CANTA-ARES
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Bráulio Tavares
Parece que há uma epidemia em curso no Ocidente, de achar que “o mundo não é mais o mesmo”, “as novas gerações se comportam de uma maneira que, no meu tempo, seria inadmissível” e assim por diante. Será verdade? Eu, pelo menos, acho; e vivo a repetir essas frases, mas repito-as com a consciência de que são o karma que cabe a cada geração de ex-candidatos a revolucionários. Os contestadores de hoje (cabelo moicano, tatuagens, promiscuidade, drogas) dirão daqui a 30 anos: “Esses jovens de hoje não têm noção de valores!”. E la nave va.
Li na Web (http://www.city-journal.org/2008/18_4_otbie-british_character.html) um artigo assinado por um gentleman com o irresistível nome de Theodore Dalrymple (que a revista informa ser médico, e autor do livro Not With a Bang But a Whimper) em que ele fundamenta críticas desse tipo com algumas argutas observações sobre o ser humano e as civilizações de língua inglesa. Teríamos muito a aprender com a decadência britânica, porque parece que todas as decadências se assemelham.
Mr. Dalrymple fala que sua mãe chegou à Inglaterra fugindo da Alemanha nazista e se encantou com os ingleses, com seu caráter, seu modo de ser. Diz ele: “Os britânicos lhe pareceram indivíduos centrados, controlados, respeitadores da lei, e ao mesmo tempo tolerantes com outras pessoas, por mais excêntricas que fossem, e com uma visão profundamente irônica da vida, que os encorajava a rir de si mesmos e a perceber sua própria desimportância no universo. (...) Eram polidos e atenciosos, em vez de intrometidos e presunçosos; os que eram seguros de si procuravam não humilhar os tímidos ou retraídos; e mesmo os mais bem-sucedidos tinham consciência de que seu sucesso era uma mera gota dágua num oceano de possibilidades, e bem que poderia ser ainda maior se eles tivessem se esforçado um pouco mais ou tivessem mais talento”.
Não sei se os ingleses são assim, mas se alguém é assim eu bato palmas. Mr. Dalrymple observa mais adiante que um inglês deve ser o único indivíduo que, quando alguém pisa no seu pé, ele pede desculpas. Mas ele registra com dissabor que “a cultura e o caráter dessa contenção tipicamente britânica transformou-se no seu contrário. Atitudes extravagantes, veemência de expressão, o hábito de se vangloriar, de se exibir, ausência de qualquer tipo de inibição... é isto que temos que admirar hoje, e a antiga modéstia é objeto de escárnio”.
Nada disto tem a ver com o Brasil, não é mesmo? Eu, pelo menos, acho que não. Ademais, essas coisas geralmente se manifestam em movimentos pendulares – numa hora vão na direção de Mais Bagunça, aí quando a coisa está bagunçada demais começa um movimento na direção de Mais Disciplina, que acaba por se tornar insuportável, e aí lá vem a Mais Bagunça de novo... Enfim, “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, como dizia Camões. Mas algo me diz que, se bem que o Brasil tenha esperanças, o império britânico (infelizmente) nunca mais será o mesmo.
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