Dilson Lages Monteiro Sábado, 25 de maio de 2013
CARPINTARIA
Laerte Magalhães
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O BRILHO DA FESTA

O BRILHO DA FESTA
               Hoje é dia de festa. Daqui a pouco, a empresa em que Antonio trabalha vai oferecer uma festa para todos os seus funcionários, parentes, amigos e fornecedores. Todas as providências estão sendo adotadas e está quase tudo pronto. A cidade é cruzada por centenas de ligações telefônicas onde cada um dos convidados quer saber informações, as mais diversas, do outro. Desde sugestão de salão para fazer o cabelo, comentário sobre expectativas para logo mais, até a necessidade de saber se há quem tenha um convite sobrando. Sempre chega alguém de última hora e a cidade inteira desejaria ir a tal festa. Comida e bebida garantida, e de graça.
A festa é oferecida a pretexto do aniversário da empresa que coincide com as fastas de final de ano. Mas, na verdade, ela serve de palco para a satisfação pessoal do dono da empresa que conduz as atrações contratadas, realiza os sorteios de prêmios e as efetivas premiações aos seus funcionários mais destacados, com presentes até de carros. Todas as decisões, todos os acontecimentos passam pelo dono da empresa e, consequentemente, o dono da festa.
Tudo, antes, fica a cargo de um organizador que goza da confiança do dono da empresa. A ele é entregue a responsabilidade de controlar o acesso, distribuir senhas para ocupação dos espaços e até para comprar a bebida e o churrasco. Para cada item um número com uma cor que informa a que cada um dos convidados tem direito naquele momento. Um batalhão de segurança controla o acesso ao estacionamento e a distribuição das categorias de convidados: políticos e empresários vão pelo corredor A, ficam sentados nas mesas próximas ao palco; os funcionários e suas famílias pelo corredor B e ficam nas mesas mais afastadas.
O roteiro de apresentações é conferido e os artistas são alojados em hotéis da cidade com traslado garantido pelo organizador. Agora, sim: tudo checado, tudo pronto.
Antonio olha no espelho seu porte avantajado naquela roupa comprada especialmente para a festa. Um detalhe no perfume aqui, uma penteada de leve. Um último olhar e a conclusão de que está melhor do que o planejado. Põe os sapatos e, pela última vez, vai ao espelho confirmar sua impressão. Confirmado, ganha o destino do local de realização da festa, um sítio na saída da cidade.
Segue para lá na maior felicidade. Ao chegar ao local, quase todos os convidados já estão devidamente acomodados. Sente-se como se estivessem todos a esperar por ele. Ergue o queixo, olha o horizonte das mesas estendidas e caminha a pessos largos, porém lentos, pelo corredor do meio. De longe, o seu chefe que, não por acaso, é o responsável pela organização da festa o avista: aquele homenzarrão imenso, vindo por entre as mesas, avançando com o silencio dos que o observam enquanto passa, vestido de camisa social branca, de mangas compridas, gravata vermelha e calça de listas verticais, meio largas, em preto e branco.
Ao chegar próximo ao chefe cumprimenta-o com um sorriso como se não houvesse observado ainda seu semblante contrariado. Percebe que naquele momento as luzes do palco se apagam como a anunciar que serão iniciadas as atrações da festa. Ele está sob o efeito dos olhares nada discretos que lhes são lançados experimenta uma sensação bastante particular. É a mais pura satisfação pessoal que sequer consegue dissimular.
O chefe, de cara amarrada, retribui ao cumprimento e o convida a um lugar um pouco afastado dali, meio na penumbra, onde não há mais ninguém. Ele concorda e, ainda sem se dar conta da situação, desloca-se ao lado do chefe para o tal lugar. Sem olhar no rosto do chefe, conduz o semblante de felicidade motivada pela visível manifestação do público que, na verdade, tinha como expectativa. O chefe quebra o seu encanto com um pedido, no mínimo, inesperado: — Antonio, quero que você vá para casa trocar esta roupa. E Complementa: Nesta festa ninguém pode chamar mais a atenção do que o dono dela.
Antonio perdeu o chão, perdeu o prazer, perdeu a graça. Saiu dali desolado pra nunca mais retornar. A única coisa que ainda o alimentava era que, ninguém que o viu chegar, o viu ir embora.

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