Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 23 de junho de 2017
COMEÇOS INESQUECÍVEIS
Sérgio Rodrigues
Tamanho da letra A +A

Escrever é cortar

Escrever é cortar

 [Sérgio Rodrigues]

“Escrever é cortar palavras”, disse Carlos Drummond de Andrade, mas talvez não tenha sido ele: parece que, na ânsia de enxugar, alguém acabou cortando o crédito. Importa pouco a autoria do conselho. Com essas ou outras palavras, o elogio da concisão é a lição mais ouvida por aprendizes das letras há mais de cem anos. Quer dizer que antes disso o poder de síntese não valia nada? Claro que valia. Os poetas da antiga Grécia cultivaram a brevidade do epigrama. No início do século XVIII, o poeta inglês Alexander Pope, tradutor de Homero, dizia que palavras são como folhas de árvore: quando são muito abundantes, diminui a chance de vislumbrarmos ali embaixo “o fruto do sentido”.

No entanto, parece ter sido nas primeiras décadas do século XX que o relógio do mundo acelerou de vez e deixou com cara de obesa uma silhueta textual – a palavrosa – que até então ainda podia ser vista como atraente e saudável. Mais ou menos o que tinha ocorrido um pouco antes com as mulheres de Rubens. Pode-se relacionar esse aguçamento da intolerância ao desperdício vocabular a uma série de fenômenos, como a industrialização e a vida urbana. Parece claro que um papel central deve ser atribuído à disseminação e à profissionalização de um dos produtos mais marcantes do espírito daquele tempo: a imprensa.

O conselho, manjado, é inegavelmente valioso. Em sua primeira versão, textos têm mesmo a mania irritante de vir com gordurinhas: adjetivos supérfluos, advérbios nem se fala, frases inteiras que se limitam a reiterar uma ideia já explícita. Deve-se passar a faca sem dó em tais sobras, buscando dizer mais com menos. Não se discute que o enxugamento – que não precisa chegar ao extremo do que Graciliano Ramos chamava de “banho de soda cáustica” no estilo – é uma das etapas indispensáveis da boa escrita. Porém…

Temo que a insistência nessa tecla tenha passado do ponto. Numa época como a nossa, paranoicamente desconfiada da retórica e inclinada a acreditar que tudo o que importa dizer cabe em 140 caracteres, enfatizar demais a supressão de elementos pode obscurecer o fato de que, antes de cortar palavras, escrever é… escrevê-las, ora. Talvez tenha chegado a hora de substituir o elogio da concisão pelo elogio da clareza.

A diferença é a mesma que existe entre o banho de soda cáustica de Graciliano e uma boa aplicação de limpa-vidros. O excesso de um certo barroquismo, por exemplo, é um efeito artístico legítimo (todos o são, pelo menos até que a própria obra prove o contrário) que a concisão condena sem pensar duas vezes, mas que a clareza pode e deve abraçar, ajudando a polir e tornar melhor. A verdadeira questão não é – nunca foi – o número de palavras, mas a eficiência com que elas dão conta do trabalho que foram convocadas a desempenhar. Se a concisão tem valor parcial, adequada a certos estilos mas não a outros, arrisco dizer que a clareza é um valor universal: até uma história intencionalmente obscura precisa ser expressa com palavras nítidas.

Outro dia esbarrei no vídeo de uma entrevista do romancista amazonense Milton Hatoum, autor de “Dois irmãos”, famoso por passar anos debruçado sobre seus livros antes de entregá-los ao público. Quando lhe perguntaram se esse longo tempo de preparação era dedicado a cortar palavras, Milton respondeu que sim, mas não só: era dedicado a acrescentar palavras também. Sua explicação, que parafraseio livremente aqui, foi a de que cabe ao escritor deixar em foco os conflitos principais da sua história. Às vezes se aprimora o foco por subtração, outras vezes por adição. Uma cena a mais, um parágrafo descritivo a mais, um diálogo a mais podem ser exatamente o que faltava para tornar vigoroso um texto até então capenga e flácido.

Quer dizer: nem sempre menos é mais. Há ocasiões em que menos é menos mesmo. Pode ser óbvio, mas às vezes só enxergamos o óbvio quando ele já nos mordeu o pé.

Compartilhar em redes sociais

Comentários (0)

Deixe o seu comentário


Reload Image








Últimas matérias da coluna

21.09.2013 - Escrever é cortar

09.05.2012 - Gabriel García Márquez

10.09.2011 - Jeffrey Eugenides

18.05.2011 - A volta dos começos inesquecíveis: D. H. Lawrence

04.02.2011 - do livro “Ficções”, obra-prima de Jorge Luis Borges (tradução de Carlos Nejar).

21.09.2010 - Os melhores começos inesquecíveis I

14.09.2010 - Os melhores começos inesquecíveis

01.08.2010 - O estrangeiro, de Albert Camus

14.07.2010 - Eu escrevo como Lovecraft?

20.06.2010 - Começos inesquecíveis - Herman Melville

06.06.2010 - Começos inesquecíveis: Elmore Leonard

13.05.2010 - Começos inesquecíveis: Alejo Carpentier

26.04.2010 - Começos inesquecíveis: Gabriel García Márquez (II)

15.04.2010 - Começos inesquecíveis: Jonathan Littell

07.04.2010 - Começos inesquecíveis: Virginia Woolf

Ver mais
Livraria online Dicionário de Escritores Exercícios de criação literária
Entretextos Acadêmico
Rádio Entretextos
Livros online Aúdios

Imagens da Cidade Verde: entrevista com o escritor Ribamar Garcia


Os anos da juventude, entrevista com Venceslau dos Santos


Listar todos
Últimas matérias

21.06.2017 - Uma tarde na Fazenda Não me Deixes

Uma tarde na Fazenda Não me Deixes

20.06.2017 - ROGEL SAMUEL: BREVE MANUAL DE DIDÁTICA GERAL

Por que a didática geral?

19.06.2017 - Vozes da ribanceira

O autor escreve sobre o romance Vozes da ribanceira, do acadêmico Oton Lustosa.

19.06.2017 - Psycho Pass episódio 6: Akane confronta a crueldade humana

Prosseguindo a guia de episódios do seriado de ficção científica "Psycho Pass" chegamos ao chocante sexto episódio, onde Akane enfrenta uma esquartejadora.

19.06.2017 - Lançamento em Parnaíba de Histórias de Évora e A Menina do Bico de Ouro

O SESC convida para o lançamento de Histórias de Évora e A Menina do Bico de Ouro em Parnaíba

18.06.2017 - A REGRA E AS EXCEÇÕES

Alguém, de forma

16.06.2017 - Cruzando os Mares

A Bordo de um Cargueiro

16.06.2017 - Ariano e a estética do Não Foi Bem Assim

Essas coisas são inventadas por heróis picarescos, gente que para fugir da fome tem que remar o dia todo, a vida inteira.

16.06.2017 - Livros e raparigas

Um dia destes, em conversa com a mulher de um jornalista, escritor e (grande) tradutor brasileiro, falávamos de Os Desastres de Sofia e da famosa colecção Biblioteca das Raparigas

16.06.2017 - A gênese de nossa criação literária

A base de nossa criação literária fundamenta-se, portanto, na tentativa de fundir memória, imagem e sensação.

15.06.2017 - HOJE É CORPUS CHRISTI, SIM, SENHOR

Muita gente

15.06.2017 - DOCES FANTASMAS

Doces fantasmas esvoaçam os ares dentro de meu quarto.

14.06.2017 - Miranda, uma família pioneira no povoamento do Piauí.

O autor divulga notas sobre as origens da família Miranda, no Piauí.

13.06.2017 - Literatura piauiense

Na apresentação do livro de Francisco Miguel de Moura, Reginaldo Miranda faz análise da literatura piauiense.

13.06.2017 - Da arte do sol

Da arte do sol

ENTRETEXTOS - DÍLSON LAGES MONTEIRO
Baloon Center, Av. Pedro Almeida nº 60, Sala 21 (primeiro piso) - São Cristóvão - Teresina - Piauí - CEP: 64052-280 Fone (86) 3233 9444
e-mail: dilsonlages[@]uol.com.br