Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
CANTA-ARES
Bráulio Tavares
Tamanho da letra A +A

Drummond - "Toada do amor"

Bráulio Tavares

Os poemas de amor de Alguma Poesia (cujos 80 anos de publicação o Brasil está comemorando, ou melhor, os 8,12% do Brasil que leem poesia) parecem hoje meio bobinhos, meio dejavi, certamente porque antes de lê-los no livro de 1930 tomamos conhecimento das diluições que sofreram nos anos 1980. E olha que o amor nem foi o território em que Drummond, ao estrear em livro, produziu maiores abalos sísmicos, pelo menos comparado à constatação existencialista “avant la lettre” da vacuidade de sentido prévio à presença humana sobre a Terra (“No meio do caminho”). “Toada do amor” (que já no título questiona obliquamente, plebeiamente, a noção de “canções de amor”) é um poeminha singularmente banal e incomodamente irredutível a explicações. Reduzamo-lo.

Começa assim: “E o amor sempre nessa toada: / briga perdoa perdoa briga”. Essa repetição invertida é uma das figuras retóricas preferidas de Drummond. Exprime aquela notória rotina de todos os namorados presos aos nós das relações em que se concede a “A” o direito do questionamento e a “B” o dever da explicação, e vice-versa. Nunca se sai do lugar, porque o assunto em si nunca importa. Importa o exercício do Poder da Briga para poder exercer o Poder do Perdão.

“Não se deve xingar a vida”, aconselha o poeta; “a gente vive, depois esquece. / Só o amor volta para brigar, / para perdoar, / amor cachorro bandido trem”. Eis uma estrofe que começa bem e termina num rébus. Só me resta tentar interpretá-la literalmente. Cachorro: a gente o enxota a pontapés e ele volta fiel, de língua de fora. Bandido: a gente não pode confiar em nenhum trato, nenhuma jura. Trem: tudo bem, a gente perde um, daqui a pouco vem outro.

“Mas se não fosse ele, também / que graça que a vida tinha?” Ouso afirmar que nenhum Parnasiano ou Simbolista fez essa pergunta, mesmo deixando de lado a linguagem de flanelinha-de-estacionamento-de-show. Para os ânteros, o Amor era uma maiúscula inquestionável. Quase um imperativo categórico. Os Modernistas são mais jovens, mais leves com a bola nos pés, mais dispostos a driblar (e consequentemente a serem driblados sem perder a esportiva). Que coisa boa, esse tal de amor! O problema é que acaba logo, mas o camarada vai fazer o que? Suicidar-se com absinto, com láudano, com garrucha de dois canos?

Não, amigos. O Modernismo fez um acordo com o Amor. É a coisa mais-maior da humanidade, tudo bem, mas só é infinito enquanto dura. Ninguém precisa perder a gravata nem penhorar o sobrenome da família. O amor é um fenômeno, digamos, meteorológico, produzido pela Natureza, mas que ao fim e ao cabo deixa-a intacta no essencial. É preciso amar, e por isto mesmo não se pode atribuir a cada Amor um sentença de vida e morte. “Mariquita, dá cá o pito / no teu pito está o infinito”. O que é o pito? Não sei, e do ponto de vista retórico é bom que não o saibamos, porque cada um continuará a procurá-lo, Santo Graal inesgotável das terras do Sem-Fim.

Compartilhar em redes sociais

Comentários (0)

Deixe o seu comentário


Reload Image








Últimas matérias da coluna

10.02.2012 - Traduções de Poe

02.02.2012 - Traduzir o sertão

01.02.2012 - O segredo de Descartes

25.01.2012 - Raymond Queneau

22.01.2012 - “Reality shows”

20.01.2012 - Escritor pop

09.01.2012 - Fogo Pálido

06.01.2012 - O quarto Vazio

03.01.2012 - A palavra "mangar"

02.01.2012 - O leitor fã

27.12.2011 - Mais que humano

18.12.2011 - A epifania do líder

12.12.2011 - O artista farol

10.12.2011 - Consciência artificial

08.12.2011 - O vitral e a vidraça

Ver mais

Dicionário de Escritores Entretextos Editora On-line
Entretextos Acadêmico
Rádio Entretextos

Twitter

Carregando...
Últimas matérias

10.02.2012 - Planeta-Casa de América anuncia seus finalistas

Planeta-Casa de América anuncia seus finalistas

10.02.2012 - Traduções de Poe

Quando organizei minha antologia de 2010, Contos Obscuros de Edgar Allan Poe, minha idéia era publicar em português alguns contos que, apesar de muito bons, eram menos conhecidos

10.02.2012 - Menos ais, mais vivas e satisfações, leitor!

Os hedonistas geralmente são alvos da crítica pelo apetite ao prazer

10.02.2012 - O contador de histórias

Nunca se soube se ele sabia ler e escrever.

10.02.2012 - Cidades Maranhenses recebem novas bibliotecas

Cidades Maranhenses recebem novas bibliotecas

10.02.2012 - Tentando entender o Brasil e o mundo

Mais um componente desfavorável desponta

10.02.2012 - A morte de Maurice Girodias, em 1990

O dono da famosa editora Olympia Press, de Paris, sofreu um enfarte quando estava sendo entrevistado, ao vivo, numa emissora de rádio francesa

10.02.2012 - Lucilene Gomes Lima: FICÇÕES DO CICLO DA BORRACHA NO AMAZONAS

Estudo comparativo dos romances A selva, Beiradão e O amante das amazonas

10.02.2012 - cronicasdesabado - nosso noticiário etc.

cronicasdesabado - nosso noticiário etc.

09.02.2012 - Antônio de Pádua é eleito titular da Cadeira 48 da ALRESC

Antônio de Pádua é eleito titular da Cadeira 48 da ALRESC

09.02.2012 - Jennifer Egan na Flip

Jennifer Egan na Flip

09.02.2012 - Lucilene Gomes Lima: FICÇÕES DO CICLO DA BORRACHA NO AMAZONAS

Escritores brasileiros abordaram amplamente os ciclos econômicos através de sua prosa.

08.02.2012 - O amante das amazonas: o ciclo sob o olhar de um analista-autor

Dissertação de mestrado: Estudo comparativo dos romances “A selva” (FERREIRA DE CASTRO), “Beiradão” (ÁLVARO MAIA) e “O amante das amazonas” (ROGEL SAMUEL),

08.02.2012 - Manual da criança Caiçara

Manual da criança Caiçara

08.02.2012 - Em memória do cantor e compositor Wando

A arte que resiste às estritas classificações de gêneros de produtos de cultura: [1] tradicional-popular (artesanal, folclórico); [2] erudito (erudito-clássico e erudito-vanguardista); e [3] pop (anticlássico, de ampla audiência)

LABORATÓRIO DE REDAÇÃO PROF. DÍLSON LAGES
Baloon Center, Av. Pedro Almeida nº 60, Loja 21 (segundo piso) - São Cristóvão - Teresina - Piauí - Fone (86) 3233 9444
e-mail: dilsonlages[@]uol.com.br