| CRÔNICA DE SEMPRE |
CASSIANO RICARDO
JEREMIAS E OS MORTOS DA BAIXADA
Rogel Samuel
«Na sexta-feira, 1 de abril de 2005, chacinas no Rio podem ter matado 41 pessoas. Foi uma das madrugadas mais sangrentas no Estado.» Noticiários transformados em plantões policiais.
«A esperança mói.
A esperança dói.»
Escreveu Cassiano, em «Jeremias sem chorar».
Antes da queda do muro de Berlin, estava eu em casa do Lothar, na Mendelsonstrasse, em Frankfurt. Via tv todos os dias, fora estava frio. Comentei, para ele: «Não vejo notícias de crimes, por aqui». Ele retrucou: «Não há, não. Uma associação de consumidores impôs, em ação na Justiça, que não se divulgasse isso».
- Por quê? Perguntou o senso comum brasileiro. Não fere a liberdade de imprensa?
- Não, disse ele. A media tem de estar a serviço da população...
- Mas a população não deve ser informada sobre o perigo?
- Não é o caso, argumentou ele. Se há um assassino, ou uma quadrilha solta na cidade, não é meu problema, mas da polícia, cabe à polícia prendê-lo. A polícia tem o dever constitucional de proteger-me, e para tal é paga. Quanto à imprensa, não tem o direito de aterrorizar-me.
Calei-me.
Pareceu-me ter um ar
de abismo, não obstante alva
e limpa como uma estrela-
Cassiano Ricardo, dos maiores poetas do Brasil. Sob certos aspectos, o maior de sua geração, na técnica, na variação de sua poética, «renovando a poesia», disse Cabral. Sobre ele, Oswaldino Marques escreveu o clássico da crítica literária brasileira: «O laboratório poético de Cassiano Ricardo».
Lembra Oswaldo Mariano a observação de Mestre Alceu de que Archibald MacLeish escreveu que o poema deveria ser um «globe fruit», integrado no «pensamento planetário», na era cósmica. Por isso, diz o autor do prefácio, no livro predomina «a esfericidade semântica», e a rima «esfera» e «espera». Ou em «Os sobreviventes»:
Milhões de crianças chorando
na noite esférica.
Por que choram?
Não são
elas que choram.
É o futuro.
Escreveu Archibald MacLeish:
Haverá pouca coisa a esquecer:
o vôo dos corvos,
uma rua molhada,
o modo do vento soprar,
o nascer da lua, o por-do-sol,
três palavras que o mundo sabe,
pouca coisa a esquecer.
Em «Os que virão depois», diz Cassiano:
não os sobreviventes
que hoje usam máscaras
pra fingir de vivos
não os que poderiam
ter morrido esta noite
sob a chuva de sol
nuclear
mas os que acordarão
como pássaros
que anunciam o amanhe-
cer
sem nenhuma surprêsa
de ainda estarem
vivos
É assim na tradução de Bandeira.
É assim nos mortos da Baixada.
Sim, acordar. Como os pássaros. Mas sem nenhuma surpresa acordaremos vivos, sem a esperança que dói. O mundo que mais parece abismo, uma estrela branca, pairando no ar. Quando morrer esquecerei de tudo, e todos me esquecerão. Haverá, de pouca coisa a esquecer, quase nada: o fracos poucos versos que fiz, os romance que construí, essas minhas crônicas. Pouca coisa. Três palavras que o mundo sabe. Para mim, será bem mais difícil esquecer: meu amor fracassado, minhas impossibilidades, meu caso perdido. Acordar, renascer? Não creio. Meus olhos fechados sob a campa. Não verei nem o nascer da lua, nem o por-do-sol.
A chuva pinga, na argila rasa.
Rogel: Acabo a leitura de sua crônica-poesia, Jeremias e os mortos da Baixada. O texto é belo ma multiplicidade de suas vozes ainda que estas expressem,na língua dos poetas, a iniquidade dos bárbaros. Mss, para mim, me pareceu , como diriam os ingleses, "too gloomy" para uma alma bela e ´visceralmente poetica como a sua. Não, meu caro Rogel, não haverá esquecimento para você que tanto alma a vida e, quem ama a vida, ama também a eternidade. Você tem a capacidade de escrever de maneira prismática, soltando fagulhas de ternura e sentimento de humanidade. Por isso, não se lhe ajusta ao estilo de vida pessoal e de vida intelectual qualquer nesga de nostalgia melancólica do futuro. Para Você, que escreve febrilmente, que respira a cotidianidade da bela e cansativa arte da escrita, jamais. parafraseando aquele titulo do belo romance de Hemingway, o sol haverá de nascer para você, sua ficção e sua poesia ou qualquer outro gênero que cultiva. Por isso, repito, veja na vida a imortalidade do outro lado. Pense no presente com a duração do infinito. Nada de cansaço, nada de romantismo tardio, nem de esperanças malogradas. Seu edifício está construído. Basta agora somente cultivá-lo com a alegria dos que sabem fazer os outros sonharem e crerem na beleza da vida e, no seu caso, como no meu, no destino da atividade criadora. Isso já conforta. E muito. O cético Machado, pouco antes do último suspiro, confessou: "A vida é boa". Esta citação li hoje em Érico Veríssimo, na pequena obra escrita em inglês sobre a literatura brasileira.
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