Dilson Lages Monteiro Sábado, 25 de maio de 2013
CARPINTARIA
Laerte Magalhães
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REGINA & CIA

REGINA & CIA
Laerte Magalhães
 
        Regina prestou concurso para a Petrobrás e vem cumprir estágio no Rio de Janeiro. Nordestina, estremece de medo com as notícias de violência. Aluga um apartamento no décimo andar de um edifício da zona sul e lá, sozinha, com saudades dos seus, verte suas lágrimas e penitencia-se, franciscanamente. Aos poucos, vai aprendendo como se mover na cidade e como se abastecer de mantimentos semanalmente, num supermercado próximo.
Detesta a solidão. Com o primeiro salário, compra uma TV e liga numa extensão, sobre um carrinho com rodas metálicas. Deste modo, a qualquer parte do apartamento que vá, lá vai também a televisão. Ah, sim, Regina não é apenas nordestina, vem do interior, de arejados espaços: casa alta, de cômodos grandes, com lugares para armar várias redes e abrigar muita gente, quando necessário. Talvez por isto, sem qualquer outra explicação, mesmo morando sozinha aluga um apartamento de três quartos.
Quando Regina entrava no apartamento a primeira coisa que fazia era ligar a TV. Ia para a cozinha e para lá empurrava o carrinho, com a TV ligada. Ia tomar banho, deixava a porta do banheiro aberta para ouvir a TV.
Mas, mesmo com esta presença tagarela, Regina sentia-se sozinha. Não tinha empregada por que, alegava, tinha pouca coisa para fazer e ainda mais distraia-se lavando roupas e as louças, arrumando a casa e preparando ela mesma a comida com cardápio típico de sua terra. Reclamava que a carne de criação nos supermercados da cidade era muito cara, mas fazer o quê? Era assim ou teria que aumentar ainda mais as faltas que sentia. Na verdade, não queria empregada porque não confiava ainda deixar suas coisas com alguém desconhecido. Vivia sob tensão. Na rua, cumprimentava as pessoas e procurava ser gentil. No prédio, falava com um ou outro quando havia oportunidade, mas em casa, não abria a porta para ninguém, sem o pega-ladrão.
Um dia, enquanto aprontava-se, tomou um susto, enxugava o cabelo, de cabeça baixa, e quando levantou e abriu os olhos percebeu como que um corpo sobre sua cama. Esfriou por dentro. Mas logo deu por si e viu que ela mesma tinha posto a roupa de sair sobre a cama: uma calça comprida com a blusa, um conjunto combinado. Riu, ainda trêmula e foi a cozinha tomar água. Teve então uma idéia: pegou uma calça e uma camisa de mangas compridas, costurou uma na outra e encheu com o recheio de alguns travesseiros que comprou para este serviço. Depois costurou algo como que fosse uma cabeça, pintou olhos e boca e pôs peruca.
Alguém, no seu local de trabalho havia comentado sobre um filme em que um náufrago dava nome a uma bola e conversava com ela como se fosse gente, enquanto permaneceu naufragado. Não conseguia lembrar o nome do filme. Pensou: se uma bola pode fazer companhia para alguém, por que não um boneco bem feito?
Assim, Regina nunca mais almoçou sozinha. A partir de então, depois de ligar a TV, pegava no guarda-roupa o Hermano, sentava-o numa cadeira e ia contando para ele as novidades do dia. Só conseguia almoçar conversando com o Hermano. Comprou-lhe roupas novas, chapéus e outros enfeites. Uma vez, observou no ônibus, de volta do trabalho, um rapaz que tinha um peircing na orelha, imediatamente pensou se também não ficaria legal comprar um para o seu novo companheiro.
Muitas vezes, quando a insônia mais a incomodava, pensava em convidar Hermano para dormir com ela, mas a seguir concluía que não ficava bem uma moça sozinha chamar um homem para a sua cama, mesmo sendo um grande amigo: a única pessoa em quem confiava plenamente naquela cidade.

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