Dilson Lages Monteiro Segunda-feira, 06 de fevereiro de 2012
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Bráulio Tavares
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Conversações de Borges

Bráulio Tavares

A Editora Hedra, de São Paulo (www.hedra.com.br) lançou, numa caixa com três pequenos e charmosos volumes, as conversações mantidas entre Jorge Luís Borges e o jornalista Osvaldo Ferrari para a Rádio Municipal de Buenos Aires, entre 1984 e 1985. São ao todo 90 programas, ou capítulos, que resultam em três volumes com cerca de 230-240 páginas cada um. Seus títulos são enganosos: Sobre a Filosofia e outros diálogos, Sobre os Sonhos e outros diálogos e Sobre a Amizade e outros diálogos. Cada volume traz 30 diálogos sobre assuntos diferentes, e, no interior de cada um deles, Borges e seu interlocutor passeiam com agilidade e leveza por tudo que lhes dá na cabeça. Sempre num tom ameno do qual não estão ausentes a crítica ferina, o aforismo espirituoso, o “insight” inesperado, a comparação surpreendente entre idéias e assuntos.

No volume sobre “Filosofia”, por exemplo, vemos Borges discorrer sobre os Estados Unidos, sua história, sua língua. Borges comenta que o México e o Estado de Michigan têm uma origem filológica semelhante através do termo intermediário “Michoacán”. Ao se referir ao “Deep South”, Borges observa que a tradução literal “Sul Profundo” não funciona, mas que “Sul Secreto” parece mais próxima do sentido da expressão inglesa.

No volume sobre “Sonhos”, ele faz pela enésima vez o elogio da literatura fantástica, dizendo que o realismo literário é “uma invenção funesta” e que “talvez desapareça”. E reafirma mais uma vez seu apreço pela fabulação, comentando as fábulas de Esopo (ou “dos gregos que chamamos Esopo”): “Seria muito estranho que alguém começasse por algo tão abstrato como a moral, e que depois chegasse a uma fábula. Parece mais natural supor que se comece pela fábula”.

No volume sobre a “Amizade”, é curiosamente no diálogo sobre pintura que Borges, provocado por Ferrari, reafirma seu amor pela música: os “blues”, os “spirituals” e George Gershwin. Comentando o jazz, o escritor se sai com uma imagem surpreendente: “Quando escuto jazz, o que me chama a atenção é que ouço sons que não ouço em nenhuma outra música, sons que parecem sair do fundo de um rio, não? Como se fossem produzidos por elementos distintos, sim, e isso determina uma riqueza, ter incorporado novos sons”.

Sou meio suspeito para elogiar Borges. Ele me parece o tipo ideal de erudito: o que pensa o tempo todo, o que não apenas lê livros mas compara as idéias desses livros, o que medita profundamente sobre o que faz um texto ser superior a outro, e que cita mil autores, não para exibir erudição, mas para demonstrar o quanto as idéias são costuradas por milhões de mentes humanas e podem ser acessadas de diferentes pontos, diferentes obras. Os 90 diálogos destes livros (dos quais li apenas três para redigir esta coluna) certamente são 90 portas diferentes para o mesmo labirinto. Jessier Quirino diz que o poeta é um “prestador de atenção”, e pouca gente terá prestado tanta atenção ao nosso mundo mental quanto Borges.

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