Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
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Bráulio Tavares
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Ver o invisível

 Bráulio Tavares

No seu famoso romance O Homem Invisível (1897), H. G. Wells conta a história de um cientista que descobriu uma maneira de reduzir de tal modo o índice de refração e reflexão da luz num objeto material que os raios luminosos passam através dele sem sofrer alteração; isso faz com que o objeto continue existindo ali, sólido, concreto, perceptível ao tato – mas invisível. Claro que uma das primeiras coisas que Griffin, o cientista, acaba fazendo é submeter o próprio corpo a esse processo e ficar invisível também. Por conveniências narrativas, ele sofre uma série de contratempos e não consegue reverter o processo. Continua invisível, mas aí não consegue mais se relacionar com ninguém, porque as pessoas se apavoram diante daquela “Voz” sem corpo. O que faz Griffin, para poder andar na rua, fazer compras, relacionar-se com o mundo? Veste roupas, usa luvas, põe um nariz artificial, barbas postiças, óculos, peruca, chapéu. De nada lhe serve ser invisível. Para poder viver normalmente, ele precisa cobrir-se de acessórios visíveis.

Jorge Luís Borges, um grande admirador de Wells, elogiava nos livros deste, mais do que as mensagens humanistas ou a crítica social, a infinita plasticidade dos símbolos que utilizava. Para Borges, o homem invisível é uma metáfora da solidão, da invisibilidade que todos nós experimentamos em algum momento da vida. Existe alguém mais invisível do que um sujeito tímido num restaurante cheio? Ele acena para os garçons, que só faltam mesmo passar através dele, cruzam por ele com o olhar perdido lá adiante, sem perceber suas tentativas náufragas de fazer contato. Existe alguém mais invisível do que um sujeito sem crachá diante de um segurança? Existe alguém mais invisível do que um sujeito mal vestido, do que um mendigo?

A invisibilidade de Griffin pode servir também como metáfora para o Mito. O Mito é uma narrativa que satisfaz uma necessidade profunda das sociedades humanas. As pessoas têm uma carência de que algo aconteça no presente ou tenha acontecido no passado. Essa necessidade é algo sem nome e sem forma, mas é poderosa e real, embora invisível. Para satisfazê-la precisamos recobri-la com coisas visíveis, que são as histórias que contamos, histórias que adquirem a forma dessa necessidade: o mito de Édipo, o mito de Caim e Abel, o mito de Dom Sebastião. Cada uma delas é a vestimenta de algo invisível.

Outra implicação da história de Wells é a relação entre o Inconsciente e suas manifestações conscientes. O Inconsciente, por definição, é invisível. Existe mas não pode ser percebido, ou melhor, só pode ser percebido através de suas interferências em nossa mente consciente, interferências que Freud identificou nos sonhos, atos falhos, traumas, fantasias, etc. Assim como o homem invisível precisava de cobrir de elementos visíveis para mostrar onde estava, o Inconsciente precisa cobrir-se de reações conscientes para indicar o que quer.

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