CRÔNICA DE SEMPRE
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A RECONSTRUÇÃO DA SUBJETIVIDADE, 1
Rogel Samuel
A medida que prosseguíamos a pesquisa de que resultou este trabalho íamos percebendo que a subjetividade se reconstruía no texto literário no sentido primeiro de uma resistência à objetividade da razão, depois como reconstituição da subjetividade perdida (do tipo reivindicatório dos direitos da paixão), para sofrer a seguir um reencontro com o sujeito esquecido pela sociedade industrial. No fim, entretanto, percebemos claramente que desse reencontro passava-se para uma reconstrução da subjetividade, considerando-se que a obra de arte supera essa dualidade de sujeito e objeto.
Essa reconstrução superativa desestabiliza a própria noção de subjetividade, e dá à condição subjetiva uma “dialética do fantástico”, isto é, aspirando a sair das grades objetivas, porque constrói um mundo autônomo e verossímil para tematizar a realidade(a sociedade), e recusando-se a ficar no “alienado” mundo subjetivo, a arte instaura uma sobredeterminação que não é mais nem sujeito nem objeto, mas é ela mesma como crítica da possibilidade de abrir espaço. A norma objetiva não foi recusada aí, do que resultaria uma visão aleatória de um mundo inexistente. E as emoções do sujeito não foram controladas pela racionalização visando a um fim. Nenhuma dessas duas margens do rio foi deixada a descoberto. A terceira margem, porém, passara a constituir-se como forma, como possibilidade de emancipação.
Portanto, a metáfora “terceira margem do rio” nos possibilitou mais uma vez compreender “literariamente” o que se passava na obra de arte, especificamente com Grande Sertão: veredas.
De Grande Sertão: veredas vimos o homem (ali Diadorim) e o mundo (ali o sertão). Como compreender esse homem e esse mundo sertanejo sob a ótica do mundo internacional atual, Ocidental, o mundo do capitalismo monopolista, estatal, científico, intervencionista, nesse complexo industrial-militar de que não participa o terceiromundista sertão? No fundo, vê-se que interpretando o papel do sertão no mundo moderno estaríamos iluminando certas zonas obscuras do papel do Terceiro Mundo. Pois literatura é problematização da ideologia tecnocientífica dominante.
Poderíamos dizer que vimos Grande Sertão: veredas sob a ótica da Escola de Frankfurt, e por isso conseguimos localizar neste romance a reconstrução superativa da subjetividade do estado de massa e da objetividade instrumentalista do capitalismo de prestação de serviços, no meio de sua crise inflacionária. Esta tese sofreu o impacto de fatos históricos da atualidade, embora a diversidade de Diadorim não seria um mero papel social.
SAMUEL, Rogel. A Reconstrução da Subjetividade no Grande Sertão. RIo de Janeiro, Faculdade de Letras da UFRJ, 1983. Tese de Doutoramento.
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