Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 18 de maio de 2012
DELEITURA
Luiz Filho de Oliveira
Tamanho da letra A +A

MICROANTOLOGIA QUASE TODA ERÓTICA DE MICROS E ROSAS

 

I. Manuel Bandeira


 

ALUMBRAMENTO

Eu vi os céus! Eu vi os céus!
Oh, essa angélica brancura
Sem tristes pejos e sem véus!

Nem uma nuvem de amargura
Vem a alma desassossegar.
E sinto-a bela... e sinto-a pura...

Eu vi nevar! Eu vi nevar!
Oh, cristalizações da bruma
A amortalhar, a cintilar!

Eu vi o mar! Lírios de espuma
Vinham desabrochar à flor
Da água que o vento desapruma...

Eu vi a estrela do pastor...
Vi a licorne alvinitente!
Vi... vi o rastro do Senhor!...

E vi a Via-Láctea ardente...
Vi comunhões... capelas... véus...
Súbito... alucinadamente...

Vi carros triunfais... troféus...
Pérolas grandes como a lua...
Eu vi os céus! Eu vi os céus!

- Eu vi-a nua... toda nua!

                                                Clavedel, 1913


(Carnaval, 1919.)




Evocação do Recife

Recife
Não a Veneza americana
Não a Mauritsstad dos armadores das Índias Ocidentais
Não o Recife dos Mascates
Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois
         Recife das revoluções libertárias
Mas o Recife sem história nem literatura
Recife sem mais nada
Recife da minha infância

A rua da União onde eu brincava de chicote-queimado e partia as vidraças da casa de                                                                                                              [dona Aninha Viegas
Totônio Rodrigues era muito velho e botava o pincenê na ponta do nariz
Depois do jantar as famílias tomavam a calçada com cadeiras mexericos namoros risadas
A gente brincava no meio da rua
Os meninos gritavam:

Coelho sai!
Não sai!

A distância as vozes macias das meninas politonavam:

Roseira dá-me uma rosa
Craveiro dá-me um botão
(Dessas rosas muita rosa
Terá morrido em botão...)

De repente
               nos longos da noite
                                                                                            um sino

Uma pessoa grande dizia:
Fogo em Santo Antônio!
Outra contrariava: São José!
Totônio Rodrigues achava sempre que era São José.
Os homens punham o chapéu saíam fumando
E eu tinha raiva de ser menino porque não podia ir ver o fogo.

Rua da União...
Como eram lindos os montes das ruas da minha infância
Rua do Sol
(Tenho medo que hoje se chame de dr. Fulano de Tal)
Atrás de casa ficava a Rua da Saudade...
                                                                        ...onde se ia fumar escondido
Do lado de lá era o cais da Rua da Aurora...
                                                                        ...onde se ia pescar escondido
Capiberibe
- Capiberibe
Lá longe o sertãozinho de Caxangá
Banheiros de palha
Um dia eu vi uma moça nuinha no banho
Fiquei parado o coração batendo
Ela se riu
                                                                Foi o meu primeiro alumbramento
Cheia! As cheias! Barro boi morto árvores destroços redemoinho sumiu
E nos pegões da ponte do trem de ferro os caboclos destemidos em jangadas de bananeiras

Novenas
                        Cavalhadas

E eu me deitei no colo da menina e ela começou a passar a mão nos meus cabelos
Capiberibe
- Capiberibe

Rua da União onde todas as tardes passava a preta das bananas
Com o xale vistoso de pano da Costa
E o vendedor de roletes de cana
O de amendoim
          que se chamava midubim e não era torrado era cozido
Me lembro de todos os pregões:
             Ovos frescos e baratos
             Dez ovos por uma pataca
Foi há muito tempo...

A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros
Vinha da boca do povo na língua errada do povo
Língua certa do povo
Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil
             Ao passo que nós
             O que fazemos
             É macaquear
             A sintaxe lusíada
A vida com uma porção de coisas que eu não entendia bem
Terras que não sabia onde ficavam
Recife...
                Rua da União...
                                           A casa de meu avô...
Nunca pensei que ela acabasse!
Tudo lá parecia impregnado de eternidade
Recife...
               Meu avô morto.
Recife morto, Recife bom, Recife brasileiro
como a casa de meu avô.
                          Rio, 1925.

(Libertinagem, 1930.)



 
II. Pablo Neruda


 
LOS VEINTE POEMAS

1

Cuerpo de mujer, blancas colinas, muslos blancos,

te pareces al mundo en tu actitud de entrega.
Mi cuerpo de labriego salvaje te socava
y hace saltar el hijo del fondo de la tierra.

Fui solo como un túnel. De mí huían los pájaros
y en mí la noche entraba su invasión poderosa.
Para sobrevivirme te forjé como un arma,
como una flecha en mi arco, como una piedra en mi honda.

Pero cae la hora de la venganza, y te amo.
Cuerpo de piel, de musgo, de leche ávida y firme.
Ah los vasos del pecho! Ah los ojos de ausencia!
Ah las rosas del pubis! Ah tu voz lenta y triste!

Cuerpo de mujer mía, persistirá en tu gracia.
Mi sed, mi ansia sin limite, mi camino indeciso!
Oscuros cauces donde la sed eterna sigue,
y la fatiga sigue, y el dolor infinito.


(Los Veinte Poemas de Amor y una Canción Desesperada, 1923-1924.)



 

 
III. Martha Medeiros

 

 
puxei a manga da camisa um pouco pra cima
perto do cotovelo,e abri o botão calmamente
como se fizesse isso todo dia na tua frente
não te olhei como amiga nem professora
e não liguei para a pouca idade que tinhas
eu era mais madura e você mais coerente
tinha certeza de tudo mas não se mexia
passei a mão no teu cabelo
te beijei na testa, no queixo
beijei tua nuca e tua boca
e fui a primeira mulher nua da tua vida


(Persona non grata, 1991.)



 

 
IV. Luiz Filho de Oliveira


 
Versos a uma mulher em pelos (em textos de Pablo a Manuel)*

a primeira mulher adulta
despida à minha vida
não me-veio versos nus
ou alumbramentos
foi nua revista a mim –
menino – por uma libertina
oferecida:  amiga de umas
intenções quintas!

mas que encontro!
o primeiro de tanto encanto
do lado contra um sexo oposto!
em imagem parada extática era
tão vida a rosa-púbis da estrela!

e a segui-la noutra cena
o cérebro ainda (cores vidas!)
e em seguida – desenhada – foi
arte & libido proibidas (minhas)
mas em papel verde tinta – esquisito!

e que esperança
de tê-la sim (não foto ou gravura)
pu-la em meu rijo pênis jovem!


(Num Porto Maior, que é certamente um Campo Alegre.)


(Onde Humano, 2009.)

Compartilhar em redes sociais

Comentários (1)

Nomrally I'm against killing but this article slaughtered my ignorance.

HkMZmJpxkKwzbtvNth
postado:
05-12-2011 14:27:00

Deixe o seu comentário


Reload Image








Últimas matérias da coluna

12.05.2012 - DAS BOCADAS SATURNINAS

31.03.2012 - TRÊS GRITOS INSCRITOS À PELEJA COM A ESCRITA

09.03.2012 - À RÚSSIA, COM NATALYA ESTEMIROVA, A VINGAR UM POEMA

17.02.2012 - FIM DA SEMANA: ESCREVO PELA NONAGÉSIMA VEZ

22.12.2011 - JOGO POEMA EM JOGO

18.12.2011 - CARDÁPIO DO TERRENO DA POESIA

25.10.2011 - MICROANTOLOGIA QUASE TODA ERÓTICA DE MICROS E ROSAS

19.10.2011 - Os dentes mordem a memória em cenas teresinas

19.09.2011 - AINDA SATÍRICA, A MENTE, À MODA DAS ANTIGAS

16.08.2011 - AQUELAS FLORES AINDA SALTAM NO MEU CÉU!

28.07.2011 - Doutor Gojoba, do Primavera pro mundo

17.07.2011 - Poesia: um dos ondes humanos

08.07.2011 - ESTOU “DIRETAMENTE INTERESSADO” EM METADE DE SUA CASA

17.05.2011 - NOTAS DUM PIAGA DE CÁ DO PIAUÍ

17.04.2011 - DE LÁ DE PERNAMBUCO

Ver mais

Dicionário de Escritores Entretextos Editora On-line
Entretextos Acadêmico
Rádio Entretextos
Livros online
Últimas matérias

17.05.2012 - O VELHO CHALÉ DE JOSÉ DE FREITAS (PARTE 1)

..............................................................................................

17.05.2012 - Algumas faculdades europeias e estadunidenses de Jornalismo

Na Europa, uma excelente faculdade de Jornalismo foi construída pela Universidade Autônoma de Madri, conveniada com o jornal espanhol El País

17.05.2012 - NANA, um tratado sobre as relações humanas

Uma complexa e extensa novela gráfica japonesa

17.05.2012 - Terra do Gado

A história e as histórias que reuniu e redimensionou são, ao tempo em que lançam novas luzes sobre a identidade do Piauí, principalmente, um reflexo do ideal de projetar entendimento mais preciso das marcas da “piauiensidade”

17.05.2012 - Uma luta de Sísifo

Durante boa parte do meu temo

16.05.2012 - A CRIATURA - PARTE 2

De olhos bem abertos ela fitava o teto. Imagens dispersas deslizavam umas sobre as outras, enroscando-se numa massa caótica de energia desperdiçada. Os ponteiros do relógio, alheios ao seu sofrimento, moviam-se silenciosamente.

16.05.2012 - Família lança livro inédito do desembargador e contista Magalhães da Costa

Família lança livro inédito do desembargador e contista Magalhães da Costa

15.05.2012 - No país das CPIs

Tempos atrás já houve

15.05.2012 - A mulher vital

A história da Narrativa (cinema, literatura, etc.) é cheia de arquétipos e estereótipos

15.05.2012 - Inobstante, face a, frente a e outras locuções

Por sugestão de M. P. Kern, de Pinhalzinho/SC, vamos tratar hoje do “uso de face a e inobstante, expressões muito usadas no meio jurídico”. O pedido sem dúvida decorre do fato de algumas pessoas condenarem a locução face a

15.05.2012 - O melhor trecho do novo livro de Rogel Samuel

A escolha de um trecho melhor é idiossincrática - e por isso irrelevante -, mas o novo ensaio rogeliano é crítico-filosófico - e ultrapassa a mera crítica literária

14.05.2012 - Vi uma coisa medonha no céu

Mergulhemos um pouco no mundo sombrio e tenebroso criado por H.P. Lovecraft: os horrores do Necronomicon

14.05.2012 - Abril de 2012: UNESCO anuncia proteção aos destroços do Titanic

Em águas internacionais, a 4.000 m de profundidade, nenhum país pode reivindicar a jurisdição exclusiva do local

13.05.2012 - Tradução de um texto de Raymonde Norman*

Sobre minha fronte

13.05.2012 - Três fábulas de La Fontaine

(1) O leão e o rato; (2) A raposa e a cegonha; e (3) O lobo e o cordeiro

LABORATÓRIO DE REDAÇÃO PROF. DÍLSON LAGES
Baloon Center, Av. Pedro Almeida nº 60, Loja 21 (primeiro piso) - São Cristóvão - Teresina - Piauí - Fone (86) 3233 9444
e-mail: dilsonlages[@]uol.com.br