Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 18 de maio de 2012
CARPINTARIA
Laerte Magalhães
Tamanho da letra A +A

ÓCULOS E DISCURSOS PERDIDOS

ÓCULOS E DISCURSOS PERDIDOS

 

Tenho que viajar amanhã cedinho e, apesar das altas horas da madrugada, ainda estou aqui revisando um discurso que acabei de redigir. Os olhos parecem trocados e, vez em quando, fico um pouco confuso, as letras mexendo-se no teclado do computador. Na verdade, não é amanhã cedinho que eu devo viajar, é daqui a pouco, às 6:30h da manhã.
O dia desfaz a noite e eu tento imprimir o discurso enquanto a impressora encrenca. Não imagino por qual motivo. Começa a me bater certo sentimento de que talvez não consiga imprimir o texto e depois tomar banho, tomar café, trocar de roupa e depois de tudo, chegar a tempo de tomar o avião para a Bahia. Acho que eu esqueci de por nesta ordem de tarefas a mala que ainda tenho de fazer. Isto se a impressora resolver colaborar. Ah, finalmente. O texto impresso, sem problema.
O que é mesmo agora que eu tenho que fazer? Volto ao parágrafo anterior, bom, tenho que tomar banho. Ligo o chuveiro e deixo a água ir esfriando o cérebro (ou quase isto). A sensação do banho me reanima e as coisas parecem menos problemáticas. Confira a lista acima e veja as outras coisas que eu vou fazendo. Claro, ponha antes de tudo a mala.
Desço arrastando a mala pelas escadas porque não tenho tempo para ficar esperando o elevador que, por desconto de pecado, acaba de passar reto no andar que estou agora, não atendendo ao meu chamado. Chego, finalmente, à portaria, comigo, os passageiros do elevador que ignorou o meu chamado, que chegam junto.
Tomo o táxi e comunico ao motorista para baixar o pé, sem dó. Ele me olha desafiador e segue em marcha lenta. Peço para ele parar, quero apanhar um táxi que respeite a minha pressa. Resmunga algumas coisas indecifráveis e vai adiante. Protesto, mando que pare, ele não escuta. Acelera um pouco mais e vai adiante, calado. Percebo que me observa pelo retrovisor, com cara de poucos amigos. Xingo, comigo, ele e várias gerações dele.
No aeroporto, nenhum aviso de atraso de vôo. Pelo menos isto me alivia. Em pouco tempo, estou acomodado olhando, sem escutar, o discurso cheio de gestos que uma comissária de bordo faz diante de mim. Depois disto, a aeronave já está pousando no aeroporto de Salvador. Dormi pesadamente, concluo.
Vou para o Centro de Convenções e lá encontro o grupo de recepcionistas que estavam me aguardando. Falam dos procedimentos, me comunicam que a minha participação é a primeira. Entre eles, uma jovem que me convida para sentar num quiosque enquanto não inicia. Sentamos numa mesa afastada, ela pede uma cerveja. Conversamos amenidades, não quero retirar a surpresa da fala que está no meu discurso depois de ter atravessado a noite em claro pensando e escrevendo cada palavra, caprichosamente.
Retiro os óculos para limpar a lente e, como que por hábito, guardo no envelope que está sobre a mesa, junto com o texto do improviso. Bate uma chuva repentina e nos retiramos da mesa às pressas. A garota tem um papo interessante e a cerveja a deixa cada vez mais atraente. Ou seria a carência? Discutir isto agora não faz o menor sentido. O que é certo é estamos nos dando muito bem. Vejo que nos chamam, é um dos caras que me recebeu quando cheguei ao Centro de Convenções. Avisa que temos que ir para o Auditório, serão iniciadas as atividades do evento e eu serei o primeiro a falar.
        Chamam-me para a mesa e a garota senta-se ao meu lado. Sinceramente, não ouvi ninguém anunciando seu nome, mas também não vou polemizar, não me cabe. Até gosto que ela esteja ali, ao meu lado. O presidente da mesa me anuncia e me passa a palavra. Acho estranho que eu não consiga distinguir com clareza as pessoas á minha frente, sentadas naquele auditório. Param de aplaudir, procuro o envelope que deve estar comigo e que tem o texto do discurso. E os meus óculos, também. Entendo porque tenho dificuldades para distinguir as pessoas. Não encontro o tal envelope.
Resmungo uns impropérios, enquanto um silêncio pesado cai sobre o tempo. Sem o discurso e sem os óculos, agradeço o convite, a presença de todos, cumprimento os ocupantes da mesa e fico sem saber mais o que dizer. Passa pela minha cabeça uma solução estapafúrdia e, sem que eu mesmo me controle, passo a palavra à jovem ao meu lado alegando que ela é baiana e que, certamente, tem mais o que dizer do que eu. Para o meu espanto, a garota se levanta, toma o microfone e dana-se a falar asneiras, coisas sem sentido. Surge um ensaio de vaia, mas não prospera. Não sei o que faço aqui, sem meu discurso e sem meus óculos.

Compartilhar em redes sociais

Comentários (0)

Deixe o seu comentário


Reload Image








Últimas matérias da coluna

29.04.2012 - ÓCULOS E DISCURSOS PERDIDOS

05.04.2012 - AMPARO E DESAMPARO

01.04.2012 - CENAS URBANAS

25.03.2012 - ENCONTROS, DESENCONTROS, REENCONTROS

21.02.2012 - URBANOPATIAS

28.01.2012 - De Fortaleza a Teresina, com escalas

Ver mais

Dicionário de Escritores Entretextos Editora On-line
Entretextos Acadêmico
Rádio Entretextos
Livros online
Últimas matérias

17.05.2012 - O VELHO CHALÉ DE JOSÉ DE FREITAS (PARTE 1)

..............................................................................................

17.05.2012 - Algumas faculdades europeias e estadunidenses de Jornalismo

Na Europa, uma excelente faculdade de Jornalismo foi construída pela Universidade Autônoma de Madri, conveniada com o jornal espanhol El País

17.05.2012 - NANA, um tratado sobre as relações humanas

Uma complexa e extensa novela gráfica japonesa

17.05.2012 - Terra do Gado

A história e as histórias que reuniu e redimensionou são, ao tempo em que lançam novas luzes sobre a identidade do Piauí, principalmente, um reflexo do ideal de projetar entendimento mais preciso das marcas da “piauiensidade”

17.05.2012 - Uma luta de Sísifo

Durante boa parte do meu temo

16.05.2012 - A CRIATURA - PARTE 2

De olhos bem abertos ela fitava o teto. Imagens dispersas deslizavam umas sobre as outras, enroscando-se numa massa caótica de energia desperdiçada. Os ponteiros do relógio, alheios ao seu sofrimento, moviam-se silenciosamente.

16.05.2012 - Família lança livro inédito do desembargador e contista Magalhães da Costa

Família lança livro inédito do desembargador e contista Magalhães da Costa

15.05.2012 - No país das CPIs

Tempos atrás já houve

15.05.2012 - A mulher vital

A história da Narrativa (cinema, literatura, etc.) é cheia de arquétipos e estereótipos

15.05.2012 - Inobstante, face a, frente a e outras locuções

Por sugestão de M. P. Kern, de Pinhalzinho/SC, vamos tratar hoje do “uso de face a e inobstante, expressões muito usadas no meio jurídico”. O pedido sem dúvida decorre do fato de algumas pessoas condenarem a locução face a

15.05.2012 - O melhor trecho do novo livro de Rogel Samuel

A escolha de um trecho melhor é idiossincrática - e por isso irrelevante -, mas o novo ensaio rogeliano é crítico-filosófico - e ultrapassa a mera crítica literária

14.05.2012 - Vi uma coisa medonha no céu

Mergulhemos um pouco no mundo sombrio e tenebroso criado por H.P. Lovecraft: os horrores do Necronomicon

14.05.2012 - Abril de 2012: UNESCO anuncia proteção aos destroços do Titanic

Em águas internacionais, a 4.000 m de profundidade, nenhum país pode reivindicar a jurisdição exclusiva do local

13.05.2012 - Tradução de um texto de Raymonde Norman*

Sobre minha fronte

13.05.2012 - Três fábulas de La Fontaine

(1) O leão e o rato; (2) A raposa e a cegonha; e (3) O lobo e o cordeiro

LABORATÓRIO DE REDAÇÃO PROF. DÍLSON LAGES
Baloon Center, Av. Pedro Almeida nº 60, Loja 21 (primeiro piso) - São Cristóvão - Teresina - Piauí - Fone (86) 3233 9444
e-mail: dilsonlages[@]uol.com.br