Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 18 de maio de 2012
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Bráulio Tavares
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O vitral e a vidraça

 [Bráulio Tavares]

 


(George Orwell, por Felipe Muanis)

Isaac Asimov faz uma comparação hábil (embora injusta, a meu ver) entre o escritor que quer contar uma história e o escritor que quer criar uma maneira pessoal de contar qualquer coisa. É a velha oposição meio maniqueísta entre enredo e estilo. Asimov compara essas duas formas de escrever com a vidraça e o vitral. Uma vidraça é transparente: olhamos por ela sem vê-la, porque não queremos ver a vidraça, queremos ver apenas o que ela está nos mostrando do outro lado. Já o vitral (aquele vitral de igreja) é opaco, colorido e não quer mostrar outra coisa além de si próprio. Diz Asimov que a prosa literária, sofisticada, é assim como um vitral: quer apenas exibir-se como prosa bem escrita. Não quer contar história alguma, nem exprimir verdade alguma a não ser sua existência como prosa brilhante. E diz Asimov que ele próprio produz uma prosa-vidraça, simples, direta, transparente, que não quer se exigir como literatura, quer apenas mostrar o que está do outro lado, ou seja, a história que está contando.

Há uma frase de George Orwell que talvez tenha sido lida por Asimov e guardada no inconsciente, aquele caldeirão febril onde todas as assinaturas e todas as autorias se dissolvem. Diz ele: “Eu tentei com todas as minhas forças contar toda a verdade sem violar meus instintos literários. Um autor não pode escrever nada legível sem que lute constantemente para apagar a sua própria personalidade. A boa prosa deve ser como uma vidraça”. Para ele, acho, a “personalidade” a ser apagada é a que resulta num estilo literário que chama a atenção para si mesmo. Para Orwell e Asimov, o leitor não deve prestar atenção no modo como a frase foi escrita. Se ele parar para “saborear” uma frase é sinal de que a vaidade do autor está interferindo com a contação de história.

A analogia entre literatura e vidraça não se sustenta, como a maioria das analogias. Ela pressupõe que existe uma realidade objetiva “lá fora” e que a prosa literária deve servir, com discrição e não-interferência, para revelar essa realidade. Ora, não existe nos livros (de Asimov, de Orwell, etc.) nenhuma realidade independente das palavras com que está sendo descrita. Não existem vidraças por onde os fatos possam ser vistos “exatamente somo são”. Toda linguagem escrita, toda obra literária é uma tela animada, feita de palavras, por trás do qual existe apenas o vácuo negro da não-existência. As imagens que imaginamos ver através da vidraça são na verdade criadas na superfície da própria vidraça, que nesse caso se parece menos com vidraça e mais com uma tela de cristal líquido. Toda literatura é vitral, e revela apenas a si própria.

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