Dilson Lages Monteiro Terça-feira, 28 de fevereiro de 2017
DIÁLOGOS COM A HISTÓRIA - REGINALDO MIRANDA
Reginaldo Miranda
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A Coluna Prestes em Aparecida

A Coluna Prestes em Aparecida

                     Li A Coluna Prestes no Piauí, opúsculo com 61 páginas, bem escrito e documentado, de autoria do saudoso ex-Reitor José Camillo da Silveira Filho. Porém, nenhuma referência faz à vila de Aparecida, hoje cidade de Bertolínia. O mesmo ocorre com outros escritos que versam sobre o assunto, inclusive as memórias e biografias dos revolucionários. A razão dessa ausência é que nada de extraordinário aconteceu em sua passagem por aquela pequena localidade do centro-sul piauiense.

Todavia, se para os revolucionários ou para as forças legalistas pouca importância teve naqueles sucessos a pacata vila, ficou esta indelevelmente marcada pela passagem dos rebeldes. Na minha fase de criança naquela localidade, onde nasci, tive a oportunidade de conviver com diversas testemunhas daquele fato, hoje, infelizmente, todas desaparecidas. Por aqueles dias da minha infância a casa de meu avô, então um importante chefe político, já septuagenário, era ponto de encontro de diversos correligionários oriundos da cidade e do interior, que vinham prosear. E nessas conversas iam saindo muitas estórias. Notei que a “passagem dos revoltosos” era importante referência: isso foi antes, ou depois, mesmo “no tempo dos revoltosos”, assim diziam. Não precisa dizer que essa prosa aguçava a minha curiosidade de menino. Quem eram esses revoltosos? O que queriam? Sempre surgia alguma breve explicação. E assim transcorriam as referências ao assunto.

E para a perpétua memória dos tempos, passo a narrar o que ouvi, principalmente de minha avó Maria Martins de Miranda Rocha(Cotinha Miranda). Segundo ela, quando da passagem da Coluna Prestes, ou dos revoltosos, como chamava o povo, muita gente deixou a vila, inclusive o então intendente municipal Manoel Emídio Pereira da Rocha, que se deslocou com toda a sua família para a fazenda Prazeres, distante seis léguas. Era o chefe situacionista e, por isso, temeu o encontro com os revoltosos. Essa sua saída para a fazenda foi ironizada pela oposição, tendo Baêta inventado uma quadra poética que ouvi recitada por meus saudosos tios Elisabeto Mendes da Rocha e José Martins de Sousa e Rocha. Infelizmente, não a anotei.

Na época, o chefe oposicionista era o capitão da guarda nacional Valentim Francisco Mendes da Rocha, chamado “Baêta”, ex-intendente municipal e pai de meu avô Dermeval Mendes da Rocha, este casado e morando em sua companhia. Mourejando na oposição, nada tiveram a temer, esperando os revoltosos em sua casa, na vila, onde os receberam bem. Contava minha avó que seu sogro e padrinho Valentim Rocha, pegou uns dois ou três rifles seminovos, colocou em sacos bem amarrados para não entrar areia e os enterrou no quintal de sua casa, deixando outros mais velhos expostos, com alguma munição para presentear os revoltosos. E não enterrou todos para não provocar a ira, pois aqueles não iriam acreditar que na casa não existisse armas. Por razões parecidas, andaram humilhando fazendeiros da família, como José Valentim Pereira da Rocha e Gonçalo Martins da Rocha, este último morador na fazenda Vereda dos Cavalos.

Pois bem, o certo é que foi o capitão Valentim Francisco Mendes da Rocha quem os recebeu em Aparecida, havendo cortesia de ambas as partes. Os superiores foram recebidos na casa residencial e os demais descansaram defronte à mesma, à sombra de frondosas mamoranas que arborizavam a única praça da vila, ainda existindo algumas. Não disponho de outros registros. Mas cumpre informar que, tendo iniciado a marcha em maio de 1925, eles entraram no Piauí em duas oportunidades, sendo a primeira em 8 de dezembro de 1925, quando ocuparam a vizinha vila de Uruçuí e depois de ameaçarem a Capital abandonam o Estado em 22 de janeiro seguinte pela fronteira do Ceará; em 11 de julho de 1926, procedentes de Pernambuco, retornam ao Piauí, mas aí já demandavam para a Bolívia, onde se asilaram em 3 de fevereiro de 1927, passando por Jaicós, Picos, Oeiras, Floriano e Amarante, chegando a Jerumenha em 25 de julho, Uruçuí e Bom Jesus do Gurgueia, respectivamente, em 4 e 9 de agosto. Pois, justamente aí, entre 26 de julho e 3 de agosto de 1926, é que acamparam em Aparecida.

Foi um belo movimento de jovens e idealistas militares, uma epopeia, romântica marcha por mais de 25 mil quilômetros do território nacional, visando despertar a consciência do povo. Contou com líderes do porte de Luiz Carlos Prestes, que nominou o movimento, Siqueira Campos, Juarez Távora, João Alberto e Miguel Costa, todos denodados e aguerridos militares. Foi um malogrado e romântico sonho de libertação do Brasil do jugo oligárquico. Mas ainda era cedo, embora esse ideal fosse desembocar na revolução de trinta.

 (Diário do Povo, 9.4.2015).

* A fotografia que ilustra a matéria é da vila de Aparecida, hoje cidade de Bertolínia.

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