Dilson Lages Monteiro Domingo, 23 de abril de 2017
CRÔNICA DE SEMPRE - ROGEL SAMUEL
Rogel Samuel (atualização diária)
Tamanho da letra A +A

SONATA AO LUAR

 
 
 
SONATA AO LUAR

ROGEL SAMUEL

É lento o primeiro movimento. A Sonata no14, Opus 27 no2, conhecida como "Sonata ao Luar". Vladimir Horowitz a toca, num tempo apropriado. Como sempre. Nem vagaroso, nem rápido. Nem alegre, nem excessivamente trágico. Oh, como é difícil encontrar o tempo hábil. O bom ritmo. Em tudo. O ritmo clássico. Alguns aproximam-se (a vida, a sonata) do tempo, digamos, feliz. Não existe o "certo". Alguns a fazem em depressivo. Lento. Um adágio. Meu pai a executava. Eu tenho 

gravada, velha fita K7, que não mais funciona, depois desses anos. Quase nunca a ouço. Covardia. Nela, percebe-se seu diálogo com o piano, a tentativa de tocar a sonata. Meu amigo Nathanael gostou da interpretação. Classificou-a numa escola de piano, de que não me lembro. A interpretação tem alguns senões, claro. Não era nenhum virtuose. Gravou em Itacoatiara. Seu piano era o único daquela cidade 
do interior amazônico. Lembro-me do tom grave, quase arrastado. Do tempo lento da vida, às margens do Rio Amazonas, onde a vida lenta. 
Meu irmão seguiu o pai, e virou músico. Tinha banda, tocava festas, cantava. Teclado. Vivia disso. Creio que feliz. Há muitos anos não o 
vejo. Esta semana minha amiga Bliss Johnson faleceu, pianista americana. Foi uma notícia triste. O primeiro e-mail que recebi dizia que ela tinha falecido em Ohio, dois dias antes. No e-
mail seguinte, que recebi em resposta à minha pergunta sobre o que tinha acontecido, me disse Jin Yeo: "Parece que ela teve dois 
ataques no último mês. E, durante seu concerto no Texas, ela desmaiou e foi levada para um hospital em Columbus, onde vive sua tia, e 
entrou em coma". Bliss casara tardiamente, morava na Itália. Éramos muito amigos. Não me esqueço do dia em que recebi seu telefonema pelo celular. Eu estava no meio da selva, no Amazonas. Bliss era agitada, muito magra, falava rápido, como se nervosa. A cabeça balançava sempre, de um lado para outro. Certa noite, falou-me longamente de música, do livro de Karajan (que li, já traduzido em português). Lembro-me de que o Rio Amazonas arrasta-se lento. Não vejo o rio há muito tempo, mas é como se ainda estivesse lá. Com 18 anos vim para o Rio de Janeiro. Toquei a vida por aqui. Teci a vida. Nunca voltei ao Rio Amazonas. Que para mim nunca pareceu estranho. O Rio Solimões. Mas nunca reconheci a sua solidão, aquele seu silêncio interno. Nathanael 
Caixeiro, o Nata, meu amigo, tocava violino, cantava, pintava. Alguns dias antes de morrer, me visitou. Ouvimos Mozart. Depois saímos, 
caminhando pela Urca. Disse-me que Mozart aproveitava temas, os mesmos, em vários trechos. Lembro-me de Wanda Landowska, que afirmou que todos os prelúdios do "Cravo bem temperado" eram um só. Meu amigo Pepe Martinez Cano, espanhol que morava sozinho em Caiobá, Paraná, em companhia de uma bicicleta velha, ouviu Landowska em Buenos Aires. Viajou milhares de quilômetros para ouvi-la. Contava que ela entrou vestida de veludo verde-musgo escuro, sentou-se ao cravo. Tocou. Longamente. Depois, levantou-se, saiu. Não agradeceu. Não voltou. Mulher estranha. Muito trágica. Como os que viveram naquela época de nazismo, de guerra. De massacres. Muito estranha. A Argentina, na época, recebia 
os melhores artistas, no Teatro Colon. Fiquei em frente, do outro lado da larga praça, no Hotel Colon, a caminho de Sydnei. A vida era 
um luxo, em Buenos Aires. A vida é uma sonata. Toca-se só. Muito só. Muito estranho.

Compartilhar em redes sociais

Comentários (0)

Deixe o seu comentário


Reload Image








Últimas matérias da coluna

22.04.2017 - O BRASIL QUE VIRÁ

21.04.2017 - SOMOS MEMBROS UNS DOS OUTROS

20.04.2017 - MEUS MORTOS HÃO DE VIR NO FIM DA TARDE

20.04.2017 - E O CONGRESSO?

19.04.2017 - SER BUDISTA

18.04.2017 - POR QUE KAFKA ESCREVIA EM ALEMÃO?

18.04.2017 - CONFLUÊNCIA

18.04.2017 - Sobre a liberdade

16.04.2017 - Auto de Natal em Copacabana

15.04.2017 - A MÁSCARA DE CRISTO

15.04.2017 - BARBIROLLI NO BRASIL

14.04.2017 - GARÇA

13.04.2017 - A PAIXÃO

13.04.2017 - SONATA AO LUAR

13.04.2017 - PARIS

Ver mais
Livraria online Dicionário de Escritores Exercícios de criação literária
Entretextos Acadêmico
Rádio Entretextos
Livros online Aúdios

Imagens da Cidade Verde: entrevista com o escritor Ribamar Garcia


Os anos da juventude, entrevista com Venceslau dos Santos


Listar todos
Últimas matérias

22.04.2017 - O povoamento do Piauí

O autor faz análise crítica sobre obra historiográfica e sobre a colonização do Piauí

22.04.2017 - Poesia de Hoje

Versos Atuais.

22.04.2017 - O BRASIL QUE VIRÁ

O BRASIL QUE VIRÁ

21.04.2017 - C@ARTA AO POETA CHICO MIGUEL

Diria que o amigo é um poeta do coração e da razão, no perfeito equilíbrio dessas duas vertentes.

21.04.2017 - SOMOS MEMBROS UNS DOS OUTROS

Isto é citado por Laín Entralgo

20.04.2017 - MEUS MORTOS HÃO DE VIR NO FIM DA TARDE

Só dá para ler este belo texto quem o situa na Manaus da década de 50

20.04.2017 - E O CONGRESSO?

Oh, Amigos, não esqueçamos o futuro Congresso.

19.04.2017 - SER BUDISTA

Quando o queriam reprovar, diziam que ele era budista.

18.04.2017 - POR QUE KAFKA ESCREVIA EM ALEMÃO?

POR QUE KAFKA ESCREVIA EM ALEMÃO?

18.04.2017 - CONFLUÊNCIA

CONFLUÊNCIA

18.04.2017 - Sobre a liberdade

Sobre a liberdade

17.04.2017 - A palavra editor

É uma das palavras mais ambíguas do nosso mercado literário

16.04.2017 - Auto de Natal em Copacabana

Auto de Natal em Copacabana

15.04.2017 - A MÁSCARA DE CRISTO

Impossível saber se era moreno como um palestino

15.04.2017 - Poesia atual

Plataforma Póetica Popular

ENTRETEXTOS - DÍLSON LAGES MONTEIRO
Baloon Center, Av. Pedro Almeida nº 60, Sala 21 (primeiro piso) - São Cristóvão - Teresina - Piauí - CEP: 64052-280 Fone (86) 3233 9444
e-mail: dilsonlages[@]uol.com.br