Dilson Lages Monteiro Segunda-feira, 26 de junho de 2017
CRÔNICA DE SEMPRE - ROGEL SAMUEL
Rogel Samuel (atualização diária)
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SER BUDISTA

Rogel Samuel

Quando o queriam reprovar, diziam que ele era budista. Aquilo significava na década de 60 uma espécie de religião esotérica misticismo maluco de hippie. Outros, vendo que ele não era nem melhor nem pior que todo mundo, perguntavam: "Que espécie de budista é você?" Para muitos ele não era budista porque comia carne. Para outros, porque gostava de um chopinho e praia. Os intelectuais riam dele no passado, porque era budista. Anos depois perguntavam: "você ainda é budista?" Uma confusão, classificá-lo, pois agora viam que ele era ou sempre tinha sido de um marxismo radical, fora de moda. As pessoas que faziam análise, diziam: "se isso te faz bem..." - o que queria dizer: "coitado... que asno!" (sem saber que ele tinha feito análise freudiana dez anos). Mas aos poucos a coisa foi mudando. Foram aparecendo budistas famosos. Richard Gere, por exemplo, discípulo do Dalai Lama, como ele. O próprio Dalai Lama veio duas vezes ao Brasil, fez sucesso. Virou best-seller. Discurso para os estudantes. No meio aparece gente como Caetano. Começaram a achar quer ser budista não era tão mal assim. Estava na moda. Ele, de repente, estava na moda. Mas, depois de ser budista de carteirinha por mais de quarenta anos, ele não sabia dizer se ser budista era ser alguma coisa, ou se há algum ser budista. Não havia nada de diferente! Talvez se podia afirmar: você "pratica" duas horas por dia - e aí, a diferença. Mas ele praticava sozinho, escondido (sua prática era secreta). Em casa. Onde ninguém via. Nem contava pra ninguém. Ou talvez alguém poderia "acusá-lo": Você tem um guru! Sim, sim. Era verdade! Ser budista era isso: Ter um guru. O que é ter guru? Complicado. Ainda que o guru more na Índia, do outro lado do orbe terrestre, ele acordava pensando no Guru, no Sagrado Guru. Passava o dia a lembrá-lo, a todo momento. Ao dormir, seu último pensamento, seus sonhos - era o Guru. Sim! O guru dominava sua vida. Mas ninguém via, ninguém sabia. Isso era ser budista, a diferença. Poucas pessoas, poucos budistas mesmos, tinham realmente guru. Poucos podiam bater secretamente no peito, dizendo para consigo: "Eu tenho um Guru". Além disso tinha de haver recebido, é claro, Annutara Yoga Tantra da boca do Guru de carne e osso. O Guru tinha de ter colocado o vaso sobre sua cabeça. Mas isso é outra estória. O difícil era saber prosternar-se para outra pessoa, de carne e osso como ele, bater a testa no chão aos pés do Guru. Até diante da fotografia do Guru. A maioria das pessoas, orgulhosas, nunca faziam isso. Era demais. Sim, o verdadeiro budista não lastimava a destruição das estátuas famosas de Buda, porque, para ele, o problema não era perder estátuas, mas perder o Ensino, perder o Buda que era o Guru. Para ele, o Guru era o Buda em pessoa. Coisa muito complicada para explicar para as outras pessoas. Pois, o que é ser budista? Nada. O budista não existe. Não existe ser budista. Tudo é vacuidade e vaidade dos homens.

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