Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 18 de maio de 2012
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Bráulio Tavares
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Os gols perdidos

 [Bráulio Tavares]

 



Uma das curiosidades da história de Pelé é o endeusamento que os torcedores fazem dos famosos gols perdidos por ele na Copa de 1970. Chamar de gols perdidos é injustiça, aliás. Gol perdido é aquele que é facílimo de fazer e o cara não consegue. No caso de Pelé, foi justamente o contrário. Foram gols quase impossíveis de fazer e que ele quase fez. Aí reside a arte e o mistério.

O primeiro foi no jogo de estréia do Brasil na Copa, contra a Tchecoslováquia, país que sempre foi bom de bola. Pelé dominou a bola no centro do campo e viu que o goleiro estava adiantado. Mandou um chute por cobertura que ao descer passou raspando a trave, desnorteando o goleiro, a torcida e os câmaras de TV, nenhum dos quais estava preparado para fazer aquele movimento num lance tão “sem perigo de gol”. Daí em diante, dezenas de jogadores já fizeram esse gol. Só Pelé não fez. Mas o gol é dele, não é mesmo?

Os outros dois foram na partida semifinal, quando ganhamos do Uruguai por 3x1. Um deles veio de um tiro de meta batido pelo goleiro uruguaio, Mazurckiewicz, que em vez de dar um chutão para o alto cometeu a imprudência de mandar a bola para o meio do campo a meia-altura. No meio do caminho estava Pelé, que, sem dizer água-vai, rebateu a bola para o gol com um chute fortíssimo, que o goleiro só defendeu porque era, na época, um dos melhores do mundo.

Mais tarde, Pelé foi lançado em profundidade, perseguido pelos zagueiros, e o goleiro saiu ao seu encontro. Como a bola vinha em diagonal, todo mundo pensou que Pelé ia dominá-la puxando-a para a esquerda, no que seria o movimento natural, pelo fluxo da jogada. Ele simplesmente passou por cima da bola sem tocá-la, rodeou o goleiro, alcançou a bola pelo lado oposto e chutou para o gol, A bola saiu, raspando a trave. Zico fez esse gol, anos depois; outros jogadores já devem tê-lo feito. Mas a quem pertence o gol?...

A obra de arte pertence a quem primeiro teve o vislumbre de sua existência e a trouxe, mesmo incompleta, ao mundo. Eram jogadas que não existiam no futebol, e a genialidade de Pelé (“data vênia” os muitos gênios do futebol que vieram antes ou depois dele) estava não somente na execução das jogadas, mas na invenção. Pelé foi um artista inventor, no sentido que Ezra Pound atribuía a alguns poetas. Esses gols que ele não marcou brotaram de improvisos geniais, feitos em fração de segundo, talvez pensados antes, como todo grande improviso, mas sem poder saber quando as circunstâncias certas ocorreriam. “A bola não quis entrar”? Paciência. Esses gols entraram para a arte e a técnica do futebol, e é para isso que existem os poetas-inventores.

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