Dilson Lages Monteiro Terça-feira, 27 de junho de 2017
CRÔNICA DE SEMPRE - ROGEL SAMUEL
Rogel Samuel (atualização diária)
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CONCEIÇÃO

 

 











CONCEIÇÃO

Rogel Samuel

Ele teve amante chamada Conceição.
Talvez aquele tenha sido 'nome de guerra' da bela e sólida jovem, profissional de amor no cabaré Xangri-lá, em Manaus.
Ele se apaixonou.
Ao Cabaré chegava de carro com chofer, era rico na época, trazendo presentes.
O Xangri-lá ficava fora da estrada, num sítio semi-secreto, um baixio no meio da selva, longe dos olhos das famílias amazonenses, mas conhecidíssimo por todos os seus filhos jovens da época.
Lá se tocava música arrastada e decadente, como decadentes e arrastados eram os boleros da época de Dalva, de Ângela Maria. Falavam de tristeza e de dor de cotovelo, e um dos que mais tocava dizia: 'Assim... se passaram dez anos...'
Dançava-se ali, ambiente de respeito.
Tudo ali era muito limpo, tudo era muito sadio, as moças ficavam muito quietas num canto, os 'fregueses' sentavam-se em mesas a sós ou em grupos calmos, pediam uma XPTO, sorriam para as moças, que correspondiam, discretas.
Um ou outro se levantava e tirava alguma dama para dançar, ou para a sua mesa.
Os encontros íntimos, se houvessem, se davam nos fundos do prédio, por onde se penetrava a partir de uma cortina verde, atravessando um longo corredor iluminado por luz mortiça vermelha, e lá no fundo para uma galeria de portas.
Tudo muito cheiroso e limpo, tudo muito cheio de flores de papel crepom.
Mas para quem chegava, o Xangri-lá era apenas um típico lugar de dança, e muitos ali iam apenas para dançar, prosear com os amigos e beber uma cerveja.
As moças, como eram chamadas, eram quase todas do interior.
Jovens, algumas deviam ter mesmo uns dezesseis anos, ou menos, coisa inadmissível hoje, mas que na época não causava espanto.
Elas pareciam felizes.
Algumas faziam as unhas, outras se distraíam com qualquer coisa, mas mantinham-se caladas.
Havia um certo respeito ambiente, ali se encontravam alguns dos mais respeitáveis senhores da terra, a maioria casados.
Ele não, era jovem e solteiro.
Foi lá que conheceu a Conceição e por ela se apaixonou de verdade.
Paixão de jovem é sempre séria, ele quis casar-se com ela, ninguém deixou, ela mesma não quis, que continuassem amantes.
Mas ela continuava a morar ali, e era exclusiva dele, e todo dinheiro e presentes que ele lhe dava ela mandava para a família guardar. No fim estava de casa nova.
Mas de vez em quando Conceição sumia. Ia visitar a mãe. Ausentava-se por uns dias.
Voltava cada vez mais feliz.
Um dia se foi de vez, e ele nunca mais a viu.
Deixou um bilhete, em que dizia que háq muito tempo tinha um noivo no interior, que viera para a Capital apenas para trabalhar, arrumar um dinheiro para casar. Agradecia a ele tudo que ele fizera por ela, e terminava com um 'Deus te recompense'.
Ele enlouqueceu, chorou, quis achá-la, mas o Amazonas é enorme...
Dias depois, soube que ela estava casada.
Passaram-se cerca de cinqüenta anos.
Semana passada, vinha ele pelo Amazonas Shopping quando foi abordado por uma senhora de idade.
- Lembra-se de mim?
Ele se espantou, e disse:
- Não. Não se lembrava.
Ela então tirou um caderno da bolsa, escreveu um telefone, entregou para ele, e disse:
- Eu sou a Conceição... - e desapareceu na multidão de Natal do Shopping.
No dia seguinte, ele viu que tinha perdido o número. Outra vez.

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