Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 18 de maio de 2012
DELEITURA
Luiz Filho de Oliveira
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A poesia medieval é a medida velha para uma nova mente

A poesia medieval é a medida velha para uma nova mente

Desde que comecei a lecionar a disciplina Literatura no primeiro ano do ensino médio, o meu interesse pela literatura medieval foi ficando cada vez mais forte. A partir disso, os poemas-canções dos trovadores galego-portugueses, assim como o teatro vicetino e os poemas palacianos, passaram a fazer parte da minha leitura com uma frequência mais habitual do que na minha época de estudante universitário do curso de Letras. 

Assim, nomes como cantiga, esparsa, vilancete, mote, glosa foram-se tornando comuns também na minha produção poética. Claro que, a princípio, isso se-deu por influência da minha necessidade de estudar esses conteúdos para trabalhá-los em sala de aula; depois, por interesse na história da língua portuguesa, que é, evidentemente, a “matéria-prima primordial” da minha poesia. O meu primeiro poema, em estilo medieval, incluído no livro BardoAmar, de 2003, foi uma esparsa (o adjetivo “esparso” significa “isolado”, “separado”), poema constituído por uma única estrofe, como este de Sá de Miranda, presente no Cancioneiro Geral, de Garcia de Resende:

 
Cerra a serpente os ouvidos

à voz do encantador;

eu nam, e agora com dor

quero perder meus sentidos.

Os que mais sabem do mar

fogem d’ouvir as sereias;

eu não me soube guardar:

fui-vos ouvir nomear,

fiz minh’alma e vida alheas.

 
Além da esparsa que compus, alguns outros poemas de BardoAmar também apresentavam alguma referência à poesia medieval, em relação ao vocabulário, claro, pois, quanto ao conteúdo, não há nenhuma possibilidade, já que sou um poeta de outra época. Porisso, não há como reeditar uma postura (no caso, amorosa) como esta que aparece no vilancete do Conde do Vimioso, também presente no Cancioneiro Geral:

 
Meu amor, tanto vos amo,

que meu desejo não ousa

desejar nennhuma cousa.



Porque, se a desejasse,

logo a esperaria,

e se eu a esperasse,

sei que vós anojaria:

mil vezes a morte chamo

e meu desejo não ousa

desejar-me outra cousa.

 
Como eu disse, dessa poesia somente é possível copiar-lhe as formas, pois um conteúdo como esse em que o eu-lírico diz que o desejo deve ser afastado da relação amorosa é algo improvável na poesia contemporânea (a não ser que seja uma poesia de cunho religioso). E mais: desejar a morte para si mesmo também é algo que não faz parte de meu projeto de vida amorosa. Isso fica para esses poetas ou compositores de músicas “melosas” que querem agradar a um público lacrimoso.
 
Não sei se é do agrado de todos (claro que sei que não é!), mas os poemas de que falei são estes que lerá a seguir. O primeiro é a esparsa; o segundo é um vilancete. Vamos a eles:


esparso


gatinha... te-amei de amor

pré-antigo, moderno-pós,

pois (ai!) contracanto arteiro:

“teu não a mim não foi cor!”;

entre tantos, mais não digo,

posto, assim, cantarão

que, então, sendo não-amigos,

verso inverso o verso ubíquo:

que eu não sinta o ex-coração!


(Luiz Filho de Oliveira. BardoAmar, 2003.)




vilão ser-te por amar a esta velha forma antiga


meu amor – tanto te-amo

que meu desejo são ousa

desejar-te minha lousa



por que bem te-escrevinhasse

pela pele em poesia

o que nos-registra o enlace

entre a tua vida e a minha

palavras mil eu reclamo

e tal ideia repousa

no teu corpo – minha lousa


(Luiz Filho de Oliveira. Onde Humano, 2009.)

 

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