CANTA-ARES
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[Bráulio Tavares]
“Mangar” é uma dessas palavras que, lá pelo Rio e São Paulo, denunciam de cara um nordestino. Me lembro de uma vez em que um grupo de amigos fazia gozação com meu vocabulário e eu disse: “Eu falo igual a vocês todos, não vejo motivo pra ficarem mangando de mim”. Foi o que bastou! Diferentemente de muitos outros termos do nordestinense, lá fora as pessoas em geral entendem o que a palavra quer dizer, e conseguem usá-la com propriedade. O ponto onde a coisa trava é a regência verbal. Nós dizemos “mangar de”: “Todo mundo mangou de mim porque eu abotoei errado a camisa e não reparei”. Pessoas não-nordestinas usam a-três-por-dois a regência “mangar com”: “Não sei por que vocês estão mangando comigo”.
Isto parece que vem de longa data, como se pode ver neste exemplo colhido meio ao acaso: “...parecia crer que, oculto em algum lugar, Deus também o ouvisse e mangasse com ele, de lá do forro do céu, mando modo: -- ‘Você pecou de bobo, Chefe! Foi trabalhar, de bobo, só...’” (Guimarães Rosa, “Buriti”). Por que será? Talvez porque quando uma pessoa de fora entende o significado de “mangar”, os primeiros sinônimos que lhe ocorrem sejam “fazer gozação, sacanear, tirar onda, zoar, etc.”. E a regência de todos eles usa a preposição “com”: “Você está fazendo gozação comigo, a gente estava tirando onda com a cara da professora, a galera começou a zoar com Fulano, etc.”.
E estas duas formas se alternam no ouvido dos sudestinos, inclusive dentro da fala e da escrita de um mesmo autor. Em sua peça Nova Viagem à Lua (1877), onde mistura personagens urbanos e caipiras, Artur Azevedo faz um personagem dizer (ato 3, cena 6): “Que vestimenta é esta? Eu não sou sordado! Quem me vestiu assim? Mangarum comigo!”. Já na cena 12 do mesmo ato, o personagem Arruda diz ao filho: “Venha cá, seu rei da Lua, então ‘vacê’ mangou de seu pai...” Isto certamente se deve ao fato de que o teatrólogo conhecia a palavra através de diferentes pessoas, que usavam tanto a regência correta quanto a errada. E na hora de escrever, “ao correr da pena”, como se dizia na época, vinha-lhe ora uma ora outra expressão, sem que ele percebesse.
A melhor maneira de consertar esse pequeno erro é explicar às pessoas de fora que “mangar” significa “zombar” – um verbo que pede a mesma regência, usando a preposição “de”: “A gente ontem estava mangando da torcida deles, mas agora são eles que estão zombando da gente”. Diferentemente dos outros sinônimos acima, são verbos totalmente intercambiáveis, que têm o mesmo sentido e pedem a mesma preposição. Portanto, vamos definir mangar como zombar, e parar de fazer as duas coisas com nossos compatriotas.
Muito bom, Bráulio, seu texto. Hem-hém, depois de 40 e tantos anos de Piauí (deles, mais da metade estudando Letras), eu nunca havia notado essa regência "mangar com", nem mesmo nas crianças daqui, que também têm uma forte predileção pelas novidades, sobretudo, as linguísticas. É, o "mangar de" tem mesmo a preferência por estas terras. Excelente, a observação quanto ao registro feito por Aluísio Azevedo, das duas regências em sua peça "Nova Viagem à Lua". Quando posso, gosto de buscar esse tipo de estudo nos livros que leio; é muito extasiante. Estou preparando um texto nessa linha, que publicarei na minha coluna, aqui, no Entre-textos.
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