Dilson Lages Monteiro Sábado, 11 de fevereiro de 2012
CRÔNICA DE SEMPRE
Rogel Samuel (atualização diária)
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A RECONSTRUÇÃO DA SUBJETIVIDADE

A RECONSTRUÇÃO DA SUBJETIVIDADE

A RECONSTRUÇÃO DA SUBJETIVIDADE


Rogel Samuel

SAMUEL, Rogel. A Reconstrução da Subjetividade no Grande Sertão. RIo de Janeiro, Faculdade de Letras da UFRJ, 1983. Tese de Doutoramento.



A partir do séc. XX a arte se encontra com a reificação do homem, transformado em objeto social, na massa, imanente ao todo.
As sociedades modernas são sociedades de massa e estamos nelas como a água dentro da água, para usar a metáfora de Bataille. O homem do capitalismo de massa e imanente ao todo. Se sair desta imanência, morre.
Na massa a individuação não é nem coisa nem homem. Fica no meio do caminho que vai daquela para este. Pois as coisas estão no nível da terra, do planetário, sem um sentido dinâmico que lhes dê vida. As coisas mesmas, em si mesmas, são o não-sentido, se nos a imaginamos sem uma consciência que as pense, que transforme as coisas em objetos do pensamento. A coisa, como tal, não é ainda objeto (do sujeito), não é ainda objeto do conhecimento, pois o objeto passa a existir de um sujeito que o pensa. O vazio das coisas e o terror que se limita a ver o horizonte vazio e oco, espécie de lugar sem alma, lugar da morte, paisagem lunar.
Na medida em que nós possamos ver o homem também uma coisa, seu absurdo não e menor do que o das pedras, mas ele não é sempre redutível à realidade inferior que nos atribuímos às coisas. Pois o problema que se avista na reificação é a incomunicabilidade, o absurdo de viver no mundo despovoado de sentido, de não participar da história, de não compreender o todo, de ignorar as causas das decis6es dos acontecimentos. O homem moderno se encontra num limite narcótico. O afastamento da natureza, onde era exigido o exercício pleno dos sentidos, o artificialismo da vida tecnológica, uma espécie de inteligência sem alma. Nosso mundo e o mundo eletrônico dos microcomputadores, porta-vozes de uma felicidade sem alma, anestésica, onde tudo funciona bem, sem erro, sem nervo. O homem, hoje, parece ter sido transformado em objeto da ciência, imanente ao todo.
O mundo da modernidade é o da imanência e do imediatismo.
O mundo não estaria na medida em que se pode transcendê-lo. A transcendência pertence à categoria humana, da consciência em relação às coisas. A vacuidade do olhar que vê o vídeo, revela a imanência existencial do homem não mais exercendo o seu poder de transcendência.
Objeto é o emprego que a tecnologia moderna faz das coisas tornadas úteis, práticas, aperfeiçoadas, interrompendo-se a continuidade harmoniosa e natural em que se encontravam. O olhar que vê o objeto não e o mesmo olhar que vê a coisa dada na natureza, assim como o olhar que vê o vídeo não é igual ao olhar que olha uma flor. Olhar uma flor e a redenção deste olhar capaz de transcendência. O vídeo fez o olhar desaprender, o olhar não mais sabe decodificar a flor. A flor que é flor, agora, só é e a que vem pronta, não a flor da margem da estrada. O olhar já não pára na margem da estrada, para a contemplação da flor. Pois a contemplação pertence a um passado, algo remoto e histórico. A contemplação não é possível na técnica que traduz tudo, no fato matematizado. A técnica revela o esquecimento do olhar.
A técnica prepara o homem para aceitar esta imanência, que submete o sujeito ao jugo do objeto. Ensina-o a ser “feliz”. O homem do Estado científico se submete sem protesto ao mundo dos objetos sem experimentar um horror a reificação.

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