Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
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Bráulio Tavares
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O estilo de Saramago

[Bráulio Tavares]

Nunca terminei nenhum dos romances de José Saramago, embora ache excelentes todos os que li até a metade. Sou um leitor indisciplinado e descontínuo. Prosa mais elaborada me cativa mas me desnorteia. Me força a passar às vezes um dia inteiro lendo e relendo uma página, atrapalhado mas sabendo o quanto aquilo me traz de lucro intelectual e prazer estético. Ótimo – mas é um ritmo de leitura arriscado para enfrentar um romance de 300 páginas. Quando abandono um desses livros não é por estar pensando “ah, que saco, que livro chato, estou perdendo meu tempo”. É com a sensação de que ele me exige um esforço intelectual que não estou em condições de empreender no momento. Melhor interromper a leitura, devolver o livro à estante e pegar, na pilha de “leituras obrigatórias” (ou na de “aquisições recentes”, ou na de “referências necessárias para um trabalho em andamento”, ou na de “releituras de obras lidas na imaturidade”, etc.) algo que flua mais depressa, que possa ser lido no metrô, no aeroporto e na fila do Banco.

Não consigo ler Saramago ou Osman Lins ou Nabokov na fila do Banco, mas consigo ler Roberto Bolaño ou Philip K. Dick ou Isaac Bashevis Singer, que considero tão bons quanto os anteriores, e cuja leitura flui sem se deixar perturbar pelo barulho em volta. Isto coloca de maneira útil a velhíssima e equivocada questão de que escritor bom tem que ser difícil, e que se um escritor é difícil é porque é bom, e se é fácil então certamente deve ser ruim. Jorge Amado (exemplo de escritor que tem coisas muito boas e coisas muito fracas) é sempre fluente, independentemente da qualidade. O que há é que a leitura fluente é aquela em que não precisamos de muito esforço para pegar de volta uma leitura interrompida uma semana ou um mês atrás (o que comigo é muito frequente). Pego o livro que larguei na página 245, volto uma ou duas para me situar, e daí em diante é como se tivesse parado de ler na véspera.

Outros autores não permitem isso. Se o fazemos é ao preço de perder muito do que têm de bom para nos dar. Alguns autores exigem, seja pela densidade da linguagem, seja pela complexidade do enredo, que no momento da leitura tenhamos vívidos na memória centenas de elementos recém-referidos, no parágrafo anterior, na página anterior, no capítulo anterior. Existe uma acústica de ressonâncias que, numa leitura muito interrompida, acabamos sem perceber. Alusões que nos fazem “cair a ficha” se lembramos de algo dito cinco páginas atrás; se já esquecemos (porque a página foi lida na semana anterior), a ficha cai no vácuo.

Voltando a Saramago: o momento do que ele narra é sempre muito nítido, muito visualmente realista e concreto, mas seus enredos gostam de um labirinto. E sua pontuação (de que ele tanto se orgulhava, com motivos) é um irritante cacoete para alguns leitores, que simplesmente não conseguem assimilá-la. Há leitores para quem uma interferência nesse aspecto estraga qualquer prazer.

 

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