Dilson Lages Monteiro Domingo, 23 de abril de 2017
CRÔNICA DE SEMPRE - ROGEL SAMUEL
Rogel Samuel (atualização diária)
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O SHAKESPEARE DE GIOVANNI EMANUEL NO TEATRO AMAZONAS EM 1899

 

O SHAKESPEARE DE GIOVANNI EMANUEL NO TEATRO AMAZONAS EM 1899

 
O SHAKESPEARE DE GIOVANNI EMANUEL
NO TEATRO AMAZONAS EM 1899
 
Rogel Samuel
 
Em «Fastígio e sensibiliudade do Amazonas de ontem», conta Genesino Braga que ele desembarcou no cais da Ponte dos Catraieiros, em Manaus, no dia 12 de maio de 1899, acompanhado de «formosíssima dama», Nella Montagna, primeira atriz da Companhia Italiana de Dramas e Tragédias, ele o famoso Giovanni Emanuel (Morano Po, Casale, 1848 – Torino 1902).
Quem era?
            Tinha sido um ex-empregado do Ministero dell'Agricoltura que, depois de assistir a uma récita de Ernesto Rossi, sentiu-se atraído pelo teatro e acabou tornando-se tão famoso quanto Sarah Bernhardt.
            Livros há, hoje, e teses sobre ele. Como o recente estudo, de Armando Petrini, «Attori e scena nel teatro italiano di fine Ottocento. Studio critico su Emanuel e Giacinta Pezzana» (Torino, DAMS Università degli studi di Torino, 2002).
            Grande intérprete de Shakespeare, Giovanni Emanuel revolucionou a cena italiana. Pela década 1882-93, enveredou no modo do naturalismo poético de representar, alcançando sucesso máximo de crítica e de público, apreciado como diretor e como ator. "Um ator só faz escadaria de si mesmo", dizia ele, e teve várias fases na sua gloriosa carreira.
            Em carta para Felice Cavallotti, de novembro de 1886, ele diz: " Eu estou usando os ombros, o cérebro e o coração de Otello, e com isso tenho um trabalho enorme, estudo a fé de um mártir. Quero fazer a sua mais polêmica interpretação»: e as críticas sobre o modo de recitar o Otello assumem imediatamente o tom de réplicas; provavelmente como muitos é esta a circunstância na qual com grande efetividade assume a cena o seu aspecto poético naturalista: e isto em parte se explica por julgamentos contraditórios na arte da representação.   
Diz–se dele ter «a consciência de quem sabe ter levado a todos via artística nova, de elemento distintivo, realmente em seu caráter de "novidade", naquele modo de recitar que ele diferencia claramente - pelo menos nas intenções», «o caráter original e todo especial do seu talento, o ecletismo curioso do seu método fazem algo incomparável». Ele era inconstante e descontínuo, de forma que parecia absolutamente   
insuperável». Ele passava dos cumes mais luminosos da sua arte subitamente para entrar como um meteoro em uma noite serena. Pois suas interpretações pecavam por ímpetos súbitos; mas seus momentos bons eram tão bons que indeléveis permanecem gravados na mente do público e dos companheiros» (UM. De Sanctis, Caleidoscópio glorioso, Florença, Giannini, 1946, pp.23-24).  Contraditório, dizia  Emanuel: " Eu sou o contrário do modo de recitar e interpretar Shakespeare de Ernesto Rossi e de Thomas Salvini. O primeiro faz de Hamlet algo romântico, e o segundo faz de Otelo um caráter trágico".  O ator, diz, nunca tem absolutamente que ser um romântico na recitação trágica, mas tem que recitar com a verdade. Shakespeare não tem nenhum romantismo nem tragédia, sua grandeza está na capacidade de criar verdadeiros caracteres; Shakespeare punha a verdade maior na literatura dramática, e por isto será eterno. Emanuel começava a traduzir-se a si mesmo, deixando toda a crueza do idioma shakespeariano; exagerava bastante a modernidade vulgar de certas expressões que faziam um efeito diferente. Ele era reconhecido como o líder do naturalismo teatral na Itália. Era um ator experimentalista, do que aparecia ser uma escola nova. «O artista dramático tem que representar todo o caráter do homem, banindo da cena as fantasias e o   
teatralismo». Sua preocupação principal consistia em humanizar o herói trágico. Dirigindo-se aos atores jovens, Emanuel escreve, em 1887: você estuda bem a parte, as paixões, o caráter e não se deixa intoxicar da teoria barroca e ridícula ... você deve ser uma estrela e chorar, mas com naturalidade e verdade. Nele, «a idéia de uma naturalidade interpretativa, a chamada para a simplicidade da natureza como forma nova de sublime, o recorrer a um antropomórfico procedimento e a uma lógica simétrica, fundada na relação confidencial, sensual e horizontal era o forte». Ele promoveu uma luta contra o convencionalismo «teatral». Mas, como todos os artistas, sabia que mesmo no naturalismo o teatro não é capaz de simplesmente de reproduzir a realidade para qual ele mesmo olhava como fonte de inspiração para sua recitação. Por isso escreve: «Minha arte é uma harmonia entre verdade e beleza. Se fosse mais verdadeiro seria naturalismo, se não verdadeiro aquela beleza seria idealismo». Contudo, como Zola, mantém a tarefa da nova geração de artistas para os quais pretende substituir o «homem fisiológico» ao «homem metafísico»: «nós imitamos, nós imitamos o homem» - Emanuel escreve - «e levamos o processo para a natureza». Em outra carta Giovanni Emanuel coloca mesmo o equilíbrio contraditório entre a consciência da impossibilidade do teatro de uma reprodução «fotográfica» e a defesa do naturalismo, polêmica interessante que se acendeu  na «Gazeta Literária», em 1887, com o jornalista Giuseppe Benetti, que defendia o novo método naturalista contra as velhas escolas clássica e romântica. «Giovanni Emanuel faz a arte neurótica que, para nós, reflete o verdadeiro da vida que se vive. Nosso Teatro - Benetti escreve - precisa de atores que recitem a fala como falamos nós», ao que se replicou que aquilo «era fotografia da vida ordinária, que reduzia a grande arte à pobreza de uma reprodução». A isso respondia que a arte realista não pretendia a reprodução fotográfica de uma parte da vida, mas da vida inteira, de toda nossa vida. De onde emerge com comprovação contraditória de que o fundamento de uma poética naturalista era estabelecer e retirar do cotidiano da vida  o que é contemporâneo, fazendo uma interpretativa síntese dos elementos típicos da vida cotidiana» - um equilíbrio instável entre o processo de reprodução e a tensão do trabalho elaborado do estilista. Isso é o bastante para observar que a compreensão de Emanuel era entendida pelo menos para  parte do público, evidente pelo seu sucesso. Por isso Domenico Lanza diz na «Gazeta»: «Emanuel não recita, mas fala, e grita como um homem, não como um ator. Isso é tudo aquilo que se pode dizer dele. Uma recitação de Emanuel pretende representar a vida e ser capaz de abandonar o "convencionalismo" teatral, Emanuel passa então pela ênfase, a pomposidade, a afetação e a frieza. Seu processo poético de ator se revela aqui dentro das convicções artísticas de Émile Zola, o líder do movimento naturalista europeu. Um dos objetivos principais disso é sentir realmente sua luta contra as convenções artísticas. Zola escreve que o naturalismo é o retorno à natureza do homem, à observação direta, a anatomia exata. Que é representar? «O artista, de acordo com Zola, não é exatamente um criador de obras, pelo contrário o que ele faz é registrar alguns "fatos":  O trabalho é o mesmo para o escritor e para o cientista: ambos tiveram que substituir as abstrações pela realidade, o empirismo de fórmulas por análises rigorosas. De tal modo não mais o caráter abstrato das obras, não mais falsas invenções, não mais o absoluto, mas revelar reais caracteres, a verdadeira história de cada um, o relativo, o quotidiano da vida. E ainda «passar pela pressuposição de que a natureza se basta, que é bastante e necessário aceitar sem modificar. Que é bela em si mesma». Paradoxo que faz Zola afirmar preferir «a vida à arte», e tem eco em Emanuel: em uma entrevista ele diz: «Otello parece para mim um homem, realmente humano, vivo, de carne como nós dois». Ao que o outro respondeu: «Ah! ah!... você quer os verdadeiros homens no teatro, meu Amigo? ... teatro é convenção». «Sim, respondeu Emanuel, mas Shakespeare não é teatro, é vida». E então, ao interpretar Otello, se esforça Emanuel o mais possível para evitar tudo aquilo que era reconhecido como convencional. O repórter da «Gazeta de Turin» disse: «Qualquer pessoa, sem concessão para o efeito, sem qualquer redundância; sem declamações, sem vôo, sem desesperos violentos, nenhum grito nem rugido. [...] Ele era simples, fundo, terminal, sóbrio, efetivo, verdadeiro, mas com grande efetividade. E «O trabalhador» em 1887 informa de uma récita em Buenos Ayres: «Ele não deu mais ao caráter aquilo que só é percebido na cena de um teatro, ele era antes um Otello dos nossos dias, não somente no solo trágico, carregado, possível somente num palco e cenário; o caráter que nos deu o Emanuel, que nós vimos agir, era como se estivesse real em carne e osso, ele estava lá, realmente, em cena».   
 
                                               &         &         &
           
            Diz Genesino que Emanuel desembarcou do «Rio Amazonas» e foi levado para a sede do «Sport Clube Amazonense», na Rua Municipal, onde foi homenageado. Houve discursos. Emanuel escreveu no livro de visitas: «Vivamente impressionato dell´accoglienza dello Sport Club nel giorno Del sua arrivo. Manaus, 12 de Maggio de 1899. Giovanni Emanuel». Seguiu-se um almoço, oferecido ao ator no Hotel Cassina, onde se hospedou (como eu gostaria de saber do cardápio...). Manaus, diz Genesino Braga, era uma cidade de 50 mil habitantes «encravada no meio da mais densa, vasta e indomável floresta, mas tinha uma sociedade de nível cultural elevado». Na realidade, tinha muito dinheiro (da extração da borracha): o governo estadual custeou a viagem de toda a Companhia e pagou duzentos contos de réis para que ela se exibisse, uma fortuna!, em língua italiana, ao preço de sete mil réis a cadeira!
 
            Concluo citando Genesino Braga:     «A Companhia Italiana de Dramas e Tragédias deu vinte e nove espetáculos no Teatro Amazonas, representando as seguintes peças: «Kean», Dumas, pai; «A morte civil» (3 vêzes), Giacometti; «Otelo», Shakespeare; «O grande industrial» (3 vêzes), Ohnet; «O senhor diretor», Bisson e Carré; «Hamlet» (3 vêzes), Shakespeare; «Carnaval de Turim» (2 vêzes), Vato; «Os dois sargentos», D'Aubigny; «O mercador de Veneza», Shakespeare; «Niobe», Paulton; «Nero», Cossa; «As duas órfãs» (3 vêzes), D'Ennery e Cormont; «O casamento de fígaro» (2 vêzes), Beaumarchais; «Pátria» (2 vêzes), Victorien Sardou; «O rapto das sabinas» (2 vêzes), Moser e Schontan; «Rei Lear», Shakespeare; «O Duelo», Ferrari; «A Dama das Camélias» (2 vêzes), Dumas, filho; e «Romeu e Julieta», Shakespeare.»

E parafraseando Genesino: Giovanni Emanuel e sua Companhia partiram de Manaus a 6 de julho do mesmo ano de 1899 no vapor «Continente». Ele ficou quase dois meses em Manaus. O seu nome está gravado em uma placa de mármore, nos corredores do Teatro Amazonas, como a pedir mais respeito e mais veneração para aquela casa ilustre, que soubera entender e aplaudir, mais assombroso dos teatros: o shakespeareano !»

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