DELEITURA
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fruturo*
danem-se as ervas daninhas
pra frente par somente se
vinhas amar bem semente
(Luiz Filho de Oliveira. BardoAmar. Teresina: Ed. do Autor, 2003.)
onde o poeta substitui um poema: o da arvorezinha que fazia pose por ibope no meio do seu caminho pela poesia
- ah...
meu velho Braga:
também perdi a agenda!
que tristeza...
meu camarada!
nela havia um poema...
a quem cantava?
a Bopp: aquele cabra Norato! cobra!
a ver a arvorezinha ser música o céu querendo
(Na sombra de um pé de crioli, no interior de Alto Longá.)
(Luiz Filho de Oliveira. Onde Humano. Teresina: Nova Aliança, 2009.)
*Neologismo criado por Oswald de Andrade.
Meu caro Cunha e Silva, suas análises sempre são de uma profundidade esclarecedora. Sou muito grato pela disponibilidade em analisar minha produção poética. Saudações.
Luiz Filho de Oliveira; Estamos em tempos de comemorações - entenda-se, poéticas - e o título da sua coluna, como em 22, vem sempre pra épater le burgeois. Do aspecto pictográfico e alusivo à ironia da celebração dos noventa anos do marco zero de uma nova guinada, com figurantes não tão novos assim nem tampouco dignos de serem assim chamados. O país mesmo é uma mistura, um melting pot intelectual de tendêncisas revolucionárias com antecedentes de prógonos. ´ Mas, vamos ao que interessa, a apresentação dos dois poemas acima não é uma gratuidade conhecendo as intenções de natureza mallarmaica de alguns versos do autor : "um poema se faz com palavras" E aí se encontra um dos seus esteios estéticos eternos e valiosos. Desde o neologismo de Oswald de Andrade potencilamaente desmembrando dois vocábulos significativos, no qual a força do vocábulo criado vale como um projeto futuro, que , em muitos aspectos, se tornou realidade na suas várias facetas de vanguarda com reopercussões até hoje na poesia brasileira. Os grande poema hoje vale mais pelo que produz de sentimento estético ainda que esteja incrustado nas pressuposições de crítica social. A aparente desarticulação semântico-sintática é parte inseparável do signo poético, da procura do leitor para dar algum sentido que o satisfaça artisticamente, ou não o agrade da mesmaa forma. O poema é um constructo, uma peça inteiriça, que vale pelo que é ou pode ser. Por isso, na poesia dos dias que correm há uma espécie de sofreguidão para o recurso dialógico com outras vozes poéticas ou não-poéticas, já que o entrelaçamento pode descambar para o pictórico, as curvas, as linhas, o geometrismo, a perspectiva. A poesia se inscreve, assim, no reino das possibilidades. O seus versos, desde o título quilométrico, tão à moda das obras barrocas (veja-se Gregório de Matos ), ou na prosa de Rabelais(veja-se na obra Gargantua) ou até mesmo em romances de Jorge Amado, formalmente desestabilizam o leitor comum e mesmo o leitor culto porque o poema de hoje sofre de um impasse, de um impacto que se situa nos interstícios do canônico e do contemporâneo, melhor do que se convencionou denominar pós-modernidade. Não é que a crise que se estabelece no seio da criatividade se ressinta de temas a serem explorados pelo poeta. Não é isso que tencino dizer. É que os nossos tempos revoltos e difíceis (para não alarmar muito) parecem ter dado uma trégua, um ponto de parada a fim de que o poeta possa ter ampla oportunidade para metapoeticamente encontrar um caminho que seja novo, pessoal e não sofra daquela "angústia da influência" de que fala Harold Bloom. As influências entre poetas existem sem dúvida, mas , se há semelhanças do acaso, estou com a ideia de uma grande poeta do Paraná, Helena Kolodi(1912-). Paulo Leminski, certa vez, viu na poesia dela "a pureza, a entrega , a singeleza e a santidade de um Mário Quintana" e lhe perguntou se ela com isso concordava. Helena discordoou dele, e lhe disse que, "...pessoas parecidas entre si [...]guardam também muita diferença"]. No segundo poema as alusões dialógicas (Braga, naturalmente Rubem Braga, o cronista,o poeta Raul Bopp, autor de Cobra Norato, poemeto épico do verdeamarelismo modernista desvendando os segredos míticos amazônicos, são pecinhas vocabulares que se encaixam na composição do poema em questão. Brincar com as palavras, ainda que seja um ludismo feito com a seriedade poética torna-se uma atitude formal criadora de ambiguidades e espírito de ironia, como se vê pelo uso da paronímia ( no par: cabra/Cobra, em que o primeiro elemento do sintagm, títulodo livro de Bopp aindsa sofre um rebaixamento de nome próprio para nome comum e, na mesma linha do poea aparece solto em exclamação reforçando ainda mais a camada plurissignativa do termo cobra, pois "cobra" também sinaliza para o sentido de alguém que tem grande habilidade em alguma coisa. Note-se que o poema no todo se desenvolve em diálogo, traço de oralidade que já se encontra no poema de Raul Bopp. Ironicamente, da mesma forma, o poema em diálogo, ao negar a possibilidade de se tranformar em poema concretamente, fisicmente, dado que o poeta havia perdido a agenda, e, portanto, a possibilidade material da sua existência, o poema se afirma como ser autônomo.
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