atividade econômica de seus moradores era a caça ao índio para venderem-no como escravos aos moradores do litoral que corre de Pernambuco para a Bahia. Em face dessa atividade de caça ao índio não possuíam vida sedentária, se deslocando por grandes distâncias em busca de novas presas, durante o período de verão de cada ano, com considerável tropa. Sobre esse assunto já escrevemos anteriormente, razão pela qual será dado enfoque à figura de seu principal fundador.

Domingos Jorge Velho, era um típico bandeirante paulista da vila de Parnaíba, onde nascera provavelmente no ano de 1641. Eram seus pais Simão Jorge Velho e Francisca Álvares, sendo tetraneto de índios tupiniquins e tapuias cruzados com sangue lusitano. Por aquele tempo era a vila de Parnaíba um dos pontos de partida dos bandeirantes que saíam em busca de minerais, pedras preciosas e índios para venderem como escravos. Portanto, embora sendo escassos os seus dados biográficos, presumimos que sendo criado nesse ambiente, assistindo à partida de conterrâneos e parentes, ouvindo os comentários sobre as incertezas do retorno e, mesmo, assistindo ao retorno de muitos, uns frustrados, outros bem-sucedidos, fácil foi a Domingos Jorge Velho, cedo se integrar numa dessas bandeiras. E mal completados os vinte anos de idade, forma sua própria tropa reunindo alguns conterrâneos, entre esses Francisco Dias de Siqueira, e alguns índios, incorporando na jornada, e parte em busca do norte, infletindo a meio caminho para o nordeste. Dessa forma se estabelece com arraial na bacia do Poti, na forma antes relatada. E aí permanece pelo espaço de 24 ou 25 anos, fazendo paz com alguns índios para fortalecer sua tropa, e capturando outros para vender no Maranhão, em Pernambuco, Bahia e mesmo em S. Paulo. Durante esse período que demora até o ano de 1687, promovendo longas campanhas contra o aborígene varou o centro e norte do Piauí, podendo mesmo ter penetrado no Maranhão, Ceará, Paraíba e Pernambuco, mas sempre com domicílio no Piauí. Foi grande preador de índios. Afora os indígenas que trouxe de S. Paulo, no Piauí aliou-se a Aroases, Cupinharões e Tabajaras, segundo ele, de valor inigualável na arte da guerra. E com esse reforço combateu ferozmente diversas outras nações indígenas.

Entretanto, em face da fama angariada no combate ao elemento indígena, no ano de 1687, foi contratado pelo governador de Pernambuco, João da Cunha Souto Maior, para combater o Quilombo de Palmares, cujo líder naquela oportunidade era o negro Zumbi. Então, deixando para trás seu arraial, onde morara durante um quarto de século, com ranchos, alguma plantação e pequeno rebanho bovino, ovino e caprino, entre o final de julho e começo de agosto, parte com poderosa tropa, formada por cerca de 1300 indígenas e 80 brancos e mamelucos paulistas, em rumo das Alagoas. Contudo, ainda em 1688, quando se encontra no longo percurso é forçado a torcer caminho, por ordem do governador-geral Matias da Cunha, para combater os índios Janduins, rebelados no Rio Grande do Norte. E os combatendo ferozmente até o ano de 1691, consegue autorização e retoma seu destino para Alagoas, deixando em seu lugar o Mestre-de-Campo Matias Cardoso de Almeida. No entanto, sofrendo sérias agruras financeiras vende os índios capturados como escravos, no que sofreu forte oposição do capitão-mor do Rio Grande do Norte, que, inclusive o denuncia às autoridades superiores. Dessa forma, desgostoso segue para Alagoas, aonde somente chegou durante o verão de 1692, depois de passar todo o inverno anterior acampado nas margens desertas do riacho Paratagi. E por mais de três anos se dedicou ao cumprimento de seu dever, praticamente esmagando o quilombo de Palmares, que permanecera precariamente após a morte de Zumbi, seu último líder, no ano de 1695. Durante todas essas batalhas contou sempre com o decidido apoio de índios piauienses das nações indicadas. 

Domingos Jorge Velho, durante os vinte e cinco anos em que viveu no Piauí, se conservara sempre amasiado com diversas índias, só se casando quinquagenário, em 1697, com Jerônima Cardim Fróis, que, em dezembro de 1704, em companhia de outros treze antigos moradores do arraial de S. Catarina, requer extensa sesmaria na bacia do Poti, que lhe foi deferida, não tomando, porém, posse da mesma. Após a guerra de Palmares, cansado e com esposa, esse destemido bandeirante, no posto de Mestre-de-Campo se estabeleceu com fazenda em Piancó, na Paraíba, onde faleceu em 1703 sem deixar filhos reconhecidos.

Sobre sua vida, hábitos, costumes e personalidade, interessante é o depoimento do bispo de Olinda, Pernambuco, D. Francisco de Lima, que com ele encontrou-se, datado de 29 de outubro de 1697:

 

“Este homem é um dos maiores selvagens com que tenho topado: quando se avistou comigo trouxe consigo Língua, porque nem falar [português] sabe nem se diferencia do mais bárbaro tapuia, mais que em dizer que é cristão, e não obstante o haver-se casado de pouco, lhe assistem sete índias concubinas, e daqui se pode inferir como procede no mais; tendo sido a sua vida desde que teve uso de razão — se é que a teve, porque se assim foi, de sorte a perdeu, que entendo a não achará com facilidade — até o presente, andar metido pelos matos à caça de índios, e de índias, estas para o exercício de suas torpezas, e aqueles para os granjeios dos seus interesses”(AHU-ACL-N-Pernambuco-D 1732).

Embora pareça severo esse julgamento do bispo pernambucano, sobretudo sobre o conhecimento do idioma português, em face de Domingos Jorge Velho ter assinado alguns documentos firmados em português, era fato que metido na mata falava no seu dia-a-dia a língua geral. Sobre esse assunto observe-se o depoimento da historiadora e professora da Universidade Federal de Minas Gerais Adriana Romeiro:

 

“Por esta época(1708), os paulistas constituíam um grupo muito peculiar, dotado de uma identidade cultural formada ao longo de dois séculos. (...). ... os paulistas preservavam a identidade de grupo. Falavam a língua geral, de origem indígena, tinham práticas culturais mestiças, como  a arte de sobrevivência nos matos, vestiam-se de forma estranha, recusando-se a usar calçados, e, mais importante, pautavam-se por um código de valores assentado em ideais de bravura e honra” (Uma guerra no sertão – Revista Nossa História nº 25, p. 70 a 74).

 

No mesmo sentido é o parecer da pesquisadora Elisa Frühalf Garcia, doutoranda em História Moderna na Universidade Federal Fluminense, sobre o falar no Brasil colonial:

 

“Até a década de 1750, falar português não era o suficiente para se comunicar no Brasil. Na Colônia, predominava a chamada língua geral. Baseada originariamente no tupi, ela passou por modificações ao longo dos contatos entre os índios e os europeus, até tornar-se característica da sociedade colonial. A língua geral era, portanto, falada não apenas pelos índios, mas também por amplas camadas da população. Em algumas regiões da Colônia, como em São Paulo e na Amazônia, ela era utilizada pela maioria dos habitantes, a ponto de exigir que as autoridades portuguesas enviadas a esses lugares se valessem de intérpretes para se comunicar” (Guarani, a língua proibida – Revista de História nº 1, p. 73 a 77).

 

Portanto, embora Domingos Jorge Velho e os demais paulistas domiciliados no arraial de S. Catarina tivessem noção do idioma lusitano, era a língua geral que eles usavam cotidianamente, segundo se infere desses relatos. E a vida desregrada que levava, assim como o modo como dela retirava o sustento, escravizando indígenas, repugnou o grande bispo do Norte, benfeitor do Piauí, Dom Francisco de Lima.

É, porém, personagem importante no desbravamento do território e colonização do Piauí, assim como na formação do Brasil.

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