Dilson Lages Monteiro Sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
CANTA-ARES
Bráulio Tavares
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Drummond:

[Bráulio Tavares]

(Mário de Andrade, por Lasar Segall, 1927)

Depois do grito-do-ipiranga literário que foi o Modernismo de 1922 este poema de Drummond (em Alguma Poesia, que comemora 80 anos de publicação) talvez seja o sinal de um refluxo cauteloso do entusiasmo inicial do movimento, ou quem sabe (deixo isto aos historiadores das idéias) não passe de uma meia-trava oriunda do próprio espírito desconfiado do poeta, cujos arroubos coletivos só o levavam até a esquina. Chegando lá, Drummond deixava o cordão dos entusiasmados seguir seu caminho e voltava para casa vagaroso, de mãos pensas. Quando ele diz que também já foi brasileiro e moreno, isto parece uma despedida precocemente nostálgica de tudo que o Modernismo rasgava às escâncaras: nossa mestiçagem, nossa ginga. Nesse livro, que em muitos aspectos é uma das grandes afirmações do nosso Modernismo, mesmo publicado 8 anos após seu brado inicial, este poema já cria uma problematização dos trunfos que o Modernismo espalhava na mesa.

Um detalhe interessante é o modo como o poeta diz: “Eu também já fui brasileiro / moreno como vocês”. Vocês quem, cara pálida? Os paulistas da Semana de 22, entre eles Mário de Andrade, a quem o livro é dedicado com um laconismo que diz tudo (“A Mário de Andrade, meu amigo”)? “Ponteei viola, guiei forde” parece alusão conjunta a Mário e Oswald; é curioso notar que “forde” é um aportuguesamento de ocasião que não pegou como pegou, por exemplo, “bonde”. A violinha do capiau e o automóvel do dândi eram sintomas do Modernismo; contradizendo-se, o reforçavam. Ambos negavam o inimigo comum, o Parnasianismo de Bilac, que Drummond destrói na segunda estrofe, chamando as estrelas (com uma ironia que lembra alguma “boutades” de Jorge Luís Borges) de “substantivos celestes”.

O poeta afiança que já teve ritmo, “fazia isso, dizia aquilo”, e que “meus amigos me queriam, / meus inimigos me odiavam”. Como é de praxe em toda frente de batalha literária. Em toda a carreira de Drummond, contudo, fases de empolgação e loquacidade por um ideal qualquer são seguidas por fases em que o poeta se recolhe, se melancoliza, queixa-se da dificuldade em dizer as coisas. Em sua poesia, há sempre uma análise de hoje sopesando as dívidas deixadas pelo entusiasmo de ontem. Mesmo nesse momento inicial, um mero menino de 28 anos, o poeta já treina para sisudo, já confessa que perdeu o rebolado: “Hoje não deslizo mais não, / não sou irônico mais não, / não tenho ritmo mais não”. Deslizamento, ironia e ritmo estão presentes justamente nesta negação tripla que nos lembra São Pedro na noite da prisão de Cristo. Apóstolo modernista em crise, Drummond bota sua própria fé na balança e se angustia ao ver como esta mal estremece. Não importa: este momento de dúvida tão bem registrado acaba por dar credibilidade aos outros (muitos) momentos de afirmação modernista no restante do livro. Mas é sintomático que o poeta o tenha colocado logo nas páginas iniciais. Para fazer constar na ata.

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