Dilson Lages Monteiro Quinta-feira, 25 de maio de 2017
CRÔNICA DE SEMPRE - ROGEL SAMUEL
Rogel Samuel (atualização diária)
Tamanho da letra A +A

POR QUE KAFKA ESCREVIA EM ALEMÃO?

 

 

POR QUE KAFKA ESCREVIA EM ALEMÃO?

ROGEL SAMUEL



Artigo publicou Nuria Amat, a consagrada autora de “Todos somos Kafka” (Madrid, Anaya & Mario Muchnik, 1993), em “El País”.

Antes, em outro lugar, disse ela que Kafka foi o primeiro que “pôs em crise a família, o casamento, o trabalho”. E tudo. “Ele foi o precursor, o profeta”.

Nuria Amat nasceu em Barcelona, em 1950.

Filho mais velho de abastado comerciante judeu, Kafka cresceu sob as influências de três culturas: a judaica, a checa e a alemã. Mas era um estranho a todas elas.

Ele aprendeu alemão como sua segunda língua, mas só falava tcheco em casa. Nunca foi reconhecido em vida e seus livros, na maioria, se editaram postumamente, pelo amigo Max Brod. E antes de morrer, deixou escrito o pedido de que seus livros fossem queimados. Não foram. Vinte anos depois de sua morte estava ele mundialmente famoso.

Mas Kafka não era escritor alemão. Era tcheco. Porém escrevia em alemão.

Outros dizem que era “judeu”. Mas parece que a tradição judaica não aparece em sua obra. Conforme se lê em Carpeaux.

Assim, nem alemão, nem tcheco, nem judeu, Kafka era um exilado. Em qualquer parte do mundo. E transformou-se num símbolo da literatura moderna. Literatura exilada.

Em vida suas obras não despertaram nenhum interesse. Otto Maria Carpeaux, em “Vinte e cinco anos de literatura” (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967), conta que conheceu Kafka durante uma reunião literária em Berlim em 1920. Lá, Carpeaux foi apresentado a um “rapaz magro, pálido e taciturno” que despertou o seu interesse por seu olhar misterioso e perscrutador. Ao indagar de quem se tratava, recebeu a seguinte resposta: “É de Praga. Publicou uns contos que ninguém entende. Não tem nenhuma importância!...”

Nuria Amat disse que: “el escritor vive en una constante contradicción. Por un lado, un escritor en este sentido, tiene que ser muy ambicioso, claro, porque cada vez que uno se pone a escribir seriamente, en realidad lo que está diciendo es: «Voy a competir con Cervantes»… por otro lado es necesario vivir esto con cierta ironía… ¿Para qué escribir? Para sobrevivir...”

Como Kafka, Nuria Amat escreve em castellano, sendo catalã.

Segundo Borges, “Kafka renovou o paradoxo de Zenão de Eléia: uma flecha não pode chegar a sua meta porque antes tem que passar por um ponto intermediário, antes por outro ponto intermediário, e assim sucessivamente temos um número infinito de pontos onde a flecha em cada momento está imóvel no ar, e somando imobilidades não se chega nunca ao movimento. No caso de Kafka, podemos pensar que um de seus temas é a infinita postergação”.

Tudo isso a propósito do artigo de Nuria Amat “Kafka en Francfort”, publicado em “El País” de 16 de outubro de 2006.

Ela mostrou como Kafka foi questionado, ignorado ou mesmo repudiado em seu país de origem.

Em Praga ele não era, até sete anos atrás, considerado tcheco (porque era judeu e escrevia em alemão), disse Marta Zelezna, da Sociedade Franz Kafka. Na edição tcheca do “Quem é quem” Kafka não aparece. E somente agora, em 2006, se publica pela primeira vez a obra completa do escritor em tcheco.

Escreve Amat que “Kafka não se sentia bem em Praga”.

Assim como Praga o rejeitou até bem pouco tempo.

E conclui Amat que Kafka era um escritor sem pátria nem língua própria.

Mas era Kafka o maior escritor de Praga.

Compartilhar em redes sociais

Comentários (0)

Deixe o seu comentário


Reload Image








Últimas matérias da coluna

24.05.2017 - O dia em que saí no Ibrahim Sued

23.05.2017 - UM AMIGO DE INFÂNCIA

22.05.2017 - O PRIMEIRO TURNO DA PRIMAVERA

21.05.2017 - A VISÃO DO MAR

13.05.2017 - Dias das mães

12.05.2017 - Morre o crítico literário Antônio Cândido

10.05.2017 - MONÓLOGO DE UMA SOMBRA

09.05.2017 - E SOMENTE A NOITE COMPREENDIA AS SUAS PALAVRAS

01.05.2017 - OS PILARES

30.04.2017 - A Carta-RenúnciaA Carta-Renúncia

26.04.2017 - O manto de diamantes das estrelas

23.04.2017 - A retrospectiva das horas

23.04.2017 - A SABEDORIA DO ANDAR

22.04.2017 - O BRASIL QUE VIRÁ

21.04.2017 - SOMOS MEMBROS UNS DOS OUTROS

Ver mais
Livraria online Dicionário de Escritores Exercícios de criação literária
Entretextos Acadêmico
Rádio Entretextos
Livros online Aúdios

Imagens da Cidade Verde: entrevista com o escritor Ribamar Garcia


Os anos da juventude, entrevista com Venceslau dos Santos


Listar todos
Últimas matérias

24.05.2017 - O dia em que saí no Ibrahim Sued

Era a sexta-feira do dia 17 de maio de 1985

23.05.2017 - UM AMIGO DE INFÂNCIA

No dia seguinte ao da mudança para a nossa pequena casa dos Campos, em Parnaíba, em 1896, toda ela cheirando ainda a cal

23.05.2017 - Fraternidade Espiritualista Universalista

Em pleno cerrado de Goiás...

22.05.2017 - Um livro infantil de Irá Rodrigues

A literatura infantil é parte importante de nossa cultura, pois devemos estimular nossas crianças ao saudável hábito da leitura.

22.05.2017 - As formas simples

Surfando pelos saites de revistas literárias encontrei um artigo da Los Angeles Review of Books

22.05.2017 - Viagem com livros

Quando viajo, seja de avião, seja de comboio, levo sempre um livro comigo.

22.05.2017 - HISTÓRIAS DE ÉVORA já nas Livrarias de Teresina

O romance Histórias de Évora, de Elmar Carvalho, já se encontra à venda nas livrarias Entrelivros, Anchieta e Mons. Melo (UFPI), pelo módico preço de R$ 20,00.

22.05.2017 - O PRIMEIRO TURNO DA PRIMAVERA

Difícil é dizer da guerra no Iraque, do dólar, da miséria, da fome.

21.05.2017 - Odilon Nunes e a construção de nossa história.

O acadêmico Reginaldo Miranda analisa a obra historiográfica de Odilon Nunes, um dos mais acreditados historiadores brasileiros.

21.05.2017 - O lírico e telúrico em Elmar Carvalho

O autor analisa a obra poética do acadêmico Elmar Carvalho.

21.05.2017 - A VISÃO DO MAR

"Mar, belo mar selvagem"

20.05.2017 - Capitão Antônio Pereira da Silva

O acadêmico Reginaldo Miranda traça o perfil biográfico de um importante criador piauiense do período colonial.

18.05.2017 - Capitão Francisco Pereira da Silva

O acadêmico Reginaldo Miranda traça o perfil biográfico de um importante criador piauiense do período colonial.

18.05.2017 - Juiz Elmar Carvalho lança “Histórias de Évora” neste sábado (20)

Será realizado neste sábado (20), às 10 horas, o coquetel de lançamento da obra “Histórias de Évora”, de autoria do juiz Elmar Carvalho. O lançamento do livro será realizado na sede da Academia Piauiense de Letras.

17.05.2017 - ESTAMOS, OU NÃO, PERDIDOS, SANDOVAL?

Um exemplo: meio mundo anda bastante feliz com as escaramuças jurídicas que o juiz responsável pela Lava-jato vem fazendo com essa corja de bandoleiros que dilapidam o país há décadas; logo, ele seria o "cara", certo? Não!

ENTRETEXTOS - DÍLSON LAGES MONTEIRO
Baloon Center, Av. Pedro Almeida nº 60, Sala 21 (primeiro piso) - São Cristóvão - Teresina - Piauí - CEP: 64052-280 Fone (86) 3233 9444
e-mail: dilsonlages[@]uol.com.br