Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 18 de maio de 2012
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Bráulio Tavares
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O quarto Vazio

[Bráulio Tavares]

 
("Empty Room", de Mojca Savicki)

As oficinas literárias popularizaram um conceito chamado “Síndrome do Quarto Vazio”. É o diagnóstico de milhares de contos apresentados nessas oficinas que começam mostrando isto: um personagem sozinho, dentro de um quarto vazio (ou com o mobiliário reduzido ao mínimo), muitas vezes com amnésia, sem lembrar quem é ou o que está fazendo ali. É exatamente a condição do escritor sem idéias que, para cumprir uma tarefa designada pelo professor precisa escrever um conto, e não tem assunto. Ele começa do zero mental, que, literariamente, se exprime pela imagem do quarto vazio. 

Essa situação pode ser estendida para os milhares de livros e contos que chegam a ser de fato publicados pelas editoras e expostos nos balcões das livrarias. A gente pega, folheia, e constata que o livro fala daquilo: um personagem sozinho, num ambiente que quase não é mostrado, sem passado, sem futuro, debatendo-se em suas dúvidas íntimas (ou coisa equivalente). Por incrível que pareça, dezenas de livros assim são publicados por ano. Uma quantidade tão grande que não admira que de vez em quando um deles seja bom e possa ser lido até o fim. Mas, amigos, fazer um livro bom com esse tipo de situação é mais difícil do que fazer um livro bom sobre um assunto de verdade. Um cara sozinho num quarto? Sempre tem um escritor que consegue tirar algum leite dessa pedra, mas 999 dão com a cara na porta.

Samuel Delany, num dos seus manuais de escrita, observa: “Quanto menos interesse o autor ou os seus personagens tenham pelos seus empregos, rendas, famílias, classe social, locatários, amigos, vizinhos e paisagens (ou seja, tudo que os conecta com o mundo material à sua volta), menos ele terá sobre o que escrever”. Em geral, o escritor que gosta de escrever sobre quartos vazios é um sujeito insatisfeito com a própria vida, com a própria família, o próprio emprego, a casa onde mora, a cidade onde vive. Ele não quer escrever sobre aquilo, pelo contrário. Quer fugir daquilo como o diabo da cruz. Quer esquecer esse enredamento social e humano a que todos nós estamos sujeitos, e não tem paciência (ou criatividade) para imaginar uma situação totalmente diferente. Melhor pensar num personagem amnésico, dentro de um quarto vazio, remoendo suas elucubrações íntimas ao longo de 150 páginas. 

A literatura fantástica e a ficção científica são muitas vezes acusadas de serem fugas à realidade, quando na verdade a grande maioria dos textos fantásticos se esmera em produzir uma realidade humana e social suficientemente densa para receber o choque do fantástico. Quem quer fugir da realidade não inventa outro planeta: tranca-se num quarto vazio

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