Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 23 de junho de 2017
CAPOEIRA DE ESPINHOS
Dílson Lages Monteiro
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4. A casa desbotada

4. A casa desbotada

 [Dílson Lages Monteiro]

Chamam aquele prédio de casa. Disse-me gente antiga, gente entendida, que a primeira cor dela – e por muitos anos - foi róseo. Mas  já a pintaram de branco, de amarelo e de outras cores, apagadas em minhas recordações gastas. Transformada em sede da prefeitura, cobriram-na de róseo e a apelidaram oficialmente de casa rosada. Se foi porque a primeira cor, na década de 1920, era róseo, nem sei. E quem vai saber? Se a Argentina glorificava-se da sua casa rosada, por que não Barras, um dia, na República Velha, centro de poder? O apelido, nas graças populares, já ia para mais de duas décadas. Se existira antes, em menino, rapazote e adulto, nunca ouvi. E já não sou novinho assim. Eu me lembrava mesmo era da Argentina.
 
Casa rosada? A história de um tempo reinventada ou desinformação de uma Terra sem identidade?
 
O povo enche o peito pra dizer Terra dos Governadores, dos poetas e dos intelectuais. Os governadores, desaparecidos desde a década de 1940; os poetas, os mortos ou os vivos, nem lidos são, e os intelectuais... Rio no íntimo.  Confesso que tenho dúvidas se a escolha do nome casa rosada era uma brincadeira. Se fosse, tratava-se de piada original. Quando ouvia alguém pronunciar, eu ria no íntimo. Por que não homenagearam o rio, o sol, a padroeira? Palácio Marataoã, Palácio do Sol, Palácio da Terra de Nossa Senhora. Homenagearam a primeira cor? Quem saberia? Para mim, exaltaram mesmo a Argentina. 
 
 
Independente do nome, era digno de ser a sede de decisões administrativas. Não como estava: desbotada, abandonada. Ou não era abandono portas, janelas, móveis, vidraças, quebrados como se não tivessem dono? É – ou era -  uma das edificações mais chamativas da cidade. Das mais antigas, ainda de pé. Só não sei até quando. Construída em 1928 para sediar a residência de um coronel, alguns anos antes de se transformar em sede da prefeitura, abrigou a  biblioteca municípal, onde li, pelos idos de 1980, estando em férias, livre das redações de jornais e dos corredores do Congresso, raros livros de filosofia. Ali funcionara uma biblioteca de vergonha. Dessas em que se encontra do mais essencial para formar as virtudes e abrir a consciência para o mundo. Quem mais lera tantas raridades, para sentir falta delas?
 
Desapareceram, como se fosse uma sina desaparecer o que de bom a mão humana – e até a de Deus - fez aqui. Fora assim com a Igreja Matriz, o Cemitério da Confraria, O Teatro Municipal, a Associação Recreativa e os próprios sonhos de quem queria uma cidade grande; a maioria arrumou as malas e foi morar onde os valores eram o do trabalho. Teria o mesmo destino, o de pó ou poeira, a casa desbotada, que tanto envergonhava os homens de senso? Longe de mim, qualquer moralismo, mas eu tinha vergonha de dizer que ali, simbolicamente, era – ou fora - sede de poder. Por que não reformavam?
 
Aposentado, tenho mais tempo do que nunca para ler. Procurei em vão os livros que li, procurei-os  na biblioteca municipal de hoje; ou melhor, procurei-os numa sala improvisada no fundo de um espaço de reuniões, audaciosamente rotulado de auditório; escondida, escondida. Inútil, algum rato roeu aquelas preciosidades. Desses ratos de braços e pernas; anomalia da natureza humana. Barras tinha também ladrão de livros. Se fosse só de dinheiro público, até me calaria, porque sei que um dia serão punidos. Um dia as instituições e as leis funcionam. Não custa acreditar, mesmo que dos lacaios de hoje talvez já não existam os ossos.
 
Na cidade tinha de tudo. Até ladrão de livros! Quem mesmo ia lê-los? Ninguém daria nem conta de que existiram um dia. Quem ia se importar pra livro sumido?
 
Diante da casa rosada, minha caminhada parecia encerrada. Já não me interessava mais saber se Chico Laranjeira teria coragem de apresentar o cd do escândalo a alguém do sim. A casa me entristece. Casa abandonada como o cão calazento que vi no mercado; as feridas, expostas. O cão a receber, sem razão aparente, chutes de um magarefe. O homem habituara-se a cortar carne, talvez isso. Um cão era apenas um cão, bicho pra ser espantado do entorno das carnes de bodes, ainda pingando sangue. 
 
Chutavam aquele prédio; não só as proclamadas autoridades, mas também os que a voz calavam. Chutavam como ao cão calazento. O prédio de feridas como o bicho.  O prédio, o que fizera? O cão supostamente incomodava os clientes zanzando em redor dos boxes, mas a casa...  Queriam sepultar alguma história? Outro dia, mandaram mudar o nome de escolas e até as pintaram de outras cores, sem razão que justificasse o gasto com tinta e a tentativa de apagar o  significado do nome na memória coletiva. O que queriam mesmo agora?
 
Sentei-me num banquinho da praça Antônio Carvalho. Sabiam o nome da peça pública em frente aos armazéns da velha fábrica? Olhei para a fonte d”água. Seca. A garganta também pedia água. Tomei da garrafa, minha companheira no percurso das passadas, e sorvi-lhe três goles sem afastar a atenção da fonte. Ela se concentrava no centro do jardim. Quatro conchas sobrepostas, sendo a última delas – talvez inconscientemente - imitação de algum deus mitológico. Estavam secas. Olhei para o chão. A grama rasteira do jardim também secava. Brilhando ali, a tinta do trailer, autorizado para funcionar sobre a calçada da casa, agora sem servetia. Desbotada. Abandonada. Não secava o Marataoã; esse, não. Ou secaria? Não secava mesmo era o que brotava das mãos dos Governos. Ou secaria? Sorvi mais três goles d'água e me pus a pensar se deveria chamar a edificação de casa. 
 
Prédio ou casa, qual diferença faria uma palavra? Qual diferença, diante do desconcerto de formas em que se desintegravam as partes de um corpo de concreto vivo? Prédio foi, por muito tempo, para mim, repartição; casa, somente lugar de recolhimento, o lugar sagrado de todas as satisfações. Nas décadas de Brasília, prédio adquirira mais ainda essa intimidade de sentido matemático. Mas aqui prédio ou casa tanto faz. Nem me atrevia a chamar assim o que via. Eu me postava, isso sim, mediante uma construção abandonada. Como o cão em feridas abertas, assustado, sob torturas do magarefe; assustado, sob o bater de pernas de quem passava pelo mercado, mais atento à fala das gentes que à carne pendurada nos ganchos.
 
Olhei para minha roupa. Tinha traje específico para caminhar. Traje leve, como recomendavam os entendidos. Olhei novamente para a roupa e, agora, para a construção desbotada. E senti o que sente quem, por carências materiais, do frio não se pode proteger. Era assim a casa-rosada de Barras. Casa Argentina. Casa piada. Casa abandonada, casa de todo nome ruim. Nem adjetivo merecia, essa casa de sei lá o quê. Me sentia protegido pela calça de atividade física, pela blusa de malha, pelos óculos escuros indicados por médico. O prédio, não. Nenhuma proteção para afastar dele os danos espontâneos da natureza. Ou da mão suave de espertinhos. A casa, como o cão de feridas abertas no mercado. Desprotegidos, sangravam. Cada qual a seu modo. Desprotegidos e abandonados.
 
Prédio ou casa, não importa. O que vale é que o valor de suas paredes eram como o de um cão calazento.
 
Continuaria a caminhada, mas não consegui conter o impulso que empurrava meu corpo para além dos muros das grades ornamentais, em madeira de cedro. Entrei pelo lado direito, por onde entravam os automóveis, ao canto do prédio onde existira, por décadas, a fábrica de óleo e sabão, símbolo de progresso de um tempo. A cancela, escancarada na manhã de domingo. Os sinos da Matriz convidavam para a missa das oito. Ouvia atentamente o contorcer-se do som, que se repelira na minha audição, pelo trotar de patas no calçamento. Duas vacas corriam à minha frente. Já estava nos jardins da casa. Elas apressavam-se, de cabeça pendida ao rumo do palacete, e não pude esquecer os olhos com que me enquadravam. Olhos esquisitos. Apenas isso conseguia dizer daqueles olhos que imploravam por algo, até hoje indefiníveis na lembrança. Pareciam implorar por socorro como a casa abandonada.
 
Entrei na casa. A porta da frente já caia em pedaços esfarelados. Recebera chutes. Como o cão calazento. Possível antever ali a ação dos vândalos. Não tinha mais vigia na cidade, não? Da sacada principal, uma espécie de marquise, corri os olhos em todo o jardim. Verde, verde, como o capim que nascia entre os ladrilhos da calçada. Verde, em contraste com o que eu veria doravante, ao cruzar a porta, ou o que dela sobrou. Tive a sensação de alguém me seguir. 
 
Era meu direito ver um patrimônio mantido com o ônus de cada cidadão e não recuei em anotar na mente os detalhes cuja consciência e a curiosidade me obrigavam a enxergar. Havia cheiro podre no vento. Pus a mão no nariz. Ventava forte; o ar vindo dos buracos de janelas quebradas, por onde a luz espalhava-se natural. A mão no nariz. Cheiro de fezes. Elas estavam espalhadas em um canto. Fezes secas. Parece que tudo em Barras secava. As fezes, essas é que secavam. Só não secavam as da fossa do hospital, que se desfaziam, com data marcada, em água fétida, minando sobre as calçadas da Escola Nossa Senhora da Conceição.
 
O cheiro era insuportável e voltei do meio do caminho. Queria procurar a tela milionária do famoso pintor barrense Lucílio de Albuquerque, que já era sabido nos quatros cantos da cidade, sumida da sala de reuniões da prefeitura, sem deixar rastros. Um senador a doara, pensando na preservação da obra e agora... Voltei. O cheiro, insuportável. Vi um vulto. Ele cruzou por três vezes minha percepção. Vulto. Ser vivo não era. Coisa ruim?  Talvez o fantasma de algum ex-prefeito. Quem sabe não seria o pintor procurando pelo quadro?
 
 Desanimei-me e não quis mais olhar para detalhe algum. Voltei por onde entrei. De fora, olhando para a meia-janela ainda suspensa em dobradiça enferrujada, lamentei pela falta de consciência. Lamentei, atento às manchas brancas na tinta róseo desbotada. Atento. Se fosse noutra terra, alguém já tinha agido.
 
Continuava olhando, de fora; olhando e sorvendo mais três goles d’água. Um goteira me interpelou. Um goteira, como designam o ser que vive nas esquinas atrás de conversa para dizer a quem é do sim e a quem é do não; doído para se divertir vendo o circo pegar fogo. Parou a bicicleta e bateu em meu ombro. Assustei-me. E quem não se assustaria numa terra que perdeu as estribeiras. Bateu no meu ombro e perguntou:
 
- Espantado com o que, doutor?
 
Não respondi. Doutor? Eu, que não tolero adulação, silenciei. Havia prova melhor para reprovar a impertinência que o silêncio? Se aparecia alguém com elogios, pensava logo: “Esse sujeito está interessado em alguma coisa”. Chamar-me de doutor, então... Aqui é cada um que se diz doutor. Doutor, ora essa!
 
Não pude negar que o sujeito surpreendeu-me em sua filosofia, reiterando a pergunta:
 
- Seu Constantino, espantado com o quê?
 
- Estou só admirando o tempo...
 
- Não se espante, não. O poder é uma vacaria!
 
Havia definição melhor para a casa abandonada, a casa desbotada?
 
Ela era apenas uma vacaria.
 
 
Saiba Mais sobre A casa Rosada, em Barras-PI 
 http://www.tribunadebarras.com/?p=3967
 
 

 

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Comentários (1)

Gostei do conto, Dilson. Só não entendi o final, pois uma vacaria produz um alimento excelente, e a Casa Rosada está abandonada e podre.

Washington Ramos
postado:
27-08-2015 13:25:24

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