Dilson Lages Monteiro Terça-feira, 27 de junho de 2017
CRÔNICA DE SEMPRE - ROGEL SAMUEL
Rogel Samuel (atualização diária)
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UNIVERSOS PARALELOS - CRÔNICA ANTIGA

 

UNIVERSOS PARALELOS - CRÔNICA ANTIGA

 

UNIVERSOS PARALELOS - CRÔNICA ANTIGA

 
Rogel Samuel
 
        O Rio de Janeiro doente, piora. Entramos no início de fase crítica, quando o choque parece inevitável. A cidade progressivamente desfalece, faveliza-se. Desde a mudança da capital para Brasília. O fechamento da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro é um marco. Símbolo do fim. A economia é informal. O poder é “informal”. A vida é “informal”. Somos todos camelôs da vida cotidiana. Há mais favelados do que habitantes do asfalto? Quantos homens e mulheres têm aqui contra si algum processo criminal? Calculava-se em cem mil o exército de marginais, no Rio. Quem garante que esta situação não explode um dia, numa grande matança, numa geral confrontação armada? Já há uma separação, já há dois países distintos: a cidade e a favela. Um contra ou outro. O mundo da favela penetra o da classe-média através das empregadas domésticas e faxineiros, mas isso pode acabar incontrolável. Morre-se mais no Rio do que na Palestina? Vivemos confinados, ilhados?
        Há um poema de Cassiano Ricardo, escrito em plena Guerra-fria, que diz:
 
                Milhões de crianças chorando
                        na noite esférica.
 
                Por que choram?
                                                       Não são
                        elas que choram
 
                                       É o futuro.
 
                É a vida ainda não vivida.
 
                São crianças no escuro
                        chorando por adivinhação
                        do acontecer.
 
        Um dia, uma empregada, mulher quase tísica, na época trouxe a filhinha escondida, pois não tinha naquele dia com quem deixá-la. A menina não tinha pai, as duas moravam num barraco de perigosa favela. A mãe deve ter feito graves ameaças à criança, que ficasse calada e quieta, que desaparecesse num canto, que sumisse, que se escondesse, pois eu, o bacana, não a queria ali. Era uma criança muito frágil, magrinha e desnutrida, muito pequenina e bonita. A mãe já tinha perdido vários empregos por causa dela, pois ninguém gostava de ver criança estranha ameaçando quebrar os cristais da sala. Acuada, ela se escondia debaixo da mesa da cozinha, no fundo de si mesma, quando inesperadamente e antes da hora eu perigosamente apareci. Cheguei e, infelizmente, fui ate a cozinha beber um gole d’água quando a descobri.
O pavor daquele pequenino ser me assustou mais do que pudesse suportar. Aquilo me assusta até hoje. Eu não sabia. Não sabia. Nós nunca nos imaginamos agressivos, ameaçadores, somos sempre nós as vítimas. Ela, a pequenina, começou a chorar dolorosamente, estranhamente abandonada, como se eu fosse animal selvagem, como se “soubesse” que a mãe perderia mais aquele emprego, que a vida estava perdida, morta. A garotinha mostrava tanta dor e dramaticidade, que me contagia até hoje.
        O pânico daquele minúsculo ser me ocorre sempre que ouço falar de tiroteio nas favelas. Onde andará ela, a pequenina? Estará viva? Amedrontada, encurralada entre forças adversas: os grandes bandidos, os grandes policiais e nós, a classe média agressiva, onde se esconderá aquela meninazinha linda de tantos inimigos, deles e de nós? Como estará sobrevivendo? De que natureza somos nós feitos, que nada podemos fazer para mudar o mundo? O que fizemos com aquele ser feito de lágrimas? Nós fizemos este mundo, a natureza da realidade é nossa obra. As crianças da favela são:
 
                Criaturas       
                        apenas de fato
                por seus nomes
                               inscritos
                no cadastro
                        eletrônico
 
.....
 
                o sul sem
norte
 
                viagem
                        sem
                passaporte
 
        Eu nunca pensei, eu nunca me imaginei, eu nunca me senti assim, ao ver-me no espelho. No meu tempo de marxismo, falava-se de luta de classe, mas da classe dominante não se falava, e sim da burguesia, dos detentores dos meios da produção material. Será a classe média, mesmo a classe média pobre, hoje, a classe dominante? E se a favela passar a nos ver como aquela menininha me viu um dia? E se a Rocinha  descer contra o Leblon? E se nos virem como os “bacanas”, os responsáveis? E se disserem: “eles têm computador e TV a cabo, têm educação, cultura e livros, e nós não temos? Eles ouvem Wagner, Beethoven, lêem Proust e Pessoa, sabem escrever e são capazes de ler em vários idiomas? E nós? Que somos nós? Que podemos nós, que lemos nós, além de dar tiros, de assaltar, de matar, de nos asilar na favela e de enfrentar daqui nossos inimigos? E nós, que somos nós”?
        Se de repente se perguntarem por suas naturezas humanas ameaçadas, desperdiçadas, infelizes? Bandido é feliz?
        Tenho amiga que, na solidão em que vive, gostava de passar horas nas salas de conversação na Internet. “Espero encontrar um namorado na Internet”, me dizia ela.
        Um dia encontrou o homem de sua vida. ‘Conversaram’, fizeram fervorosas juras de amor, ardentes ‘carícias’ amorosas que nas suas capacidades verbais disponibilizaram. Ele era educado, atencioso, carente.
        Duas horas depois ela pressionou o rapaz, quis saber onde ele morava, quem ele era.
-         Se eu disser você me abandonará – ele disse.
-         Por que? – perguntou ela.
Ele emudeceu. “Diga pelo menos de onde você tecla?”, perguntou ela. “De que Bairro?” Ele respondeu: “Bangu”.
-         Não me diga que você está na Penitenciária de Segurança Máxima? – brincou
ela.

Estava. 

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