CANTA-ARES
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[Bráulio Tavares]
O leitor prevê mais uma das bem urdidas histórias de crime de Cortázar. (É engraçado, nunca vi nenhuma delas nas antologias de contos policiais. Rotularam o rapaz de “autor fantástico” e pronto, morreu aí.) Tudo é narrado numa “falsa 3ª. pessoa” do ponto de vista de Matilde, a esposa, e depois de duas páginas já esquecemos que tudo começara com um “eu”. O conto vai até um desfecho violento, e no último parágrafo sabemos quem é o narrador: é o médico ou enfermeiro que chegou à casa logo após o crime, e a história é extraída da empregada, Flora, levando-o a reconstituir tudo que se passou. Acontece que tirando o primeiro e o último parágrafo tudo se passa dentro da mente de Matilde. Pegando os fragmentos de fatos fornecidos por Flora, o narrador romanceia por conta própria o que teria se passado na mente da mulher, seus medos, suas culpas, sua paranóia. É um narrador não-confiável, porque, embora os fatos provavelmente sejam aqueles, o texto está cheio de conjeturas e adivinhações do que Matilde teria sentido e pensado, e que ele não poderia conhecer. É mais uma das muitas experiências de Cortázar sobre um”eu” narrador que nunca é o “eu” narrador da literatura convencional.
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